11. “A Escrava”, o conto de Maria Firmina dos Reis

SÉRIE DE POSTS SOBRE MARIA FIRMINA

O ano da primeira divulgação do romance “Úrsula”, de Maria Firmina dos  Reis

“Úrsula”, o romance de Maria Firmina dos Reis

A história do romance “Úrsula”

A primeira publicação online da novela “Gupeva”

“Cantos à Beira-Mar”, o livro de poemas de Maria Firmina dos Reis

A produção artística avulsa de Maria Firmina dos Reis

O “Álbum” (o diário) de Maria Firmina dos Reis

A educadora Maria Firmina dos Reis

O retrato falso de Maria Firmina dos Reis

O espírito feminista e revolucionário das primeiras escritoras brasileiras de ficção

O erro histórico do Google sobre Maria Firmina e as datas de nascimento e morte de três pioneiros da ficção brasileira

RESUMO

Tema: o conto “A Escrava”, a terceira e última produção ficcional de Maria Firmina dos Reis.

Publicação do conto: “Revista Maranhense”, ano 1, número 3, novembro de 1887.

Data do lançamento da edição da revista: 9 de novembro de 1887.

Reedições do conto:

. “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”, de José Nascimento Morais Filho (Governo do Estado do Maranhão, São Luís, 1975).

. “Úrsula”, 4ª edição, atualização do texto e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora Mulheres (Florianópolis, SC) e PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2004.

. “Úrsula”, 5ª edição (edição comemorativa dos 150 anos do romance), atualização do texto e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora Mulheres (Florianópolis, SC) e PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2009.

. “Úrsula”, 6ª edição, apresentação e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2017.

. “Questão de Pele: Contos sobre Preconceito Racial”, organização, prefácio e seleção de Luiz Ruffato, Língua Geral, 2010.

. “Contos do Mar sem Fim”, Pallas Editora, Rio de Janeiro, 2015.

. “Antologia de Contos Românticos: Machado, Álvares de Azevedo, João do Rio e cia.”, edição de Mario Higa, Editora Lazuli Ltda., 2017.

. “Memorial de Maria Firmina dos Reis”, Editora Uirapuru (São Paulo, SP), 2017.

Estudos sobre a obra:

. “Vozes Femininas e Étnicas: A Narrativa Enquanto Expressão da Vida”, Maria Aparecida de Barros, “Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários”, Volume 17-B, dezembro de 2009.

. “A mente, essa ninguém pode escravizar: Maria Firmina dos Reis e a escrita feita por mulheres no Maranhão”, Régia Agostinho da Silva, UFMA, 2010.

. “Represent(Ações) Literárias em ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Elizângela Fernandes Barbosa, XIV Seminário Nacional e V Seminário Internacional Mulher e Literatura, UnB, 2011.

. “Em texto e no contexto social: Mulher e literatura afro-brasileiras”, Sandra Maria Job, tese de Doutorado em Teoria Literária, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC), 2011.

. “Maternidade e Afrodescendência em ‘Úrsula’ e ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Danielle de Luna e Silva, “Cadernos Imbondeiro”, Volume 2, Número 1, UFPB, 2012.

. “Interdição no Discurso, Poder e Construção do Sujeito no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Ana Carla Carneiro Rio, Anais do SILEL, Volume 3, Número 1, Uberlândia (MG), EDUFU, 2013.

. “A escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e as representações sobre escravidão e mulheres no Maranhão na segunda metade do século XIX”, Régia Agostinho da Silva, USP, 2013.

. “A Narrativa Abolicionista no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis, Ana Carusa Pires Araujo (Uespi/Fapepi), XIV Congresso Internacional Fluxos e Correntes: Trânsitos e Traduções Literárias, Belém (PA), 2015.

. “As Marcas da Escrita Afrodescendente no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis” Ana Luiza Francelino Lima (UESPI), Anais do IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Teresina (PI), 18 a 20 de novembro de 2015.

. “A literatura abolicionista de Maria Firmina dos Reis: o conto ‘A escrava'”, Bárbara Loureiro Andreta e Anselmo Peres Alós, “Confluenze”, Volume 8, Número 1, páginas 184 a 197, 2016.

. “Maria Firmina dos Reis e seu conto ‘A escrava’: consolidando uma literatura abolicionista”, Rafael Balseiro Zin, “Revista XIX, Artes e Técnicas em Transformação”, Volume 1, Número 4, 2017.

. “A Invisibilidade das Mulheres Negras na Literatura Brasileira: Uma Análise do Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina Dos Reis”, Abdulai Danfá, Nuna Nunes Correia, Satumata M. Sambu Sanhá e Carlos Eduardo Bezerra, IV Semana Universitária, UNILAB, 2017.

. “Escravidão e loucura: uma leitura do conto ‘A escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, José Gomes Pereira, “Revista Estudos Linguísticos”, volume 46, número 3, páginas 1134 a 1144, Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL), 2017.

. “‘The Slave Woman.’ A short story by Maria Firmina dos Reis,” de Cristina Ferreira-Pinto Bailey, “Afro-Hispanic Review”, Volume 32, Número 1, Vanderbilt University (EUA), 2012.

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LINKS INTERNOS

Apresentação

A publicação original do conto

Reedições do conto

Estudos sobre a obra

Critérios de atualização de texto

“A Escrava”

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O TEXTO COMPLETO

“A ESCRAVA”, O CONTO DE MARIA FIRMINA DOS REIS

Apresentação

Maria Firmina dos Reis publicou somente três histórias de ficção: o romance “Úrsula” (1860), a novela curta “Gupeva” (1861) e o conto “A Escrava” (1887).

Curiosamente, a produção ficcional da autora seguiu caminho inverso ao tradicional: os escritores iniciantes geralmente começam a carreira experimentando com contos e depois passam aos textos mais extensos, como a novela e o romance.

Não se sabe o motivo pelo qual a escritora maranhense desistiu de publicar romances após o lançamento de “Úrsula”, embora o meio em que vivia (sem nenhum contato com a elite literária do Maranhão), as circunstâncias da época (pouco receptivas a escritoras e pouco estimulantes aos escritores em geral) e sua condição financeira (a de uma professora primária) possam ter influenciado essa decisão.

Leude Guimarães, o filho de criação de Maria Firmina que coletou o material literário após a morte da escritora (material furtado dias depois), informou a José Nascimento Morais Filho que entre os papéis se encontravam “romances”.

Isso indica que a ligação de Maria Firmina com a forma literária persistiu após “Úrsula”, e também que a resposta à questão acima pode estar centrada nas oportunidades, e não nas intenções (ou mesmo na avaliação do conteúdo produzido).

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A publicação original do conto

Abaixo, a imagem escaneada do início do conto “A Escrava”, como saiu na “Revista Maranhense”, ano I, número 3, na edição de novembro de 1887. A imagem é uma captura da obra “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”, de José Nascimento Morais Filho (São Luís, 1975).

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Eis o anúncio do primeiro número da revista, no “Diário do Maranhão”.

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“Diário do Maranhão”, 23/9/1887, ano XVIII, número 4213, página 3, penúltima coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720011/19481

O periódico “Pacotilha” também divulgou o lançamento da revista.

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“Pacotilha”, 5/9/1887, ano VII, número 225, página 3, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/6919

O escritor maranhense Artur Azevedo, assinando com seu pseudônimo “Eloy, o Heroe” a coluna no jornal carioca “Novidades”, comentou a iniciativa literária, lembrando também o “Semanário Maranhense”, onde Maria Firmina publicou textos, poemas e charadas.

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“Pacotilha”, 28/10/1887, ano VII, número 278, página 3, primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/7131

Em 8 de novembro, o mesmo jornal divulgou o número 3 da revista, com o conto “A Escrava”. Pela nota, temos a informação de que essa edição da “Revista Maranhense” começou a ser vendida no dia 9 de novembro (a publicação era mensal).

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“Diário do Maranhão”, 24/12/1887, ano XVIII, número 4289, página 2, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720011/19778

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Reedições do conto “A Escrava”

No período 1976-2017, isto é, após o lançamento de “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”, de José Nascimento Morais Filho (Governo do Estado do Maranhão, São Luís, 1975), no qual aparece a segunda edição de “A Escrava”, esse conto foi o texto mais reproduzido de Maria Firmina dos Reis, superando o próprio romance “Úrsula”.

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Foto copiada da página do Facebook do sociólogo Rafael Balseiro Zin.

https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10155365582232380&type=3

Explica-se: a partir da quarta edição de “Úrsula”, em 2004, o conto fez parte do livro, saindo também na quinta edição (2009) e na mais recente (2017).

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“Úrsula”, 4ª edição, atualização do texto e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora Mulheres (Florianópolis, SC) e PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2004.

image011

“Úrsula”, 5ª edição (edição comemorativa dos 150 anos do romance), atualização do texto e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora Mulheres (Florianópolis, SC) e PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2009.

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“Úrsula”, 6ª edição, apresentação e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, Editora PUC Minas (Belo Horizonte, MG), 2017.

Ao mesmo tempo, o conto era republicado nas seguintes coletâneas:

. “Questão de Pele: Contos sobre Preconceito Racial”, organização, prefácio e seleção de Luiz Ruffato, Língua Geral, 2010.

image013.png

http://www.linguageral.com.br/livro/questao-de-pele/

. “Contos do Mar sem Fim”, Pallas Editora, Rio de Janeiro, 2015.

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https://books.google.com.br/books?id=jiPWCwAAQBAJ&lpg=PT101&dq=Est%C3%A1s%20em%20seguran%C3%A7a%2C%20pobre%20mulher%2C%20disse-lhe&hl=pt-BR&pg=PT94#v=onepage&q=Em%20um%20sal%C3%A3o%20onde%20se%20achavam%20reunidas%20muitas%20pessoas%20distintas%20&f=false

. “Antologia de Contos Românticos: Machado, Álvares de Azevedo, João do Rio e cia.”, edição de Mario Higa, Editora Lazuli Ltda., 2017.

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https://books.google.com.br/books?id=K04ODgAAQBAJ&lpg=PT245&dq=maria%20firmina%20dos%20reis&hl=pt-PT&pg=PT245#v=onepage&q=maria%20firmina%20dos%20reis&f=false

A editora Uirapuru (São Paulo, SP) anuncia em seu site o “Memorial de Maria Firmina dos Reis”, as obras completas da autora, em edição impressa, com previsão de envio em 13 de dezembro de 2017 (a previsão inicial era 21 de novembro). Entre as obras, “A Escrava”.

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https://www.lojaeditorauirapuru.com.br/livros/literatura-adulta1/memorial-de-maria-firmina-dos-reis-pre-venda/

Além disso, o texto completo do conto esteve presente em várias páginas da Web.

. No site Leituras Pretas.

http://leituraspretas.blogspot.com.br/2014/07/maria-firmina-dos-reis-guerreira.html

. No site Literafro.

http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/102/MariaFirminatextosselecionados.pdf

Reprodução de postagem no site Docplayer.

http://docplayer.com.br/11264338-Maria-firmina-dos-reis.html

Outra reprodução, no site Yumpu.

https://www.yumpu.com/pt/document/view/12493045/textos-fale-ufmg/

. No site Facadax.

https://facadax.com/2016/07/15/a-escrava/

Por fim, “A Escrava” estava disponível no final desta dissertação de Paraguassu de Fátima Rocha:

. “A representação do herói marginal na literatura afro-brasileira: Uma releitura dos romances ‘Úrsula’ de Maria Firmina dos Reis e ‘Ponciá Vicêncio’ de Conceição Evaristo”, Paraguassu de Fátima Rocha, Uniandrade, Curitiba, 2008.

https://www.uniandrade.br/info-mestrado/banco-dissertacoes-online/dissertacoes-2008/

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Estudos sobre a obra

A facilidade de acesso incentivou os estudos acadêmicos sobre o conto. Abaixo, aqueles que permitem a consulta integral ao texto.

. “Vozes Femininas e Étnicas: A Narrativa Enquanto Expressão da Vida”, Maria Aparecida de Barros, “Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários”, Volume 17-B, dezembro de 2009.

http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol17B/TRvol17Bc.pdf

. “A mente, essa ninguém pode escravizar: Maria Firmina dos Reis e a escrita feita por mulheres no Maranhão”, Régia Agostinho da Silva, UFMA, 2010.

https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/viewFile/52/51

. “Represent(Ações) Literárias em ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Elizângela Fernandes Barbosa, XIV Seminário Nacional e V Seminário Internacional Mulher e Literatura, UnB, 2011.

http://docplayer.com.br/292784-Represent-acoes-literarias-em-a-escrava-de-maria-firmina-dos-reis.html

. “Em texto e no contexto social: Mulher e literatura afro-brasileiras”, Sandra Maria Job, tese de Doutorado em Teoria Literária, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC), 2011.

http://www.tede.ufsc.br/teses/PLIT0463-D.pdf

. “Maternidade e Afrodescendência em ‘Úrsula’ e ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Danielle de Luna e Silva, “Cadernos Imbondeiro”, Volume 2, Número 1, UFPB, 2012.

http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ci/article/view/14155

. “Interdição no Discurso, Poder e Construção do Sujeito no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, Ana Carla Carneiro Rio, Anais do SILEL, Volume 3, Número 1, Uberlândia (MG), EDUFU, 2013.

http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/wp-content/uploads/2014/04/silel2013_1042.pdf

. “A escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e as representações sobre escravidão e mulheres no Maranhão na segunda metade do século XIX”, Régia Agostinho da Silva, USP, 2013.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-14032014-094659/pt-br.php

. “A Narrativa Abolicionista no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis, Ana Carusa Pires Araujo (Uespi/Fapepi), XIV Congresso Internacional Fluxos e Correntes: Trânsitos e Traduções Literárias, Belém (PA), 2015.

http://www.abralic.org.br/anais/arquivos/2015_1456146331.pdf

. “As Marcas da Escrita Afrodescendente no Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina dos Reis” Ana Luiza Francelino Lima (UESPI), Anais do IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Teresina (PI), 18 a 20 de novembro de 2015.

https://pdfdocumento.com/de-maria-firmina-dos-reis-amazon-simple-storage-service-s3_59cc25781723dd33024a6b41.html

. “A literatura abolicionista de Maria Firmina dos Reis: o conto ‘A escrava'”, Bárbara Loureiro Andreta e Anselmo Peres Alós, “Confluenze”, Volume 8, Número 1, pp. 184-197, 2016.

https://confluenze.unibo.it/article/viewFile/6270/6049

. “Maria Firmina dos Reis e seu conto ‘A escrava’: consolidando uma literatura abolicionista”, Rafael Balseiro Zin, “Revista XIX, Artes e Técnicas em Transformação”, Volume 1, Número 4, 2017.

http://periodicos.unb.br/index.php/revistaXIX/article/view/26862

. “A Invisibilidade das Mulheres Negras na Literatura Brasileira: Uma Análise do Conto ‘A Escrava’, de Maria Firmina Dos Reis”, Abdulai Danfá, Nuna Nunes Correia, Satumata M. Sambu Sanhá e Carlos Eduardo Bezerra, IV Semana Universitária, UNILAB, 2017.

http://semanauniversitaria.unilab.edu.br/gerenciar/download.php?arquivo=../submissao/trabalhos/77a9060689074b4a163b4ddc7b0bafc7.pdf&novoNome=1510_A_INVISIBILIDADE_DAS_MULHERES_NEGRAS_NA_LITERATURA_BRASILEIRA_UMA_ANALISE_DO_CONTO_A_ESCRAVA_

. “Escravidão e loucura: uma leitura do conto ‘A escrava’, de Maria Firmina dos Reis”, José Gomes Pereira, “Revista Estudos Linguísticos”, volume 46, número 3, páginas 1134 a 1144, Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL), 2017.

https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/1695/1287

O único estudo do conto publicado no exterior é este: “‘The Slave Woman.’ A short story by Maria Firmina dos Reis,” de Cristina Ferreira-Pinto Bailey, “Afro-Hispanic Review”, Volume 32, Número 1, Vanderbilt University (EUA), 2012.

https://www.questia.com/library/journal/1P3-3192313211/the-slave-woman-an-introduction

http://www.afrohispanicreview.com/2014/01/vol-32-number-1-spring-2013_8.html

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Critérios de atualização do texto

A atualização abrangeu a ortografia, para conformar o texto ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e também a pontuação, caracterizada, naquela época, pelo excesso de vírgulas e pontos e vírgulas.

Para evitar o incômodo pingue-pongue imposto pelas notas de rodapé, optou-se por incluir uma breve explicação do termo ou da expressão incomum, logo após a sua ocorrência. Essa explicação vem entre colchetes: […]

Para incluir palavras cuja ausência prejudicava a compreensão do texto, optou-se pelo uso das chaves: {…}.

Não será apresentado um resumo da história porque, ao contrário de “Gupeva”, o enredo é simples e linear, a história é curta, e não há necessidade de explicação de seus eventos.

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A ESCRAVA

Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas e bem colocadas na sociedade, e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou menos interessantes, {ela} recaiu sobre o elemento servil.

O assunto era, por sem dúvida, de alta importância. A conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou a discussão.

― Admira-me ― disse uma senhora, de sentimentos sinceramente abolicionistas ―, faz-me até pasmar como se possa sentir e expressar sentimentos escravocratas no presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem e falam bem alto, esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza e avilta a nação inteira!

Levantai os olhos ao Gólgota [o Calvário] ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me:

Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade… Não vedes o abutre que a corrói constantemente!… Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?

Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é e sempre será um grande mal. Dela, a decadência do comércio, porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro: o seu trabalho não é indenizado. Ainda dela nos vem o opróbrio [a desonra pública], a vergonha, porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres, por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde [Inutilmente] procurará um dentre nós convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo…

E depois, o caráter que nos imprime e nos envergonha!

O escravo é olhado por todos como vítima ― e o é.

O senhor, que papel representa na opinião social?

O senhor é verdugo – e esta qualificação é hedionda.

Eu vou narrar-vos, se me quiserdes prestar atenção, um fato que ultimamente se deu. Poderia citar-vos uma infinidade deles, mas este basta para provar o que acabo de dizer sobre o algoz e a vítima.

E ela começou:

― Era uma tarde de agosto, bela como um ideal de mulher, poética como um suspiro de virgem, melancólica e suave como sons longínquos de um alaúde misterioso.

Eu cismava embevecida na beleza natural das alterosas palmeiras que se curvaram gemebundas, ao sopro do vento que gemia na costa.

E o Sol, dardejando seus raios multicores, pendia para o ocaso em rápida carreira.

Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não sei!… mas sentia-me com disposições para o pranto.

De repente, uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados feriram-me os ouvidos, e uma mulher correndo e em completo desalinho passou por diante de mim, e como uma sombra desapareceu.

Segui-a com a vista. Ela, espavorida e trêmula, deu volta em torno de uma grande moita de murta e, colando-se no chão, nela se ocultou.

Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecia foragida, daquela mulher que um minuto antes quebrara a solidão com seus ais lamentosos, com gemidos magoados, com gritos de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e olhar fixo no lugar {em} que a vi ocultar-se.

Ela, muda e imóvel, ali quedou-se.

Eu então a mim mesma interroguei: Quem será a desditosa?

Ia procurá-la ― coitada! Uma palavra de animação, um socorro, algum serviço, lembrei-me, poderia prestar-lhe. Ergui-me.

Mas no momento mesmo em que este pensamento, que acode a todo homem em idênticas circunstâncias, se me despertava, um homem apareceu no extremo oposto do caminho.

Era ele de uma cor parda, de estatura elevada, largas espáduas, cabelos negros e anelados.

Fisionomia sinistra era a desse homem, que brandia brutalmente na mão direita um azorrague [açoite de várias correias trançadas] repugnante, e da esquerda deixava pender uma delgada corda de linho.

― Inferno! Maldição! ― bradara ele, com voz rouca. ― Onde estará ela? ― E perscrutava com a vista por entre os arvoredos desiguais que desfilavam à margem da estrada.

― Tu me pagarás ― resmungava ele. E, aproximando-se de mim:

― Não viu, minha senhora ― interrogou com acento cuja dureza procurava reprimir ― não viu por aqui passar uma negra que me fugiu das mãos ainda há pouco? Uma negra que se finge de doida… Tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas brenhas. Já não tenho fôlego.

Aquele homem de aspecto feroz era o algoz daquela pobre vítima, compreendi com horror.

De pronto, tive um expediente.

― Vi-a ― tornei-lhe, com a naturalidade que o caso exigia ―; vi-a, e ela também me viu: corria em direção a este lugar, mas parecendo intimidar-se com minha presença, tomou direção oposta, volvendo-se repentinamente sobre seus passos. Por fim, a vi desaparecer, internando-se na espessura, muito além da senda que ali se abre.

E, dizendo isto, indiquei-lhe com um aceno a senda que ficava a mais de cem passos de distância, aquém do morro em que me achava.

Minhas palavras inexatas, o ardil de que me servi, visavam a fazê-lo retroceder: logrei meu intento.

Franziu o sobrolho, e sua fisionomia traiu a cólera que o assaltou. Mordeu os beiços e rugiu:

― Maldita negra! Esbaforido, consumido, a meter-me por estes caminhos, pelos matos em procura da preguiçosa… Ora! Hei de encontrar-te, mas deixa estar, eu te juro: será esta a derradeira vez que me incomodas. No tronco… no tronco, e de lá foge!

Então perguntei-lhe, aparentando o mais profundo indiferentismo, pela sorte da desgraçada:

― Foge sempre?

― Sempre, minha senhora. Ao menor descuido, foge. Quer fazer acreditar que é doida.

― Doida! ― exclamei involuntariamente, e com acento que traía os meus sentimentos.

Mas o homem do azorrague não pareceu reparar nisso, e continuou:

― Doida… doida fingida, caro te há de custar.

Acreditei-o [acreditei que fosse] o senhor daquela mísera, mas, empenhada em vê-lo desaparecer daquele lugar, disse-lhe:

― A noite se avizinha, e se a deixa ir mais longe, difícil lhe será encontrá-la.

― Tem razão, minha senhora, eu parto imediatamente ― e, cumprimentando-me rudemente, retrocedeu correndo {para} a mesma estrada que lhe tinha maliciosamente indicado.

Exalei um suspiro de alívio ao vê-lo desaparecer na dobra do caminho.

O Sol de todo sumia-se na orla cinzenta do horizonte, o vento paralisado não agitava as franças [copas das árvores] dos anosos arvoredos, só o mar gemia ao longe da costa, semelhando o arquejar monótono de um agonizante.

Ergui ao céu um voto de gratidão e lembrei-me que era tempo de procurar minha desditosa protegida.

Ergui-me cônscia de que ninguém me observava, e acercava-me já da moita de murta quando um homem, rompendo a espessura, apareceu ofegante, trêmulo e desvairado.

Confesso que semelhante aparição causou-me um terror imenso. Lembrei-me dos criados, que eu tinha convocado a essa hora naquele lugar e que ainda não chegavam. Tive medo.

Parei instantemente e fixei-o. Apesar do terror que me havia inspirado, fixei-o resolutamente.

De repente, serenou o meu temor; olhei-o, e do medo passei à consideração, ao interesse.

Era quase uma ofensa ao pudor fixar a vista sobre aquele infeliz, cujo corpo seminu mostrava-se coberto de recentes cicatrizes; entretanto, sua fisionomia era franca e agradável! O rosto negro e descarnado, seu juvenil aspecto aljofarado [orvalhado] de copioso suor, seus membros alquebrados de cansaço, seus olhos rasgados, ora lânguidos pela comoção de angústia que se lhe pintava na fronte, ora desferindo luz errante e trêmula, agitada e incerta, traduzindo a excitação e o terror, tinham um quê de altamente interessante.

No fundo do coração daquele pobre rapaz devia haver rasgos de amor e generosidade.

Cruzamos, ele e eu, as vistas, e ambos recuamos espavoridos. Eu, pelo aspecto comovente e triste daquele infeliz, tão deserdado da sorte; ele, por que seria?

Isto teve a duração de um segundo apenas: recobrei ânimo em presença de tanta miséria e tanta humilhação, e este ânimo procurei de pronto transmitir-lhe.

Longe de lhe ser hostil, o pobre negro compreendeu que ia talvez minorar o rigor de sua sorte; parou instantaneamente, cruzou as mãos no peito e, com voz súplice, murmurou algumas palavras que eu não pude entender.

Aquele atitude comovedora despertou-me compaixão; apesar do medo que nos causa a presença de um calhambola [quilombola], aproximei-me dele e, com voz que bem compreendeu ser protetora e amiga, disse-lhe:

― Quem és, filho? O que procuras?

― Ah! Minha senhora ― exclamou, erguendo os olhos ao céu ―, eu procuro minha mãe, que correu nesta direção fugindo ao cruel feitor que a perseguia. Eu também agora sou um fugido, porque há uma hora deixei o serviço para procurar minha pobre mãe, que além de ser doida está quase a morrer. Não sei se ele a encontrou e o que será dela. Ah! Minha mãe! É preciso que eu corra a ver se acho, antes que o feitor a encontre. Aquele homem é um tigre, minha senhora ― é uma fera.

Ouvia-o sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo.

― Amanhã ― continuou ele ―, hei de ser castigado porque saí do serviço antes das seis horas, hei de ter trezentos açoites, mas minha mãe morrerá se ele a encontrar. Estava no serviço, coitada! Minha mãe caiu, desfalecida; o feitor lhe impôs que trabalhasse, dando-lhe açoites; ela deitou a correr, gritando. Ele correu atrás. Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram. Mas onde está ela, onde estará ele?

― Escuta ― tornei-lhe então ―, tua mãe está salva. Salvou-a o acaso, e o feitor está agora bem longe daqui.

― Ah! Minha senhora, onde, onde está a minha mãe e quem a salvou?

― Segue-me ― disse eu ―, tua mãe está ali.

E apontei para a moita onde se refugiara.

― Minha mãe ― sem receio de ser ouvido, exclamou o filho. ― Minha mãe!…

Com efeito, ali, com a fronte reclinada sobre um tronco decepado e o corpo distendido no chão, dormia um sono agitado a infeliz foragida.

― Minha mãe ― gritou-lhe ao ouvido, curvando os joelhos em terra, tomando-a nos seus braços. ― Minha mãe… sou Gabriel…

A esta exclamação de pungente angústia, a mísera pareceu despertar.

Olhou-o fixamente, mas não articulou um som.

― Ah! ― redarguiu Gabriel. ― Ah! Minha senhora! Minha mãe morre!

Concheguei-me àquele grupo interessante a fim de prestar-lhe algum serviço. Com efeito, era tempo. Ela era presa de um ataque espasmódico. Estava hirta e parecia prestes a exalar o derradeiro suspiro.

― Não, ela não morre deste ataque, mas é preciso prestar-lhe pronto socorro ― disse-lhe.

― Diga, minha senhora ― tornou o rapaz na mais pungente ansiedade ―, que devo fazer? Volte eu embora à fazenda, seja castigado com rigor, mas não quero, não posso ver minha mãe morrer aqui, sem socorro algum.

― Sossega ― disse-lhe, vendo assomar ao morro, de onde observam tudo que acabo de narrar, os meus criados que me procuravam. ― Espera ― disse-lhe ―, vou fazer transportar a tua mãe à minha casa e lhe farei tornar à vida.

― Diga, minha senhora, ordene.

― Não moro presentemente longe daqui. Sabes a distância que vai daqui à praia? Estou nos banhos salgados.

― Sei, sim, senhora, é muito perto. Que devo então fazer?

― Tu e estes homens ― os criados acabavam de chegar ― vão transportá-la imediatamente à minha morada, e lá procurarei reanimá-la.

― Oh! Minha senhora, que bondade! ― Foi só o que disse e, ato contínuo, tomou nos braços a pobre mãe, ainda entregue ao seu dorido paroxismo, e disse:

― Minha senhora, eu só, levaria minha mãe ao fim do mundo.

Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.

― Sigamos então ― tornei eu.

Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.

Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha que há dois dias apenas eu habitava.

Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor. Era expor-me à vindita [punição] da lei, mas em primeiro lugar {vinha} o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.

Sim, a vindita da lei; lei que, infelizmente, ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo e execrando de oprimir o fraco.

Mas deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade tinham sossego ou tranquilidade! Não.

Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.

Fiz deitar a moribunda em uma cama, fiz abrir as portas todas para que a ventilação se fizesse livre e boa, e prestei-lhe os serviços que o caso urgia, e com tanta vantagem que em pouco recuperou os sentidos.

Olhou em torno de si, como que espantada do que via, e tornou a fechar os olhos.

― Minha mãe!… minha mãe ― de novo exclamou o filho.

Ao som daquela voz chorosa e tão grata, ela ergueu a cabeça, distendeu os braços e, com voz débil, murmurou:

― Carlos!… Urbano…

― Não, minha mãe, sou Gabriel.

― Gabriel ― tornou ela, com voz estridente. ― É noite, e eles, para onde foram?

― De quem ela fala? ― interroguei Gabriel, que limpava as lágrimas na coberta da cama de sua mãe.

― É doida, minha senhora. Fala de meus irmãos Carlos e Urbano, crianças de oito anos que meu senhor vendeu para o Rio de Janeiro. Desde esse dia ela endoideceu.

― Horror! ― exclamei com indignação e dor. ― Pobre mãe!

― Só lhe resto eu ― continuou, soluçando ―, só eu… só eu!…

Entretanto, a enferma pouco e pouco recobrava as forças, a vida e a razão. Fenômenos da morte, por assim dizer: é luta imponente, embora, da natureza, com o extermínio.

― Gabriel? Gabriel, és tu?

É noite. Eu morro… E o serviço? E o feitor?

― Estás em segurança, pobre mulher, disse-lhe. ― Tu e teu filho estão sob a minha proteção. Descansa, aqui ninguém lhes tocará com um dedo.

Como não devem ignorar, eu já me havia constituído então membro da sociedade abolicionista da nossa província e da do Rio de Janeiro. Expedi de pronto um próprio [mensageiro] à capital.

Então ela fixou-me, e em seus olhos brilhou a lucidez, esperança e gratidão.

Sorriu-se e murmurou.

― Inda há neste mundo quem se compadeça de um escravo?

― Há muita alma compassiva ― retorqui-lhe ― que se condói do sofrimento de seu irmão.

Naquela hora quase suprema, a infeliz exclamou com voz distinta.

― Não sabe, minha senhora, eu morro sem ver mais meus filhos! Meu senhor os vendeu… eram tão pequenos… eram gêmeos. Carlos, Urbano…

Tenho a vista tão fraca… é a morte que chega. Não tenho pena de morrer, tenho pena de deixar meus filhos… Meus pobres filhos!… Aqueles que me arrancaram destes braços… este que também é escravo!…

E os soluços da mãe confundiram-se por muito tempo com os soluços do filho.

Era uma cena tocante e lastimosa, que despedaçava o coração.

Ah! Maldição sobre a opressão! Maldição sobre o escravocrata! Cheguei-lhe aos lábios o calmante, que a ia sustendo, e ordenei a Gabriel fosse tomar algum alimento. Era preciso separá-los.

― Quem é vossemecê, minha senhora, que tão boa é pra mim e para meu filho? Nunca encontrei em vida um branco que se compadecesse de mim; creio que Deus me perdoa os meus pecados e que já começo a ver seus anjos.

― E quem é esse senhor tão mau, esse senhor que te mata?

― Então, minha senhora, não conhece o senhor Tavares, do Cajuí?

― Não ― tornei-lhe com convicção. ― Estou aqui apenas há dois dias, tudo me é estranho; não o conheço. É bom que colha algumas informações dele, Gabriel as dará.

― Gabriel! ―disse ela ―, não. Eu mesma. Ainda posso falar.

E começou:

― Minha mãe era africana, meu pai de raça índia, mas eu de cor fusca. Era livre, minha mãe era escrava.

Eram casados, e desse matrimônio nasci eu. Para minorar os castigos que este homem cruel infligia diariamente à minha pobre mãe, meu pai quase consumia seus dias ajudando-a nas suas desmedidas tarefas, mas, ainda assim, redobrando o trabalho, conseguiu um fundo de reserva em meu benefício.

Um dia apresentou a meu senhor a quantia realizada, dizendo que era para o meu resgate. Meu senhor recebeu a moeda sorrindo-se ― tinha eu cinco anos ― e disse: A primeira vez que for à cidade trago a carta dela. Vai descansado.

Custou a ir à cidade; quando foi, demorou-se algumas semanas, e quando chegou entregou a meu pai uma folha de papel escrita, dizendo-lhe:

― Toma e guarda com cuidado: é a carta de liberdade de Joana.

Meu pai não sabia ler; de agradecido beijou as mãos daquela fera. Abraçou-me, chorou de alegria e guardou a suposta carta de liberdade.

Então, furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato, e a viver com alguma liberdade.

Isto durou dois anos. Meu pai morreu de repente, e no dia imediato meu senhor disse à minha mãe.

― Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia.

Minha mãe, surpresa e confundida, cumpriu a ordem sem articular uma palavra.

Nunca a meu pai passou pela ideia que aquela suposta carta de liberdade era uma fraude, nunca deu a ler a ninguém, mas minha mãe, à vista do rigor de semelhante ordem, tomou o papel e deu-o a ler àquele que me dava as lições. Ah! Eram umas quatro palavras sem nexo, sem assinatura, sem data! Eu também a li, quando caiu das mãos do mulato. Minha pobre mãe deu um grito e caiu estrebuchando.

Sobreveio-lhe febre ardente, delírios, e três dias depois estava com Deus.

Fiquei só no mundo, entregue ao rigor do cativeiro.

Aqui ela interrompeu-se; agitou-lhe os membros um tremor convulso. A morte fazia os seus progressos. De novo cheguei-lhe aos lábios a colher do calmante, que lhe aplicava, e pedi-lhe não revocasse lembranças dolorosas que a podiam matar.

― Ah! Minha senhora ― começou de novo, mais reanimada ―, apadrinhe Gabriel, meu filho, ou esconda-o no fundo da terra. Olhe, se ele for preso morrerá debaixo do açoite como tantos outros que meu senhor tem feito expirar debaixo do azorrague! Meu filho acabará assim.

― Não, não há de acabar assim: descansa. Teu filho está sob minha proteção, e qualquer que seja a atitude que possa assumir esse homem, que é teu senhor, Gabriel não voltará mais ao seu poder.

Ela se recolheu por algum tempo; depois, tomando-me as mãos, beijou-as com reconhecimento.

― Ah! Se pudesse nesta hora extrema ver meus pobres filhos, Carlos e Urbano…! Nunca mais os verei.

Tinham oito anos.

Um homem apeou-se à porta do engenho, onde juntos trabalhavam meus pobres filhos: era um traficante de carne humana. Ente abjeto e sem coração! Homem a quem as lágrimas de uma mãe não podem comover, nem comovem os soluços do inocente.

Esse homem trocou ligeiras palavras com o meu senhor e saiu.

Eu tinha o coração opresso, pressentia uma nova desgraça.

À hora permitida ao descanso, concheguei a mim meus pobres filhos, extenuados de cansaço, que logo adormeceram. Ouvi ao longe {um} rumor, como de homens que conversavam. Alonguei os ouvidos; as vozes se aproximavam. Em breve reconheci a voz do senhor. Senti palpitar desordenadamente meu coração; lembrei-me do traficante… Corri para meus filhos que dormiam, apertei-os ao coração. Então senti um zumbido nos ouvidos, fugiu-me a luz dos olhos e creio que perdi os sentidos.

Não sei quanto tempo durou este estado de torpor. Acordei aos gritos de meus pobres filhos, que me arrastavam pela saia chamando-me: Mamãe! Mamãe!

Ah! minha senhora! ― abriu os olhos. ― Que espetáculo! Tinham metido adentro a porta da minha pobre casinha, e nela penetrado, meu senhor, o feitor e o infame traficante.

Ele e o feitor arrastavam, sem coração, os filhos que se abraçavam à sua mãe.

Gabriel entrava nesse momento.

― Basta, minha mãe ― disse-lhe, vendo em seu rosto debuxados [esboçados] todos os sintomas de uma morte próxima.

― Deixa concluir, meu filho, antes que a morte me cerre os lábios para sempre… deixa-me morrer amaldiçoando os meus carrascos.

― Por Deus, por Deus―, gritei eu, tornando a mim ―, por Deus, levem-me com meus filhos!

― Cala-te! ― gritou meu feroz senhor. ― Cala-te ou te farei calar.

― Por Deus―, tornei eu de joelhos, e, tomando as mãos do cruel traficante ―: Meus filhos!… meus filhos!

Mas ele, dando um mais forte empuxão e ameaçando-os com o chicote que empunhava, entregou-os a alguém que os devia levar…

Aqui a mísera calou-se. Eu respeitei o seu silêncio que era doloroso, {até} quando lhe ouvi um arranco profundo e magoado.

Curvei-me sobre ela. Gabriel ajoelhou-se e, juntos, exclamamos:

― Morta!

Com efeito, tinha cessado de sofrer. O embate tinha sido forte demais para suas débeis forças.

A lua percorria melancólica e solitária os páramos do céu e cortava com uma fita de prata as vagas do oceano.

No mesmo instante, um homem assomou à porta. Era o homem do azorrague que eles intitulavam de feitor; era aquele homem de fisionomia sinistra e terrível que me interpelara algumas horas antes acerca da infeliz foragida, e este homem aparecia agora mais hediondo ainda, seguido de dois negros que, como ele, pararam à porta.

― Que pretende o senhor? ― perguntei-lhe. ― Pode entrar.

O pobre Gabriel refugiou-se, trêmulo, ao canto mais escuro da casa.

― Anda, Gabriel ― disse-lhe com voz segura ―, continua a tua obra. ― E, voltando-me para o feitor, acrescentei. ― Eu e este desolado filho ocupamo-nos em cerrar os olhos à infeliz, a quem o cativeiro e o martírio despenharam tão depressa na sepultura.

Comovidos em presença da morte, os dois escravos deixaram pender a fronte no peito. O próprio feitor, ao primeiro ímpeto, teve um impulso de homem, mas, recompondo de pronto a rude e feroz fisionomia, disse-me:

― É hoje a segunda vez que a encontro, minha senhora, entretanto, não sei ainda a quem falo. Peço-lhe que me diga seu nome para que eu conheça [informe] o patrão, o senhor Tavares. É escandaloso, minha senhora, a proteção que dá a estes escravos fugidos.

Estas palavras inconvenientes mereceram o meu desdém; não lhe retorqui.

O meu silêncio lhe deu maior coragem, e, fazendo-se insolente, continuou:

― A senhora coadjuvou a mãe em sua fuga; acabou aqui, mais tarde saberemos de quê. Pretenderá também coadjuvar o filho?

É já o que havemos de ver?…

João, Félix!

E com um aceno indicou-lhes o que deviam fazer.

Gabriel, que ao meu chamado voltara para junto do cadáver de sua mãe, sentindo que o vinham prender, levantou-se espavorido sem saber o que fazer.

― Detém-te! ― gritei-lhe eu. ― Estás sob a minha imediata proteção. ― E, voltando-me para o homem do azorrague, disse-lhe:

Insolente! Nem mais uma palavra. Vai-te, diz a teu amo, miserável instrumento de um escravocrata, diz a ele que uma senhora recebeu em sua casa uma mísera escrava, louca porque lhe arrancaram dos braços dois filhos menores e os venderam para o Sul; uma escrava moribunda, mas ainda assim perseguida por seus implacáveis algozes.

Vai-te e entrega este cartão: aí achará meu nome.

Vai, e que nunca mais nos tornemos a ver.

Ele mordeu os beiços para tragar o insulto e desapareceu.

No dia seguinte, era já de tarde, estava quase a desfilar o saimento da infeliz Joana, quando à porta da minha casinha vi apear-se um homem. Era o senhor Tavares.

Cumprimentou-me com maneira da alta sociedade e disse-me:

― Desculpe-me, querida senhora, se me apresento em sua casa tão brusca e desazadamente [importunamente]; entretanto…

― Sem cerimônia, senhor ― disse-lhe ―, procurando abreviar aqueles cumprimentos que me incomodavam. ― Sei o motivo que aqui o trouxe e podemos, se quiser, encetar já o assunto.

Custava-me, confesso, estar por longo tempo em comunicação com aquele homem, que encarava sua vítima sem consciência, sem horror.

― Peço-lhe mil desculpas se a vim incomodar.

― Pelo contrário ― retorqui-lhe. ― O senhor poupou-me o trabalho de o ir procurar.

― Sei que esta negra está morta ― exclamou ele ―, e o filho acha-se aqui: tudo isto teve a bondade de comunicar-me ontem. Esta negra ― continuou, olhando fixamente para o cadáver ―, esta negra era alguma coisa monomaníaca, de tudo tinha medo, andava sempre foragida, nisto consumiu a existência. Morreu, não lamento esta perda; já para nada prestava. O Antônio, meu feitor, que é um excelente e zeloso servidor, é que se cansava em procurá-la. Porém, minha senhora, este negro! ― designava o pobre Gabriel ―, com este negro a coisa muda de figura. Minha querida senhora, este negro está fugido: espero que o entregará, pois sou o legítimo senhor e quero corrigi-lo.

― Pelo amor de Deus, minha mãe ― gritou Gabriel, completamente desorientado ―, minha mãe, leva-me consigo.

―Tranquiliza-te ― tornei-lhe com calma ―, não te hei já dito que te achas sob a minha proteção? Não tem confiança em mim?

Aqui o senhor Tavares encarou-me estupefato, e depois perguntou-me:

― Que significam essas palavras, minha querida senhora? Não a compreendo.

― Vai compreender-me ― retorqui, apresentando-lhe um volume de papéis subscritados e competentemente selados.

Rasgou o subscrito e leu-os. Nunca em sua vida tinha sofrido tão extraordinária contrariedade.

― Sim, minha cara senhora ― redarguiu, terminando a leitura. ― O direito de propriedade, conferido outrora por lei a nossos avós, hoje nada mais é que uma burla…

A lei retrogradou. Hoje protege-se escandalosamente o escravo contra seu senhor; hoje, qualquer indivíduo diz a um juiz de órfãos: Em troca desta quantia exijo a liberdade do escravo fulano ― haja ou não aprovação do seu senhor.

Não acham isso interessante?

― Desculpe-me, senhor Tavares ― disse-lhe. ― Em conclusão, apresento-lhe um cadáver e um homem livre.

Gabriel ergue a fronte, Gabriel és livre!

O senhor Tavares cumprimentou e retrocedeu no seu fogoso alazão, sem dúvida alguma mais furioso que um tigre.

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