10. A primeira publicação online da novela “Gupeva”

SÉRIE DE POSTS SOBRE MARIA FIRMINA

O ano da primeira divulgação do romance “Úrsula”, de Maria Firmina dos  Reis

“Úrsula”, o romance de Maria Firmina dos Reis

A história do romance “Úrsula”

“A Escrava”, o conto de Maria Firmina dos Reis

“Cantos à Beira-Mar”, o livro de poemas de Maria Firmina dos Reis

A produção artística avulsa de Maria Firmina dos Reis

O “Álbum” (o diário) de Maria Firmina dos Reis

A educadora Maria Firmina dos Reis

O retrato falso de Maria Firmina dos Reis

O espírito feminista e revolucionário das primeiras escritoras brasileiras de ficção

O erro histórico do Google sobre Maria Firmina e as datas de nascimento e morte de três pioneiros da ficção brasileira

RESUMO

Tema: a primeira publicação online da novela “Gupeva ─ Romance Brasiliense”, de Maria Firmina dos Reis.

As versões da história:

1. “O Jardim das Maranhenses – Periódico Semanário, Literário, Moral, Crítico e Recreativo”, ano I.

. 13/10/1861, ano I, número 25, páginas 1 e 2.

. 25/11/1861, ano I, número 27, páginas 1 e 2.

. 13/1/1862, ano I, número 29, páginas 1 e 2.

2. “Porto Livre ─ Jornal Político, Comercial e Noticioso”, ano II.

. 9/2/1863, ano II, número 68, página 3.

. 21/2/1863, ano II, número 69, páginas 2 e 3.

. 16/3/1863, ano II, número 70, página 4.

. 6/5/1863, ano II, número 74, páginas 3 e 4.

. 13/5/1863, ano II, número 75, páginas 3 e 4.

. 21/5/1863, ano II, número 76, páginas 1 e 2.

3. “Eco da Juventude ─ Publicação Dedicada à Literatura”.

. 12/3/1865, número 14, páginas 3, 4, 5, 6 e 7 (107, 108, 109, 110 e 111 do ano).

. 19/3/1865, número 15, páginas 5, 6 e 7 (117, 118 e 119 do ano).

. 26/3/1865, número 16, páginas 5, 6 e 7 (125, 126 e 127 do ano).

. 2/4/1865, número 17, páginas 4, 5, 6, 7, e 8 (132, 133, 134, 135, 136 e 137 do ano).

Edições de “Gupeva” em livro impresso:

1. “Maria Firmina ― Fragmentos de uma Vida”, José Nascimento Morais Filho, Imprensa do Governo do Maranhão, São Luís, 1975, páginas 103-134.

2. “Cantos à Beira-Mar e Gupeva”, Dilercy Adler e Osvaldo Gomes, Academia Ludovicense de Letras, São Luís (MA), 2017.

3. “Memorial de Maria Firmina dos Reis”, Editora Uirapuru, São Paulo (SP) 2017.

Estudos sobre a obra:

. “Violência e Intertexto: “Gupeva”, de Maria Firmina dos Reis e suas Interfaces com as narrativas de [Ana Luísa de Azevedo] Castro e [José de] Alencar”, em “O Indianismo Revisitado: A Autoria Feminina e a Literatura Brasileira do Século XIX”, estudo de Anselmo Peres Alós publicado na revista “Organon”, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (volume 18, número 37, 2004).

Reprodução dessa parte do trabalho com o título “‘Gupeva’, de Maria Firmina dos Reis: interfaces com as narrativas de [Ana Luísa de Azevedo] Castro e [José de] Alencar”, em “A Autoria Feminina e a Literatura Brasileira do Século XIX: Novas Perspectivas sobre a Literatura Indianista e a Representação do Embate Colonial”, Anselmo Peres Alôs, “1° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero”, páginas 127 a 139, CNPq, Brasília, 2006.

. “Maria Firmina dos Reis e seu Conto Gupeva”, estudo de Régia Agostinho da Silva apresentado no IV Simpósio de História do Maranhão Oitocentista, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), 2013.

. “A escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e as representações sobre escravidão e mulheres no Maranhão na segunda metade do século XIX”, Régia Agostinho da Silva, USP, 2013.

“Luz e Sombra na Obra de Maria Firmina dos Reis”, capítulo de Luiza Lobo no livro “Sobre Maria Firmina dos Reis”, organizado por Leopoldo Gil Dulcio Vaz e Dilercy Aragão Adler (São Luís, Academia Ludovicense de Letras, 2015).

. “A Escritora Maria Firmina dos Reis: História e Memória de uma Professora no Maranhão do Século XIX”, dissertação de mestrado de Carla Sampaio dos Santos (Universidade Estadual de Campinas, 2016).

. “Uma breve digressão indianista”, item 2.2. da dissertação de mestrado “Maria Firmina dos Reis: a trajetória intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil oitocentista”, de autoria de Rafael Balseiro (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016).

Avaliações críticas de “Gupeva”:

. Breve análise da obra no ensaio “O Ficcionista e o Crítico” do livro “Letras de Minas e outros ensaios” (EdUSP, 1997), de Hélio Lopes (autor dos ensaios) e Alfredo Bosi (organizador), seguindo-se ao resumo do enredo  (páginas 179 e 180).

. Crítica de Zahidé Lupinacci Muzart em “Escritoras Brasileiras do Século XIX ─ Primeiro Volume” (Editora Mulheres e EDUNISC, 1999), no capítulo “Maria Firmina dos Reis”, páginas 267 e 268.

. Crítica de Luiza Lobo em “Sobre Maria Firmina dos Reis”, livro organizado por Leopoldo Gil Dulcio Vaz e Dilercy Aragão Adler (São Luís, Academia Ludovicense de Letras, 2015), no capítulo “Luz e Sombra na Obra de Maria Firmina dos Reis”, página 113.

Única menção conhecida até o lançamento da biografia “Maria Firmina ─ Fragmento de uma Vida”, de José Nascimento Morais Filho: no artigo “Quadros da Vida Maranhense”, de Jerônimo de Viveiros (“O Jornal”, Maranhão, 1963).

Resumo da história (com spoilers):

Gupeva e Épica, casal de jovens indígenas, tinham sido prometidos um para o outro quando se tornassem adultos. Gupeva, filho de um irmão do cacique da tribo, era apaixonado por Épica, a filha do cacique; já a menina, sua prima, demonstrava, aparentemente, um grau menor de afeição pelo futuro companheiro.

Quando a índia Paraguaçu precisou viajar para a França, onde seria batizada, tendo por madrinha a rainha Catarina de Médicis, Épica, a melhor amiga de Paraguaçu, partiu com ela, deixando saudoso o menino Gupeva. Para atenuar a tristeza de Gupeva, o cacique prometeu que o rapaz se casaria com Épica tão logo ela voltasse da viagem.

Gupeva adota então o costume de vigiar o mar, buscando no horizonte algum navio que possa estar trazendo de volta a sua amada.

Cerca de dois anos depois (vinte e quatro luas), quando o cacique já estava cego, retorna Épica. A visão da amada encanta e choca seu futuro marido: Épica está vestida e enfeitada como europeia, parecendo uma mulher branca. Gupeva intui que o pensamento da amada não se encontra no Brasil, mas na França.

O índio estranha a recepção fria que recebe, mas, questionada, Épica chora pelo reencontro, e então Gupeva conclui que tudo havia sido fruto de sua imaginação.

Ao saber que Épica foi batizada, decide converter-se ao Cristianismo.

Na cerimônia de casamento, no momento em que o enlace vai se confirmar, Épica desmaia.

Nessa mesma noite, a sós, a índia lhe faz uma confissão doída: na França, apaixonou-se por um conde francês casado e se entregou a ele, para depois ser abandonada friamente. Está grávida.

Gupeva quase enlouquece de desgosto. Épica, sentindo-se culpada, começa a definhar nos dias seguintes, até morrer em pouco tempo.

Durante o enterro da amada, Gupeva promete a si mesmo continuar vivendo para cumprir duas missões: cuidar da filha de Épica e, futuramente, vingar-se do conde francês.

Muitos anos depois, o navio O Infante de Portugal atraca no porto aonde Épica chegou com Paraguaçu. Na tripulação, dois amigos: o oficial francês Gastão e o oficial português Alberto.

Gastão vê por acaso a filha do cacique Gupeva, também chamada Épica, e se apaixona por ela. Começam a se encontrar em segredo, sem saberem que são observados, todas as vezes, por Gupeva.

Na véspera da partida do navio para Portugal, Gastão pede a Alberto que cumpra por ele o dever de vigiar o navio. Explica que está apaixonado e que não suportaria ficar sem ver a amada, no lugar onde combinaram se encontrar pela última vez, à noite. Secretamente, haviam combinado se casar no dia seguinte.

Alberto consente, depois de tentar inutilmente convencer Gastão de que um oficial não pode se casar com uma indígena.

Chegando adiantado ao local, Gastão não encontra sua futura noiva, e sim Gupeva. O índio obriga o oficial a escutar sua história de vida e como se tornou ciente da relação de Gastão com Épica.

Ao mencionar o nome do conde francês, Gastão entende tudo: Épica é sua meia-irmã. Revela então ao cacique ser o filho do conde responsável pela desgraça da mãe de sua amada, e se dispõe a morrer por causa do seu engano involuntário.

Gupeva fere mortalmente a Gastão, que agoniza. Épica chega à hora marcada para o encontro com seu amado. Ao ver Gastão agonizando acusa Gupeva pela morte do amado. Este ainda consegue informar Épica do equívoco que estavam prestes a cometer, e logo depois falece.

Na manhã seguinte, Alberto estranha a ausência de Gastão. Comunica a seus superiores a situação, e então vários marinheiros saem em busca do oficial francês.

Depois de muito procurar, Alberto e seus colegas encontram os corpos de Gastão e Épica. Ao olhar para o rosto da indígena, Alberto entende a paixão do amigo. Ao lado dos corpos, um cacique sentado em um tronco, segurando um tacape ensanguentado, age e fala como louco quando acusado dos crimes por Alberto.

Os oficiais providenciam o enterro do casal infeliz. Quando colocam os dois lado a lado, espantam-se com a semelhança física e concluem que eram irmãos. Alberto perdoa o amor “insano” do amigo durante o ato religioso.

Ao final, olham para o cacique. Está caído de rosto sobre a terra. Um marinheiro vira o corpo de Gupeva com um dos pés e então declara:

― Está morto!

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LINKS INTERNOS

Apresentação

As três versões de “Gupeva – Romance Brasiliense”

Edições de “Gupeva” em livro impresso

Estudos sobre a obra

Avaliações críticas de “Gupeva”

Menções a “Gupeva”

Resumo da história (com spoilers)

Critérios de atualização do texto

“Gupeva” – Texto completo e atualizado

I

II

III

IV

V

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O TEXTO COMPLETO

A PRIMEIRA PUBLICAÇÃO ONLINE DA NOVELA “GUPEVA”

Apresentação

A novela curta “Gupeva”, a segunda história ficcional de Maria Firmina dos Reis, mereceu esta introdução do periódico “O Jardim das Maranhenses”, em 30 de setembro de 1861, no número anterior ao de sua primeira publicação:

“Existe em nosso poder, com destino a ser publicado no nosso jornal, um belíssimo e interessante ROMANCE, primoroso trabalho da nossa distinta comprovinciana, a Exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis, professora pública da Vila de Guimarães; cuja publicidade, tencionamos dar princípio do n. 25 em diante.

“Garantimos ao público a beleza da obra; e pedimos-lhe a sua benévola atenção. A pena da Exma. Dra. Sra. D. Maria Firmina dos Reis já é entre nós conhecida; e convém muito animá-la, a não desistir da empresa encetada.”.

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“O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861, ano I, número 25, primeira página, primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/17

O percurso normal de um escritor nas Letras costuma seguir um padrão: iniciar com textos breves (na ficção, os contos) e evoluir progressivamente para os textos mais exigentes (como a novela e o romance). Muitos autores aspirantes seguem esse caminho ainda hoje. Inverter essa progressão natural, iniciando com um romance (“Úrsula”) foi uma das muitas ousadias de Maria Firmina.

A produção dos conterrâneos não deve ter influenciado essa decisão de Maria Firmina. O pioneiro do romance no Maranhão, João Clímaco Lobato, publicou “O Diabo” em 1856. Em outubro de 1857, “Úrsula” já estava pronto, como se constata pela resenha do romance publicada em 17 de outubro no jornal “A Imprensa” (veja o post de número 3 deste blog):

https://aarteliteraria.wordpress.com/2017/09/26/o-ano-da-primeira-divulgacao-do-romance-ursula-de-maria-firmina-dos-reis/

A produção nacional de romances ainda era incipiente: o primeiro romance nacional, “O Filho do Pescador”, de Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, saíra apenas 14 anos antes. Em 1857, não mais que 30 romances diferentes haviam sido publicados no país. Obviamente, boa parte deles não havia chegado ao Maranhão (nem mesmo em forma de notícia). E não consta que houvesse alguma livraria na Vila de Guimarães, onde morava Maria Firmina.

Em 13 de outubro de 1861 teve início a publicação de “Gupeva” no “Jornal das Maranhenses”.

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Repare no erro do adjetivo, abaixo:

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“O Jardim das Maranhenses – Periódico Semanário, Literário, Moral, Crítico e Recreativo”, 13/10/1861, ano I, número 25.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/21

O texto completo e atualizado (da terceira e definitiva versão, publicada em 1865) encontra-se no final deste post.

A publicação da obra em três periódicos diferentes no espaço de 4 anos (1861-1865) levou o pesquisador José Nascimento Morais Filho a considerar “Gupeva” como o “primeiro sucesso literário de um autor maranhense no Maranhão”.

O nome “Gupeva” revela a influência de “Caramuru, Poema Épico do Descobrimento da Bahia”, obra do frei luso-brasileiro José de Santa Rita Durão. Gupeva é um dos principais personagens da história.

Texto atualizado de “Caramuru”

http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/caramuru.pdf

Texto original

https://archive.org/details/caramurpoemaepi00durgoog

Essa novela de Maria Firmina é o único texto em que se pode constatar o seu cuidado com as produções literárias: da primeira para a última versão há alterações significativas em diversas partes do texto. A disciplina que estuda o trabalho textual dos autores, seja em manuscrito, seja em reedições, chama-se “crítica genética”, e um de seus precursores (que também foi o precursor da autoajuda literária) será tema de post neste blog.

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As três versões de “Gupeva – Romance Brasiliense”

Eis os caminhos para as fontes primárias das três versões de “Gupeva”. Somente a primeira versão está incompleta.

Primeira versão, no periódico “O Jardim das Maranhenses”

(13/10/1861 – ?/?/1862)

“O Jardim das Maranhenses – Periódico Semanário, Literário, Moral, Crítico e Recreativo”, 13/10/1861, ano I, número 25, páginas 1 e 2.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/21

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/22

“O Jardim das Maranhenses”, 25/11/1861, ano I, número 27, páginas 1 e 2.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/25

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/26

“O Jardim das Maranhenses”, 13/1/1862, ano I, número 29, páginas 1 e 2.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/33

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/34

O volume encadernado, digitalizado, com os episódios do folhetim:

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/sgc/modulos/sgc_bpbl/acervo_digital/arq_ad/201408272319581409192398_45431409192398_4543.pdf

Na edição do episódio do folhetim publicado em 13 de janeiro de 1862, o editor do “Jardim das Maranhenses” agradeceu o apoio de assinantes e colaboradores. O destaque especial, no último grupo, foi reservado à autora maranhense:

“Concluindo este pequeno artigo, não podemos deixar de agradecer a todas as pessoas que, com suas belas produções literárias honraram as páginas do nosso acanhado jornal; muito especialmente a Exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis.”.

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“O Jardim das Maranhenses”, 13/1/1862, ano I, número 29, primeira e segunda páginas.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/33

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Segunda versão, no periódico “Porto Livre”

(9/2/1863 – 21/5/1863)

“Porto Livre ─ Jornal Político, Comercial e Noticioso”, 9/2/1863, ano II, número 68, página 3.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/164

“Porto Livre”, 21/2/1863, ano II, número 69, páginas 2 e 3.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/169

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/170

“Porto Livre”, 16/3/1863, ano II, número 70, página 4.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/175

“Porto Livre”, 6/5/1863, ano II, número 74, páginas 3 e 4.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/190

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/191

“Porto Livre”, 13/5/1863, ano II, número 75, páginas 3 e 4.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/194

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/195

“Porto Livre”, 21/5/1863, ano II, número 76, páginas 1 e 2.

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/196

http://memoria.bn.br/DocReader/749516/197

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Terceira versão, no periódico “Eco da Juventude”

“Eco da Juventude ─ Publicação Dedicada à Literatura”, 12/3/1865, número 14, páginas 3, 4, 5, 6 e 7 (107, 108, 109, 110 e 111 do ano).

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/108

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/109

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/110

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/111

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/112

“Eco da Juventude”, 19/3/1865, número 15, páginas 5, 6 e 7 (117, 118 e 119 do ano).

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/118

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/119

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/120

“Eco da Juventude”, 26/3/1865, número 16, páginas 5, 6 e 7 (125, 126 e 127 do ano).

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/126

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/127

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/128

“Eco da Juventude”, 2/4/1865, número 17, páginas 4, 5, 6, 7, e 8 (132, 133, 134, 135, 136 e 137 do ano).

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/133

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/134

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/135

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/136

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/137

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Edições de “Gupeva” em livro impresso

. Primeira edição.

José Nascimento Morais Filho reproduziu a primeira e a segunda versão da novela de Maria Firmina em seu livro “Maria Firmina ― Fragmentos de uma Vida”, biografia da autora lançada em 1975, no Maranhão (Imprensa do Governo do Maranhão, 1975, páginas 103-134).

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Foto copiada da página do Facebook do sociólogo Rafael Balseiro Zin.

https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10155365582232380&type=3

Infelizmente, a falta de reedições torna impossível encontrar um exemplar dessa obra fundamental para o conhecimento e o estudo de Maria Firmina dos Reis.

. Segunda edição.

Na 11ª Feira do Livro de São Luís, Dilercy Adler e Osvaldo Gomes lançaram a segunda edição impressa de “Gupeva”, texto que se segue à primeira edição atualizada de “Cantos à Beira-Mar”, o livro de poemas de Maria Firmina.

https://www.vimarense.com.br/single-post/2017/11/23/Dilercy-Adler-e-Osvaldo-Gomes-organizam-e-relan%C3%A7am-livro-de-Maria-Firmina-de-1871

O livro está disponível na Livraria AMEI, especializada em autores maranhenses. Infelizmente ainda não há serviço de atendimento online.

https://pt-br.facebook.com/LivrariaAMEI/

. Terceira edição.

A editora Uirapuru (São Paulo, SP) anuncia em seu site o “Memorial de Maria Firmina dos Reis”, as obras completas da autora, em edição impressa, com previsão de envio em 13 de dezembro de 2017 (a previsão inicial era 21 de novembro). Entre as obras, “Gupeva”.

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https://www.lojaeditorauirapuru.com.br/livros/literatura-adulta1/memorial-de-maria-firmina-dos-reis-pre-venda/

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Estudos sobre a obra

O pré-requisito para estudos é acesso à fonte. A única publicação com a novela, “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”, de José Nascimento Morais Filho (1975), há muito não é encontrada em sebos.

Restava apenas o acesso via jornais, que só foi disponibilizado universalmente há poucos anos pela Biblioteca Nacional.

Essa situação inibiu a produção de estudos sobre “Gupeva”. São estes os estudos conhecidos sobre a obra:

. “O Indianismo Revisitado: A Autoria Feminina e a Literatura Brasileira do Século XIX”, de Anselmo Peres Alós, publicado na revista “Organon”, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (volume 18, número 37, 2004).

No item 4, “Violência e Intertexto: “Gupeva”, de Maria Firmina dos Reis e suas Interfaces com as narrativas de [Ana Luísa de Azevedo] Castro e [José de] Alencar”, que vai da página 9 à 13, há um extenso resumo do romance.

http://seer.ufrgs.br/organon/article/view/31171

Esta parte do estudo é reproduzida com o título “‘Gupeva’, de Maria Firmina dos Reis: interfaces com as narrativas de Castro e Alencar”, em “A Autoria Feminina e a Literatura Brasileira do Século XIX: Novas Perspectivas sobre a Literatura Indianista e a Representação do Embate Colonial”, “1° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero”, páginas 127 a 139, CNPq, Brasília, 2006.

http://estatico.cnpq.br/portal/premios/2014/ig/pdf/spm_1premio_web.pdf

. “Maria Firmina dos Reis e seu Conto ‘Gupeva'”, um trabalho de 6 páginas apresentado em junho de 2013 no IV Simpósio de História do Maranhão Oitocentista pela professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Régia Agostinho da Silva.

http://www.outrostempos.uema.br/oitocentista/cd/ARQ/53.pdf

. “A escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e as representações sobre escravidão e mulheres no Maranhão na segunda metade do século XIX”, Régia Agostinho da Silva, USP, 2013.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-14032014-094659/pt-br.php

. “Luz e Sombra na Obra de Maria Firmina dos Reis”, capítulo de Luiza Lobo no livro “Sobre Maria Firmina dos Reis”, organizado por Leopoldo Gil Dulcio Vaz e Dilercy Aragão Adler (São Luís, Academia Ludovicense de Letras, 2015), nas páginas 113 e 114 apresenta um resumo da história de “Gupeva” e uma breve apreciação crítica da obra.

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. “A Escritora Maria Firmina dos Reis: História e Memória de uma Professora no Maranhão do Século XIX”, dissertação de mestrado de Carla Sampaio dos Santos (Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, 2016). Trata de “Gupeva” em várias partes do seu trabalho e apresenta um resumo da novela nas páginas 90 e 91.

http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/305305/1/Santos_CarlaSampaiodos_M.pdf

. “Maria Firmina dos Reis: a trajetória intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil oitocentista”, uma dissertação de mestrado defendida por Rafael Balseiro Zin em 2016 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, também dedica várias páginas a “Gupeva”, no item 2.2. Uma breve digressão indianista” (páginas 61 a 66).

https://tede2.pucsp.br/handle/handle/19479

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Avaliações críticas de “Gupeva”

Reproduzo abaixo a única avaliação crítica extensa de “Gupeva”, de autoria de Zahidé Lupinacci Muzart (cofundadora da Editora Mulheres), por ter sido registrada no hoje quase inacessível “Escritoras Brasileiras do Século XIX ─ Primeiro Volume” (Editora Mulheres e EDUNISC, 1999). O trecho se encontra nas páginas 267 e 268.

Gupeva é o tipo de narrativa desastrada tais os erros de enredo que apresenta. O par amoroso é composto por um jovem oficial francês, Gastão, apaixonado por uma jovem índia, dotada do esquisito nome de Épica.

“Gupeva é o índio, orgulhoso e valente, padrasto de Épica. O seu nome sai do poema Caramuru, de Santa Rita Durão. Com leve inspiração em Atala, de Chateaubriand, o enredo mistura elementos já explorados em Úrsula, tais como o incesto (aqui, o par amoroso se revela irmão e irmã ao final da novela) e os ingredientes do gótico, a noite, o terror, a loucura, os assassinatos, também estão presentes. O francês se apaixona pela jovem índia, mas o padrasto, que passa por pai de Épica, para vingar-se da traição da esposa com um francês, assassina o oficial, que se deixa matar por saber que é meio-irmão de Épica, filha do pai de Gastão! Complicações de folhetim. Até o resumir se torna complicado! De quebra, também aparece, em rápido close, a índia Paraguaçu! Um romance esquecido e que, parece-me, assim ficará.

“No entanto, o romance teve bastante êxito popular, no seu tempo, considerando-se as três edições realizadas. E, pensando-se em termos de ligações intertextuais, vemos que, apesar de mal realizado, o romance Gupeva traz alguns elementos novos para a literatura da época e realiza algo hoje muito comum. Numa homenagem a Santa Rita Durão, Maria Firmina dos Reis incorpora e modifica temas deste autor, como os fatos básicos da narrativa. Gupeva é o nome do índio a quem estava destinada Paraguaçu que se apaixona por Diogo Álvares Correia, com quem se casou. Na versão de Maria Firmina, Gupeva se considera traído por sua prometida que, tendo ido para a Corte juntamente com Paraguaçu (agora batizada de Catarina), lá se tornou amante de um nobre, que a deixou, depois de engravidá-la. Gupeva casa-se com ela, mas nunca a perdoa, pois só fica sabendo da gravidez depois do casamento.”

No livro supracitado “Sobre Maria Firmina dos Reis”, no mesmo capítulo (“Luz e Sombra na Obra de Maria Firmina dos Reis”), a escritora e pesquisadora Luiza Lobo afirma, na página 113:

“O enredo, de suspense, é bastante inverossímil e folhetinesco, possivelmente sob a influência de Atala, de Chateaubriand, que é de 1801. Apesar de indicar leituras diversas, o enredo se afoga em modismos europeizantes que lhe roubam qualquer valor de leitura antropológica do índio brasileiro”.

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No ensaio “O Ficcionista e o Crítico” do livro “Letras de Minas e outros ensaios” (EdUSP, 1997), de Hélio Lopes (autor dos ensaios) e Alfredo Bosi (organizador), há uma breve análise de “Gupeva”, seguindo-se a este resumo  (páginas 179 e 180).

gupeva - helio

https://books.google.com.br/books?id=p–jHdG3PCUC&pg=PA179&lpg=PA179&dq=gupeva&source=bl&ots=R26VHSG3Qp&sig=0So0FfFv62CWhgeKZgtONvrVeUQ&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiV34eMsOTTAhUFDpAKHShfCMMQ6AEIZTAN#v=onepage&q=gupeva&f=false

gupeva - helio 2

https://books.google.com.br/books?id=p–jHdG3PCUC&lpg=PA179&dq=maria%20firmina%20dos%20reis&hl=pt-PT&pg=PA180#v=onepage&q=gupeva&f=false

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Menções a “Gupeva”

A única menção conhecida sobre esta obra da autora maranhense, até o lançamento da biografia “Maria Firmina ─ Fragmento de uma Vida”, escrita por José Nascimento Morais Filho, encontra-se no artigo “Quadros da Vida Maranhense”, de Jerônimo de Viveiros, publicado em “O Jornal”, no Maranhão, em 1963.

“A [João Clímaco] Lobato [tido como o primeiro romancista maranhense] seguiu-se uma moça, D. Maria Firmina dos Reis, professora pública de Guimarães, que editou em 1852 na tipografia do ‘O Progresso’ o romance Úrsula, magnificamente recebido pela imprensa, e que depois inseriu ‘Gupeva’ na ‘Juventude Maranhense’. Aquele livro é de edição esgotada; nem os bibliófilos o possuem”.

“Maria Firmina Fragmentos de uma Vida”, José Nascimento Morais Filho, Governo do Maranhão, São Luís, 1976.

Destaquem-se os erros de informação sobre o ano (não 1852, mas 1860) e sobre o periódico (tratava-se, na verdade, do “Eco da Juventude”).

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Resumo da história, com spoilers

Gupeva e Épica, casal de jovens indígenas, tinham sido prometidos um para o outro quando se tornassem adultos. Gupeva, filho de um irmão do cacique da tribo, era apaixonado por Épica, a filha do cacique; já a menina, sua prima, demonstrava, aparentemente, um grau menor de afeição pelo futuro companheiro.

Quando a índia Paraguaçu precisou viajar para a França, onde seria batizada, tendo por madrinha a rainha Catarina de Médicis, Épica, a melhor amiga de Paraguaçu, partiu com ela, deixando saudoso o menino Gupeva. Para atenuar a tristeza de Gupeva, o cacique prometeu que o rapaz se casaria com Épica tão logo ela voltasse da viagem.

Gupeva adota então o costume de vigiar o mar, buscando no horizonte algum navio que possa estar trazendo de volta a sua amada.

Cerca de dois anos depois (vinte e quatro luas), quando o cacique já estava cego, retorna Épica. A visão da amada encanta e choca seu futuro marido: Épica está vestida e enfeitada como europeia, parecendo uma mulher branca. Gupeva intui que o pensamento da amada não se encontra no Brasil, mas na França.

O índio estranha a recepção fria que recebe, mas, questionada, Épica chora pelo reencontro, e então Gupeva conclui que tudo havia sido fruto de sua imaginação.

Ao saber que Épica foi batizada, decide converter-se ao Cristianismo.

Na cerimônia de casamento, no momento em que o enlace vai se confirmar, Épica desmaia.

Nessa mesma noite, a sós, a índia lhe faz uma confissão doída: na França, apaixonou-se por um conde francês casado e se entregou a ele, para depois ser abandonada friamente. Está grávida.

Gupeva quase enlouquece de desgosto. Épica, sentindo-se culpada, começa a definhar nos dias seguintes, até morrer em pouco tempo.

Durante o enterro da amada, Gupeva promete a si mesmo continuar vivendo para cumprir duas missões: cuidar da filha de Épica e, futuramente, vingar-se do conde francês.

Muitos anos depois, o navio O Infante de Portugal atraca no porto onde Épica chegou com Paraguaçu. Na tripulação, dois amigos: o oficial francês Gastão e o oficial português Alberto.

Gastão vê por acaso a filha do cacique Gupeva, também chamada Épica, e se apaixona por ela. Começam a se encontrar em segredo, sem saberem que são observados, todas as vezes, por Gupeva.

Na véspera da partida do navio para Portugal, Gastão pede a Alberto que cumpra por ele o dever de vigiar o navio. Explica que está apaixonado e que não suportaria ficar sem ver a amada, no lugar onde combinaram se encontrar pela última vez, à noite. Secretamente, haviam combinado se casar no dia seguinte.

Alberto consente, depois de tentar inutilmente convencer Gastão de que um oficial não pode se casar com uma indígena.

Chegando adiantado ao local, Gastão não encontra sua futura noiva, e sim Gupeva. O índio obriga o oficial a escutar sua história de vida e como se tornou ciente da relação de Gastão com Épica.

Ao mencionar o nome do conde francês, Gastão entende tudo: Épica é sua meia-irmã. Revela então ao cacique ser o filho do conde responsável pela desgraça da mãe de sua amada, e se dispõe a morrer por causa do seu engano involuntário.

Gupeva fere mortalmente a Gastão, que agoniza. Épica chega à hora marcada para o encontro com seu amado. Ao ver Gastão agonizando acusa Gupeva pela morte do amado. Este ainda consegue informar Épica do equívoco que estavam prestes a cometer, e logo depois falece.

Na manhã seguinte, Alberto estranha a ausência de Gastão. Comunica a seus superiores a situação, e então vários marinheiros saem em busca do oficial francês.

Depois de muito procurar, Alberto e seus colegas encontram os corpos de Gastão e Épica. Ao olhar para o rosto da indígena, Alberto entende a paixão do amigo. Ao lado dos corpos, um cacique sentado em um tronco, segurando um tacape ensanguentado, age e fala como louco quando acusado dos crimes por Alberto.

Os oficiais providenciam o enterro do casal infeliz. Quando colocam os dois lado a lado, espantam-se com a semelhança física e concluem que eram irmãos. Alberto perdoa o amor “insano” do amigo durante o ato religioso.

Ao final, olham para o cacique. Está caído de rosto sobre a terra. Um marinheiro vira o corpo de Gupeva com um dos pés e então declara:

― Está morto!

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Critérios de atualização do texto

A atualização abrangeu a ortografia, para conformar o texto ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e também a pontuação, caracterizada, naquela época, pelo excesso de vírgulas e pontos e vírgulas.

Para evitar o incômodo pingue-pongue imposto pelas notas de rodapé, optou-se por incluir uma breve explicação do termo ou da expressão incomum, logo após a sua ocorrência. Essa explicação vem entre colchetes: […]

Para incluir palavras cuja ausência prejudicava a compreensão do texto, optou-se pelo uso das chaves: {…}

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GUPEVA

Romance brasiliense

Última versão publicada (1865)

I

Era uma bela tarde. O sol de agosto, animador e grato, declinava já seus fúlgidos raios; no ocaso, ele derramava um derradeiro olhar sobre a terra e sobre o mar, que a essa hora mágica do crepúsculo estava calmo e bonançoso como uma criança adormecida nos braços de sua mãe.

Seus raios desenhavam no horizonte as cores cambiantes do prisma e desciam com melancólico sorriso às planuras da terra e à superfície do mar.

Uma tarde de agosto nas nossas terras do Norte tem um encanto particular; quem ainda não as gozou não conhece na vida o que há de mais belo, mais poético, não conhece a hora do dia que o Criador nos deu para esquecermos todas as ambições da vida, para folhearmos o livro do nosso passado, buscarmos nela a melhor página, a única dourada que nela existe, e aí nos deleitarmos na recordação saudável da hora feliz da nossa existência: aquele que ainda não a gozou é como se seus olhos vivessem cerrados à luz, é como se seu coração empedernido nunca houvera sentido uma doce emoção, é como se a voz da sua alma nunca uma voz amiga houvera respondido.

O que a gozou, sim; o que a goza, esse adivinha os prazeres do paraíso e sonha as poesias do céu, escuta a voz dos anjos na morada celeste, esquece as dores da existência e embala-se na esperança de uma eternidade risonha, ama o seu Deus e lhe dispensa afetos, porque nessa hora como que a face do Senhor se nos patenteia nos desmaiados raios do sol, no manso gemer da brisa, no saudoso murmúrio das matas, na vasta superfície das águas, na ondulação mimosa dos palmares, no perfume odorífero das flores, no canto suavíssimo das aves, na voz reconhecida da nossa alma!

Era, pois, como dissemos, uma bela tarde de agosto, e dessa encantadora tarde gozavam com delícia os habitantes da Bahia, nessa época bem raros e ainda incultos, ou quase selvagens. O disco do sol amortecido em seu último alento beijava as enxárcias [cabos que sustentam os mastros] de um navio ancorado na baía de Todos os Santos, a cuja frente eleva-se hoje a bela cidade de São Salvador, e afagava mansamente as faces pálidas de um jovem oficial que, à hora do crepúsculo, com os olhos fitos em terra, parecia devorado por um ardentíssimo desejo, por um querer que a seu pesar [contra a sua vontade] lhe atraía, para onde quer que fosse, todos os sentimentos da sua alma.

Sonhava acordado, mas era esse sonhar desesperado, ansioso, frenético como o sonhar de um louco; era um sonhar doído, cansado, incômodo, como o sonhar do homem que já não tem uma esperan­ça; era o sonhar frenético de Napoleão nas solidões de Santa Helena, era o sonhar doído de Luiz XVI na véspera do suplício. Encostado ao castelo da popa, o mancebo [jovem] parecia nada ver do que lhe ia em torno, nem mesmo o sol que dava-lhe então seu derradeiro e melancólico adeus, escondendo seu disco nas regiões do oceano.

Patética, sublime e quase misteriosa era a despedida desse sol, brincando tris­temente nos cabelos acetinados do moço oficial e fugindo vagaroso, e de novo voltando, envolvendo-o pelas espáduas como em um último abraço, e depois mergulhando-se pressuroso nas trevas, como um amigo que, junto do sepulcro, beija as faces geladas e lívidas do {outro} amigo e corre com a saudade no coração a cobrir seus membros de lutuosas vestes.

O navio em que acabamos de ver esse moço, que ainda mal conhecemos, era O Infante de Portugal, vaso de guerra que havia trazido à Bahia Francisco Pereira Coutinho, donatário daquela capitania, depois que a célebre Paraguaçu, prince­sa do Brasil, cedera seus direitos em fa­vor da coroa de Portugal. O Infante acabava de receber as últimas ordens de Coutinho, e velejava no dia seguinte em demanda do Tejo.

Voltemos, pois, ao mancebo que, conquanto fosse noite, permanecia ainda no mesmo lugar em que o encontramos. Em seus grandes olhos negros transparecia todo desassossego de um coração agi­tado. Sua idade não podia exceder a vinte e um anos. Era jovem e belo; o uniforme de Marinha fazia sobressair as delicadas formas do seu talhe esbelto e juvenil.

Mas as trevas eram já mais densas, e o coração do moço confrangia-se e redobrava de ansiedade. Seus olhos ar­dentes pareciam querer divisar através dessas matas ainda quase virgens um objeto qualquer. Sem dúvida, nesse lugar outrora solitário, hoje populoso e civilizado, havia alguma coisa que o man­cebo amava mais que {a} vida, em que fazia consistir toda a sua felicidade, resumia todo o seu querer, todas as suas ambições, toda a sua ventura. Havia aí algum ente extremamente amado, alguém que atraía para si todas as faculdades, toda a alma do mancebo europeu.

— Que tens tu, meu querido Gastão? — interpelou-lhe um outro jovem oficial, tocando-lhe amigavelmente no ombro. — O que te aflige? Estás triste!!…

O moço interrogado estremeceu ligeiramente, como quem desperta de um profundo sono, e, fitando o seu interlocutor com pungente sorriso, disse:

— Triste… sim, Alberto, contrariado, meu caro amigo.

— Tu, meu caro? E por quê? — tornou-lhe aquele a quem este designara Alberto. — O que te aconteceu, caro Gastão?

— Sairemos amanhã! — respondeu Gastão.

Nestas duas únicas palavras encerrava-se tudo quanto o homem pode sofrer de mais doloroso, amargo e acerbo na carreira da vida, e por isso o acento com que as proferia calou na alma de Alberto. Este contemplou-o por algum tempo com uma curiosidade travada de surpresa, e sem poder compreender o acento de tais palavras, nem qual a causa de tão grande amargura, disse-lhe:

— É isso o que te contraria e te aflige?

Gastão ergueu a fronte até então abatida e, deixando cair suas vistas sobre seu amigo, murmurou:

— Alberto, para que me interrogas? Podes acaso compreender o martírio do meu coração?

— Ah! pensas nela?!… — exclamou sorrindo-se o jovem Alberto. — Ora, Gastão, pelo céu! Meu amigo, creio que estás louco.

Gastão abaixou novamente a cabeça e balbuciou:

— Embora… mas… — Era um delírio, que poderia ter suas consequências. Alberto pensou nisso e procurou dissuadi-lo.

— Gastão — disse, procurando tomar-lhe entre as suas mãos —, que loucura, meu amigo — que loucura a tua apaixonares-te por uma indígena do Brasil, por uma mulher selvagem, por uma mulher sem nascimento, sem prestígio. Ora, Gastão, sê mais prudente: esquece-a.

— Esquecê-la! — exclamou o moço apaixonado — nunca!

— Tanto pior — lhe tornou o outro —, será para ti um constante martírio.

— E por quê?

— E por quê?! Porque ela não pode ser tua mulher, visto que é muito inferior a ti; porque tu não poderás jamais viver junto dela, a menos que intentasses cortar a tua carreira na Marinha, a menos que, desprezando a sociedade, te quisesses concentrar com ela nestas matas. Gastão, em nome da nossa amizade, esquece-a.

— Pede à Terra que esqueça seu constante movimento, ao vento que cesse o seu girar contínuo, às flores que transformem seus odores em pestilentos cheiros, às aves que emudeçam as galas da madrugada — murmurou Gastão com melancolia.

Alberto guardou silêncio por alguns minutos e de novo disse:

— Louco! louco! Gastão, meu amigo, traga até às fezes o teu cálice de amargura, mas faze o sacrifício do teu amor em atenção a ti mesmo, ao teu futuro…

— O meu futuro é ela… — replicou Gastão, interrompendo seu jovem amigo.

— Primeiro-tenente da Marinha hoje, meu querido Gastão, breve terás uma patente superior que…

— Que me importa a mim tudo isso, Alberto? Acaso isso pode indenizar-me da dor de perdê-la? Alberto, tu não és francês, o teu clima cria almas intrépidas, corações fortes ou rudes ardendo sempre, mas em fogo belicoso: o sangue que herdaste de teus avós gira em teu peito com ambição de glória, de renome; são nobres as tuas ambições, eu as respeito, porém as minhas são destituídas de toda a vaidade… As minhas ambições, o meu querer, o meu desejo resume-se todo nela. Para que me falas das grandezas deste mundo? Alberto, eu as desprezo, se não forem para repartir com ela.

— Todos nós — lhe disse Alberto — temos a nossa hora da loucura; também o português, meu irmão, a experimenta às ve­zes. Não obstante, como dizes, o nosso clima gera corações mais rudes; mas, Gastão, teus pais! Queres acaso afrontar a maldição paterna?

— Sim — tornou o jovem francês —, ainda quando ela houvesse de cair sobre minha cabeça, eu não poderia esquecer a mulher a quem dedico todo o meu coração.

— Decididamente perdeste o juízo, meu caro amigo — disse Alberto, comovido. — Que pretendes, Gastão, fazer dessa mu­lher?

— Amá-la, meu Alberto, como nunca se amou mulher alguma.

— O amor, Gastão, é como um meteoro luminoso, é uma aurora boreal dos trópicos: sua duração é de momento.

— Não — redarguiu o triste —, sinto que hei de amá-la enquanto me animar um átomo de vida, sinto que seu nome será o derradeiro que hei de pronunciar à hora da morte, sinto que …

— Cala-te, Gastão, cala-te! — retorquiu-lhe o jovem português. — Seus desvarios me causam um pungente sofrer.

— E que me importa isso? — disse friamente o moço francês. — Sabes acaso a grandeza do meu sofrimento? Sabes, bem conheces, e não te apiedas de mim.

— Ingrato! — exclamou comovido o jovem oficial português. — Gastão, em nome do céu, recompõe o teu juízo, não pen­ses mais nessa mulher. Eia, promete- me, e eu…

— É impossível, Alberto. Impossível, meu amigo. Oh! se soubesses… Alber­to, eu a tenho aqui no coração. É ela a mulher dos meus sonhos da adolescência, é a visão celeste e arrebatadora da minha infância, o anjo que presidiu o meu nascimento. Alberto, quem a poderá resistir? Louco o que a vendo possa deixar de amá-la; louco o que a conhecendo não lhe render eterna vassalagem. Anjo na beleza e na inocência, anjo na voz, nas maneiras, é ela superior às filhas vaporosas da nossa velha Europa. Épica é o seu nome. No seu rosto, Alberto, se revela toda a candura da sua alma e toda {a} singeleza dos costumes ainda tão virgens da inculta América. Onde está, pois, o meu crime em adorá-la? Seus grandes olhos negros de doçura inexprimível falam à alma com suavíssima poesia: são arpejos da lira harmoniosa ou notas de anjos em torno do Senhor. E esse olhar seu exprime um quê de indizível pureza que obriga a adorá-la como se adora a Deus. Alberto, de joelhos suplicarias a essa mulher angélica, se a visses, perdão de não a teres amado mesmo sem conhecê-la, desde o dia em que começou a tua existência.

Alberto suspirou com desalento: sentia-se fraco para lutar com o coração de seu amigo. Gastão compreendeu o pesar que, malgrado seu [contra a sua vontade], causava ao moço português, e disse:

— Perdoa-me, meu caro amigo, perdoa-me se te hei magoado. Sofro… tanto.

Alberto não achava uma palavra para exprimir sua angústia. Tomou então as mãos a seu amigo, apertou-as com efusão, e depois, apertando-o contra o seu coração, a custo exclamou:

— Meu amigo, meu irmão, fizeste bem em confiar-me tuas mágoas: eu te ajudarei no caminho espinhoso e direi do que tens a percorrer de ora em diante. Eia, coragem, serei o teu ciríneo [alusão a Simão de Cirene, que ajudou Jesus a carregar a Cruz ao Calvário].

Mas o moço francês não compreendeu uma só das palavras de Alberto, e, julgando que este, mais compadecido, lhe aplainava a senda dos seus amores, ergueu para ele uns olhos onde havia gratidão e amizade, e disse-lhe:

— Então é verdade, Alberto, que tens um coração?

— E não adivinhavas tu nos transportes [arrebatamentos] de nossa amizade?

— Obrigado! — exclamou com efusão o jovem francês. — Alberto, meu Alberto, faze-me hoje um favor, um único; prometo-te que será o último que te peço.

— Fala, mas não peças coisa que se assemelhe a uma loucura.

— Cruel! Chamas loucura ao sentimento mais santo que Deus implantou no coração do homem!…

— Fala. Vejamos o que exiges de mim.

— Bem sabes, Alberto, que devo entrar hoje de quarto [fazer plantão]…

—  Queres que entre eu em teu lugar?

— Sim, quero que entres em meu lugar.

— Pois não, meu caro. — Gastão envolveu o amigo entre seus braços: era a expressão sincera da sua gratidão. Guardaram um momento de silêncio, só interrompido pelo murmúrio das vagas que se chocavam e pelo sibilar do vento nas enxárcias.

— Que pretendes fazer desta noite, Gastão? — interrogou o jovem português.

— Não o adivinhaste já, meu querido Alberto? Ah! Ela me espera; eu lhe prometi.

— Compreendo-te! Gastão, o teu delírio, meu caro amigo, te faz ingrato. És surdo à minha voz, insensível aos extremos da amizade… Vai, Gastão, vê essa mulher cuja vista te fascinou, como fascinam as cobras do seu país a míseros pássaros. Tu também és um pássaro, nascido em regiões estranhas, que alevantaste o teu voo, atravessaste os mares e pousaste amoroso nas franças do pau-d’arco americano. Gastão, não te deixes atrair da serpente venenosa: goza um momento disso, a que chamas a tua felicidade; mas desprende novamente o voo. Gastão, eu te aguardo só antes do romper da alva. Jura-me pela honra.

— Juro-o — exclamou o moço francês, com acento doloroso, com indefinível expressão.

O comandante estava em terra. Alberto acenou [indicou] para Gastão uma lancha.

Então, os dois mancebos, como se naquela despedida se dissessem um adeus eterno, de novo em um fraterno amplexo uniram seus jovens corações, onde tão diversos sentimentos se cruzavam.

E a lancha, cortando vagarosamente as águas, deixava após si estreito e espumoso rasteiro [rastro]. Cinco minutos depois abicou em terra.

Alberto seguia-a com o coração: depois, um profundo suspiro lhe fugiu do peito, que, malgrado seu, gotejava sangue.

II

E àquela bela tarde sucedeu uma noite escura e feia. A atmosfera estava baixa e carregada, as nuvens ameaçavam tempestade. O mar quebrava-se raivoso nas praias, e o vento gemia nas solidões das matas. Entanto [Enquanto isso] Gastão, ébrio de prazer, acabava de transpor o pequeno lençol movediço que o separava da terra, dessa terra querida onde ia encontrar em breve a mulher de suas doidas afeições. As nuvens arqueavam-se negras sobre os outeiros, por entre os quais insinuava-se, louco de esperanças, o jovem adorador da filha dos palmares.

Corria o moço, afadigado, por entre as árvores copadas da velha América: arfava-lhe o peito, as artérias latejavam-lhe, o sangue afluía-lhe para o rosto, o suor caía-lhe em bagas da fronte para o peito. Com que rapidez, com que afã devorava ele o espaço que o separava ainda do lugar da entrevista [do encontro]… . Tardava-lhe a hora da ventura.

Por essas sendas tortuosas, por essas brenhas quase virgens de uma habitação do homem civilizado, por esses lugares, que já não tendo aqui e ali a selvagem beleza de uma mata virgem não tinha[m] em parte alguma o caráter de uma povoação, corria loucamente o jovem colega de Alberto, sem outro pensamento mais que o de rever sua idolatrada Épica. Se havia ainda um mundo além do lugar dos seus sonhos, Gastão havia-o inteiramente esquecido: o amor do seu coração absorvia-lhe todas as faculdades. Aos vinte e um anos, o homem não tem o coração embotado —: o excesso de paixões mal sofreadas, ainda nessa idade juvenil, não o tem aviltado e enegrecido. O amor que abrasa o coração nessa idade, a mais bela talvez da nossa vida, é um amor puro como os afetos de uma criança, é o amor sincero como o beijo de um irmão querido, é um amor santo como um hino sacro entoado pelos anjos do Senhor.

O amor nessa idade é uma emanação do céu, é um concerto divino, noite e dia a vibrar no coração do homem; e ao som desse dulcíssimo concerto, a mente exalta-se e vai tocar ao infinito, bebe deleites que purificarão a alma, sonha enlevos virtuosos, goza mimos de um sentir indefinível, desses que o mundo só concede uma vez, desses que só no viver dos anjos se goza eternamente. Ah! se o homem pudesse em toda a sua vida amar assim tão pura e santamente, com esse amor que então animava o coração do jovem Gastão, para que havia [haveria] Deus {de} criar um outro céu, criar outras delícias para os seus escolhidos?! O céu seria o mundo, e nós os bem-aventurados. Mas, mesquinhos e míseros filhos de Adão, essa hora de mágicos enlevos não a tornareis {a} achar!… esse oásis que vos deleitou, desapareceu para sempre.

Foi um bafejo divino na hora da tormenta; foi uma gota de orvalho sobre a erva emurchecida pela calma. Agora segui o vosso deserto: árida e espinhosa será a vossa senda. Abrasar-vos-á o sismiú [“simiú”, na versão de 1863; simum ― vento típico do território africano, do centro para o norte do continente], e uma só fonte d’água fresca não encontrareis em vossa peregrinação que vos suavize o requeimar do sangue. E depois deste afã, deste doloroso caminhar, no extremo já, vereis por desafogo de tantas dores o antro escuro e úmido de uma sepultura. Não recueis, oh! não: aí está o esquecimento de uma existência amargurada, aí o descanso, o repouso, a felicidade.

Ao cabo de algumas horas, o jovem oficial se havia entranhado no bosque solitário e ermo. À direita, a uns cem passos de distância, avultava uma cabana cujo teto coberto de pindoba [espécie de palmeira] era sombreado por palmeiras simultâneas, que davam um aspecto poético e melancólico; à esquerda erguia-se um pequeno rochedo. À sua base serpeava uma ligeira corrente, deslizando suas mansas águas por sobre a areia, e pedrinhas; espreguiçando-se como uma criança no seu leito, sumia-se, murmurando no meio do bosque. Havia aí um quê de indefinível doçura, uma melancolia meiga e suave que se assemelhava, se harmonizava, se casava com o coração de Gastão, onde havia sensações deleitáveis como os sons longínquos de uma harpa que geme na solidão. O mancebo galgou a eminência com presteza. Dali seus olhos poderiam descobrir Alberto, ainda pensativo e desgostoso, se nessa hora ele se lembrasse de alguém que não fosse a mulher por quem esperava, e se a escuridão da noite o permitisse.

Havia um negrume espantoso, porém a natureza ainda estava calma: a tempestade que ameaçava não prometia ser breve.

Gastão contava os minutos pelas palpitações do seu coração. Era a primeira vez que ia encontrar-se com Épica face a face na escuridão da noite; era a primeira vez que ia achar-se com ela só, no cimo do outeiro, entre o oco e a terra, longe das vistas indiscretas do homem, longe das admoestações de Alberto, tendo por conselheiro só seu coração, por testemunha só Deus! Gastão bebia as delícias do paraíso. Esperou, e esperando cedeu à meditação.

Não haverá aí um só homem que tenha sentido em seu coração o fogo de um primeiro amor, que não adivinhe o doce meditar desse mancebo de coração ardente e alma apaixonada. Gastão aspirava os perfumes do céu, embalava-se nas fagueiras esperanças de um amor sem limites.

Depois de tudo isso, a morte; porque o único gozo que semelha aos dos anjos teria então passado. Assim pensava o moço francês, e esse pensamento não podia ser um erro. Errar por muito tempo, entre o amor e a sepultura, é um tormento inqualificável, é morrer sem esperança da salvação da alma, é a tortura da Idade Média não adoçada pelo cutelo do algoz. Gastão, pois, pensava bem; e qualquer outro em idênticas circunstâncias pensaria como ele. Do mundo, o moço só almejava uma coisa, uma somente: do mundo ele só queria aquela mulher que ele aguardava com frenesi, aquela mulher que ele amava e que idolatrava loucamente. Por ela, Gastão daria toda a sua vida, todo o seu sangue, sua alma, seu sossego, toda a felicidade de um futuro, que se lhe antolhava [punha diante dos olhos] risonho.

— Sim — exclamou ele, acordando do seu sonho mentiroso, respondendo ao seu próprio pensamento —, viver ou morrer com ela. Que me importa a mim os prejuízos do mundo? Haverá acaso no mundo mulher mais digna do meu amor?!… Épica! Épica! eu te adoro, Épica, anjo dos meus sonhos, visão encantadora, que afaga e adoça o amargor dos meus dias… serás acaso uma ilusão?!…

Um leve murmúrio, um rumor vago como a bulha [barulho confuso] sutil de passos cautelosos interrompeu-o: ele julgou esse leve ruído a aproximação da mulher amada; estremeceu de amor e correu ao encontro dessa visão angélica.

E encontrou-se face a face com um homem. Gastão recuou um passo e levou a mão à sua espada.

— Quem sois? — perguntou-lhe em português, com acento de cólera mal reprimida.

A noite era tão escura que Gastão mal poderia reconhecer este homem, ainda que fosse ele o seu melhor amigo.

— Quem sois? ― repetiu o moço estrangeiro. ― Pelo céu ou pelo inferno, dizei-o.

— Quem sou? — respondeu o recém-chegado, com voz grave, magoada e horripilante. — Desejais conhecer-me? Breve sabereis quem sou.

— Depressa, Senhor, depressa — tornou-lhe Gastão —, ou livrai-me da vossa presença.

— Conheço, mancebo, quanto vos deve ser importuna a minha presença neste lugar; mais tarde, porém, reconhecereis que não sou aqui o mais importuno.

Gastão julgou-se em face de um rival, e sua cólera redobrou.

— E insistes em não dizer quem sois, nem a que vindes?

— Não insisto, não, senhor, quero responder pontualmente às vossas perguntas, não obstante ser quem devia interrogar-vos.

— Vós! e com que direito?

— Com o mesmo, mancebo, com que me interrogais.

— Zombais acaso de mim? — disse Gastão, no auge de desesperação. — Ponde-vos em guarda: não quero ser um assassino.

— Esperai, senhor, esperai — replicou o desconhecido com calma —, escutai-me. Eu sou tupinambá — continuou —, sou o cacique desta tribo, sou, finalmente, o pai de Épica. Isto espanta-vos?

— Traição! — exclamou Gastão, desembainhando a espada, que cintilou na escuridão da noite.

— Enganai-vos, senhor, ninguém vos traiu. Eu sei tudo: vossas palavras eu as tenho escutado.

— Mentis, maldito tupinambá.

— Não minto, não: dia por dia hei seguido vossos passos e ouvido vossa conversação com a minha pobre Épica. Ainda ontem lhe dizias ao pé da cabana de seu velho pai: Amanhã, quando a lua estiver em meio giro, eu te aguardarei no cume do outeiro.

— Espião infame! — exclamou o moço desatinado, arremessando-se contra o cacique.

— Esperai, mancebo, esperai — lhe disse o índio —, juro-vos por Tupã que hei de matar-vos ou morrer às vossas mãos, e isto antes do meio giro da lua; porque a essa hora, Épica, a inocente Épica, virá louca correndo ao vosso apelo, e só um de nós a deve receber. Se fordes vós, ao menos eu não testemunharei semelhante aviltamento.

— Calai-vos — disse Gastão, puxando novamente pela espada.

O índio, porém, como se não reparasse naquele movimento do jovem, continuou:

— Vossa entrevista será ao meio giro da lua: mancebo, vos antecipastes, ainda me resta pois uma hora, peço que me escuteis.

Havia um não sei quê de profundo, de solene, no acento dessas palavras que revelavam inabalável resolução. A seu pesar, Gastão sentiu-se comovido e respondeu:

— Eu vos escuto.

III

— Muitas luas se iam passado, mancebo — continuou o cacique, com voz magoada —, muitas luas já, e tantas que nem vos sei dizer. E era uma tarde, bela como o foi a de hoje; mais bela, talvez, porque era então a lua das flores, e eu dela me recordo ainda, como se fora hoje…

Sim, era uma tarde de enlevadora beleza; nela havia sedução e poesia, nela havia amor e saudade. Sabeis vós o que nós outros chamamos — lua das flores? É aquela em que um sol brando e animador, rompendo as nuvens já menos densas, vem beijar os prados que se aveludam, enamorar a flor que se adorna de louçanias, vivificar os campos que se revestem de primoroso ornato, afagar o homem que se deleita com a beleza da natureza. É a lua em que os pássaros afinam seus cantos melodiosos, é a lua em que a cecém [açucena] mimosa embalsama as margens dos nossos rios, em que as campinas se esmaltam de flores odorosas, em que o coração ama, em que a vida é mais suave, em que o homem é mais reconhecido ao seu Criador…

Ele fez uma pequena pausa e continuou:

— Era, pois, na lua das flores que, à tarde, um velho cacique e um mancebo índio, do cume deste mesmo outeiro, lançavam um olhar de saudosa despedida sobre o navio normando que levava destas praias uma formosa donzela. Era ela filha desse velho cacique, que com mágoa a via partir para as terras da Europa; mas a formosa Paraguaçu há muito a havia distinguido dentre as demais filhas de caciques, e sua afeição por ela era sincera e imensa. Paraguaçu seguia para a França, onde devia receber o batismo, tomando por sua madrinha a célebre italiana, Catarina de Médicis, cujo nome tomou na pia batismal; e não podendo separar-se da amiga querida, levava-a consigo, arrancando-a d’essa arte [destarte = desse modo] ao coração de seu pai e aos sonhos deleitosos do moço índio que, magoado, via fugir-lhe a mulher de suas afeições. Épica, Senhor, chama-se essa jovem índia. Épica era o seu nome. A sua ausência não seria prolongada; o velho e o moço não o ignoravam; mas eles a amavam tanto que foi-lhes preciso chorar. Seria um pressentimento, a dor que os afligia? Foi, talvez… choraram ambos: entretanto, o velho era um bravo, e o moço já um valente guerreiro.

Ela, entanto, só concebia a dor do velho, pois saudades paternas agravavam mais a mágoa de deixá-lo; o moço índio era-lhe apenas pouco mais que um estranho. Seu coração ainda virgem desconhecia as delícias e as torturas do amor. O índio, pois, era-lhe indiferente, se é que indiferente se pode entender um homem que estava sempre a seu lado e que tinha em suas veias o sangue de seu pai. Este mancebo índio era filho de um irmão do velho cacique, e seu íntimo amigo. Destinado desde a infância para esposo de Paraguaçu, este mancebo nunca a pôde amar, nem tão pouco inspirar-lhe amor. Entretanto, Paraguaçu era bela! Ele amava perdidamente sua jovem parenta: Épica era a mulher de suas doidas afeições, porém esse amor puro como a luz da estrela da manhã estava todo cuidadosamente guardado no santuário do seu coração; uma palavra, um gesto, não havia maculado ainda a pureza desse sentir mágico e deleitoso. Épica era pura e inocente como a pomba que geme na floresta: seu coração conservava ainda o descuido enlevador dos dias da infância. Oh! ela era como a açucena à margem do regato…

O velho cacique atentou nas lágrimas do guerreiro jovem e, num transporte afetuoso, apertando-o contra o seu coração, apontando para o extremo do horizonte onde se perdia já o navio, disse-lhe:

— Sê sempre digno de mim e de teu pai; quando ela voltar, será tua. Oh! eu o juro. — O moço ajoelhou aos pés do irmão de seu pai e beijou-lhe as mãos com o entusiasmo do reconhecimento.

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— França! França!… — exclamou o tupinambá depois de alguns momentos de amargurado silêncio. — Pudera eu esmagar-te em meus braços!!!

— Passaram vinte e quatro luas, continuou serenando-se um pouco, o mancebo as contara por séculos. Ao fim de cada dia, vinha ele ao cimo deste outeiro e daqui perscrutava os mares, nus de uma vela, que visse lá das partes do ocidente, e quando caía a noite volvia triste e desconsolado aos lares do velho cacique. O mísero velho tinha cegado nesse curto espaço, e só da boca do mancebo esperava cada dia a nova feliz que o havia {de} lançar do fundo das suas trevas no [ao] gozo da felicidade. Assim se passaram muitos dias… mais uma vez a lua veio estender seu lençol de prata sobre a superfície desta imensa baía e confundir suas saudades às saudades do moço que a contemplava com melancolia, e ainda assim a suspirada Épica não voltara às praias do seu país. A desesperança começava a lavrar no coração do moço guerreiro. O velho sentia maiores saudades; porém, esperava com mais paciência.

Um dia, porém, um navio alvejou ao longe: era ela. Seu coração estremeceu de íntima satisfação; no coração do velho cacique, o transporte não foi mais vivo. Seus olhos a viram, ainda assim; ele mal podia acreditar em tanta ventura. Esse navio tão ansiosamente esperado chegara enfim, e com ele a vida, a felicidade do mancebo. Ao menos assim o acreditava ele, louco de alegria. O anjo dos seus sonhos, o encanto dos seus dias, o ídolo do seu coração, esse navio lhe acabava de restituir. O velho, tateando as trevas de sua noite eterna, correu pela mão do mancebo ao encontro de sua filha. Era um espetáculo bem tocante, ver esse velho guerreiro chorar e rir de prazer com a ideia de tornar abraçar aquela filha mimosa que, tocando-a, jamais a tornaria a ver. Épica, a jovem índia, trajava ricos vestidos, à europeia. Apertava-lhe a cintura delgada e flexível, como a palmeira do deserto, um cinto negro de veludo, e as amplas dobras do seu vestido branco envolviam-lhe o corpo mimoso, delgado como a haste da açucena à beira-rio. As tranças negras de azeviche, que lhe molduravam as faces aveludadas, eram aqui e ali entremeadas de flores artificiais. Era todo artifício aquele trajar até então desconhecido do moço índio; ele sentiu repugnância em ver aquela que era tão simples, no meio da solidão, ornar-se agora de trajes que faziam desmerecer sua beleza e seus encantos…

— Paraguaçu, de volta à sua pátria — continuou o cacique após breve pausa —, parecia sentir na alma os efeitos desse inexprimível sentimento de suprema felicidade, que deleita e enlouquece o infeliz proscrito no dia em que, ainda que com as vestes despedaçadas e a fronte cuspida pelas vagas, uma delas, mais benéfica, o arremessa à praia onde seus olhos viram a primeira vez a luz. Trazia nos lábios um sorriso que levava facilmente a compreender o prazer que lhe enchia o coração. Pela mão dessa bela princesa seguia, débil e abatida, melancólica e desconsolada, a jovem donzela brasiliense. Semelhava ela o lírio, crestado pela ardentia da calma [do calor atmosférico]; borboleta, que a luz da vela emurcheceu as asas.

Contraste doloroso havia entre a fronte polida e abatida da moça índia e a fronte altiva e risonha da jovem esposa de Caramuru.

— Perdoai-me — continuou o cacique — se insisto nestas particularidades: o que me resta a contar provar-vos-á que elas não são aqui inúteis.

Um vago mas doído pensamento magoou o coração do moço guerreiro, à hora em que essa mulher, que há muito ele criara {como} seu ídolo, lhe aparecia assim melancólica e triste como a estátua do sofrimento. Que terá ela? interrogava ele a si mesmo. Terá saudades desse país longínquo que apenas viu, onde não pode contar um amigo, onde tudo lhe é estranho: linguagem, costumes, rostos, e religião?!…

Enquanto ele assim discorria, a moça aproximou-se de seu pai e, sorrindo-se por entre lágrimas, estreitou-o com ternura filial contra o coração. Foi um prolongado abraço: um profundo suspiro lhe rasgou o peito, e uma só palavra ela não proferiu. E tornava a apertar o velho, e as lágrimas lhe corriam pelas faces, e a moça parecia não se poder separar do pai, que chorava de alegria sentindo-se abraçar por sua filha querida.

Com indizível ansiedade aguardava o mancebo por uma só palavra da sua querida Épica; mas embalde [inutilmente]. Ela parecia toda abstrata, não na contemplação de seu pai, mas numa ideia oculta que dir-se-ia lhe amargurava a alma. Mas ele, vencendo o pensamento doloroso que lhe atravessara a mente, aproximando-se dela, em voz de súplica, disse-lhe:

— Épica! Épica, nem uma palavra para o vosso irmão?…

Errou-lhe então nos lábios um mimoso sorriso, duas lágrimas ressaltaram-lhe dos olhos e rolaram sobre as faces, e ela estendeu-lhe a mão amiga, que o moço beijou com reconhecimento. Essa mão, esse beijo, desfizeram o ponto negro que assomara de improviso na alma do guerreiro brasiliense, como desfaz o vento a nuvem carregada à hora do meio dia. Só o extremo do seu amor lhe representara Épica triste, pálida e desconcertada. Épica era a mesma virgem das florestas, com a diferença única de uma inteligência cultivada pelo trato europeu. Esses trajes, que tanto haviam afligido ao mancebo, davam agora maior realce à beleza daquela que lhe sorria. Sua voz era mais melodiosa, mais doce; pareceu-lhe, ouvindo-a, melhor que a do sabiá, melhor que as notas da perdiz mimosa, que a própria pecuapá [ave galinácea do Norte] gemendo à noite. Ele acreditou que Tupã a havia arrebatado um instante para restituí-la mais sedutora, mais bela que os próprios anjos que lhe entoam hinos. O índio escutava com enlevo; cada uma de suas palavras causava-lhe suavissíssima impressão. Como Paraguaçu, Épica havia recebido o batismo. Conquanto a jovem princesa do Brasil não poupasse esforços em chamar os homens do seu país ao grêmio da Igreja; conquanto sua voz fosse persuasiva, suas palavras insinuantes; todavia foi a voz de Épica que rendeu o moço índio. Ele abraçou o Cristianismo quando soube que Épica era cristã. Oh! mancebo, murmurou o tupinambá, quanto pode o amor quando é ele santo, como o que há no céu!…

Raiou enfim o dia em que a donzela brasiliense devia pertencer pelo matrimônio ao homem que a idolatrava, e ele a levou pela mão aos pés do Altar, e um sacerdote cristão abençoou os noivos que estavam ajoelhados à face de grande multidão. Á hora, porém, em que Épica pronunciava os votos, a voz alterou-se-lhe: sua mão resfriada estremeceu convulsa na mão do esposo. Ele olhou-a surpreso. Épica era pálida como um cadáver. À ultima palavra do sacerdote, a moça caiu desalentada.

………………………………..

O tupinambá levantou-se, deu alguns passos rápidos e incertos. Fulgura[ra]m-lhe os olhos na escuridão da noite, e um tremor convulso lhe agitou os beiços. Depois, foi pouco e pouco serenando e reatou o fio de sua narração.

(Conclusão.)

IV

— Era alta noite — prosseguiu ele com uma voz cavernosa —, o vento ciciava entre os palmeiras, e a lua, prateando a superfície das águas, passava melancólica por cima destas arvores anosas. A sururina [espécie de nambu] desprendia o seu canto harmonioso, na Mata ondulava um vento gemedor, e o mar quebrava-se nas solidões da praia. Sobre o cume deste mesmo rochedo, mancebo, a essa hora da noite, silenciosa e erma, um jovem índio e uma donzela americana, que o céu ou o inferno havia unido em matrimônio naquele mesmo dia, em confidência dolorosa tragavam até às fezes o amargor da desonra e da ignomínia. De joelhos, a mulher fazia a mais custosa e triste confissão que jamais saiu dos lábios de uma mulher.

— Gupeva! meu Gupeva — exclamava ela. Assim se chamava, senhor, o jovem esposo. — Meu irmão, meu amigo, poderás perdoar-me?

Oh! ele adivinhava já o que restava a dizer a essa infeliz mulher, mas era-lhe necessário ouvir de seus lábios aquilo mesmo que ele daria mil vidas para nunca ouvir.

— Fala! — disse-lhe Gupeva, tremendo de furor.

— Vou merecer o teu desprezo, o teu abandono, mas ao menos peço que meu pobre pai ignore tudo. Gupeva, confiei em ti; talvez minha confiança te ofenda; mas tu conheces a meu pai… ele não poderia sobreviver à minha…

— Cala-te! cala-te, mulher — exclamou com desespero assustador o desgraçado esposo.

— Não — continuou ela sem se perturbar. — Tens sobre mim direito de vida ou morte, mata-me Gupeva, mas ouve-me primeiro.

— Épica! Épica, oh! se isto fora um sonho!

— Amei — continuou ela —, amei com esse amor ardente e apaixonado que só o nosso clima sabe inspirar, com essa dedicação de que só é capaz a mulher americana, com essa ternura que o homem nunca soube compreender. E sabes tu que homem era esse?

— Basta!

— Oh! é preciso que me escutes até o fim, depois mata-me. Esquecida — prosseguiu Épica — de que o homem de suas [minhas] afeições chamava-se o conde de …, Gupeva, eu cometi uma falta, que mais tarde devia cobrir de opróbrio o homem que me recebesse por esposa. O amor não prendeu o coração do conde, ele esqueceu os extremos de meus afetos e desposou uma donzela nobre da sua nação, sem sequer comover-se das minhas lágrimas.

Ah! bem tarde conheci eu a grandeza do meu sacrifício; bem tarde reconheci a perfídia e a indignidade no coração daquele que era até então o meu ídolo. A pequenez da minha origem apagou-lhe o amor no coração. O conde de…, Gupeva, era já esposo, e eu…eu trazia em meu seio um filho que há de envergonhar-se do seu nascimento!…

Ao nome do conde de… , proferido pelo tupinambá. um calafrio mortal percorreu os membros do jovem Gastão, que, submergido em longas cogitações, ouvia a narração do índio: no fundo do coração despontava-lhe um tormento inqualificável.

O índio prosseguiu: Ela estorcia-se convulsa no leito de relva a meus pés, porque, senhor, esse esposo desventurado, que na primeira noite do seu casamento ouvia semelhante confissão, esse homem que acabava de receber a mulher impura e maculada pelo filho da Europa, esse homem, enfim, que devorado por um amor louco e apaixonado estampava em sua fronte o ferrete da ignomínia, o cunho do opróbrio, era eu.

— Vós! — exclamou Gastão, com um sentimento indizível.

— Sim eu!…eu mesmo —  respondeu o cacique, com voz de trovão.

E prosseguiu: O que se passou, porém, nessa noite de tão amargurada recordação, só Deus e eu sabemos. O sedutor de Épica, mancebo, era um francês; um francês é um cristão; bem, desde essa hora eu deixei de o ser. Tupã não abandona seus filhos… mancebo, eu não amo o Deus dos cristãos. O conde de… era filho da Igreja.

Gastão tentou interrompê-lo, mas ele continuou:

— A vergonha, a dor, bem depressa levaram ao sepulcro a desgraçada Épica. Não segui de perto essa mulher por quem houvera dado todo o meu sangue, se disso dependesse a sua ventura, porque restavam-me penosas missões a cumprir. Penosas, mancebo, e bem árduas: vivi para cumpri-las; ouvis?

Restava-me o dever de velar por essa menina, que tem em suas veias o sangue francês, velar pela filha do conde de …, velar finalmente por Épica, essa jovem donzela a quem pretendeis seduzir.

— Oh! — exclamou Gastão, pálido como sudário de um morto. — Meu Deus! meu Deus, onde estou eu!…

— Ainda uma outra missão me reteve a vida — continuou Gupeva —: a vingança…

No momento em que no seio da sepultura se escondia para sempre os restos daquela a quem eu tanto amei, de joelhos, senhor, de joelhos jurei que havia vingá-la. Anhangá [espírito de morto que atormenta os vivos] escutava os protestos da minha alma. Um guerreiro amanhã desposará a minha Épica, e hoje, daqui a um minuto, eu terei vingado a mulher que lhe deu a vida. Agora, mancebo, estás em meu poder; eu podia prender-te; aqui está a sussurrama [?], podia apresentar-te à minha tribo e fazer-te morrer como meu prisioneiro; mas não quero: duas razões me obrigam a proceder ao contrário. Para dar-te essa morte honrosa era preciso dar a causa dela: minha desonra se tornaria manifesta; e por outra, tu, covarde europeu, hás de empalidecer em face da morte: fraco e tímido, não saberás entoar o teu canto de morte. Quero poupar-me a vergonha de uma confissão, quero poupar a meus irmãos o espetáculo de um covarde. Prepara-te para morrer ou mata-me…

O que então se passava na alma do infeliz mancebo, a quem eram dirigidas tais palavras, não pode a pena descrever. O mais doloroso golpe acabava de traspassar-lhe o coração; golpe o mais profundo, mais dilacerante, que jamais feriu o coração de um homem. Gastão não amaldiçoou a hora do seu nascimento, mas pediu a Deus a morte, o esquecimento. Todas as suas ilusões estavam dissipadas, desfeitos todos os seus sonhos. Já não era Gupeva que se interpunha entre ele e o seu amor, era Deus, era a natureza, era a sua própria consciência. Depois do amor, a morte… ele havia dito… Seria acaso um erro?

— Da minha vingança serás tu a primeira vítima — continuou o cacique. — Mais tarde o conde de ***

— Eis-me — disse Gastão, interrompendo Gupeva —, eu sou filho do conde de ***, não me reconheceste então? Oh! eu sou francês, sou o filho do sedutor de vossa esposa, sou irmão de Épica…

— Infame — rugiu o velho tupinambá. — Infame filho do conde de***, não terei compaixão de ti. — E, brandindo o seu tacape, cravou-o com força no peito do jovem oficial. E batia com os pés na terra, e fazia com gritos um alarido infernal.

Gastão, levando a mão à ferida, obrigou-o por um instante a calar-se e disse-lhe:

— Obrigado, Gupeva, eu queria a morte.

— Covarde! — exclamou o índio.

— Não me insultes na hora do passamento — tornou-lhe o moço, empalidecendo. — Cacique, eu podia matar-te, mas para que quereria eu a vida depois do que me acabaste de narrar?…

Nessa hora, a lua, rompendo o negrume das nuvens, aclarou com sua face pálida o cimo do outeiro. Era o meio giro da lua: a hora da entrevista tinha soado.

E uma visão angélica, uma mulher vaporosa, apareceu no cume do outeiro como um anjo mandado pelo Senhor para receber a alma do mancebo cristão, que ia partir. Era Épica.

Ela soltou um grito de angústia à vista da cena que, mercê da lua, se apresentou a seus olhos. Esse grito, essa voz tão conhecida, tão amada, atraindo a atenção ao moribundo, fez calar o guerreiro índio que apupava a [escarnecia da] sua vítima.

Ela avançou alguns passos e, olhando fixamente para seu pai, disse-lhe:

— Gupeva, por que o mataste? Cruel! Sabes acaso que este é o homem a quem adoro?

Gupeva, esse, feroz Gupeva, esse bárbaro que se ufanava da sua vingança até na presença da morte, à voz da moça cruzou os braços sobre o peito e, com um olhar que queria dizer “perdão”, exclamou com aflição:

— Épica!…

Ela pareceu não ouvir essa única palavra, que em si resumia quanta ternura há no coração de um homem: seus grandes olhos, negros como o azeviche, fitavam-se desvairados no mancebo agonizante. Ondulavam à mercê do vento suas madeixas acetinadas, e seu corpo, flexível e mimoso como o leque da palmeira, cedendo a um vertiginoso ondular caiu inerte sobre o jovem Gastão.

Ele olhou-a com assombro e disse-lhe:

— É um crime.

— Monstro! — tornou ela para Gupeva, que, com os olhos fitos no chão, não se atrevia a encarar a donzela. — Monstro! Foi para me rasgares o coração que me criaste em teus braços!… — E, voltando-se para o jovem francês, disse-lhe:

— Gastão, meu querido Gastão, vive para a tua Épica.

Nesses olhos em que já se estampava a morte, um átomo de vida reapareceu.

— Épica — disse ele — o nosso amor era um crime…

Épica, eu sou teu irmão!…

V

Ao alvorecer do dia rebentou a tempestade há tanto ameaçada. O mar rugia com assustadora fúria, o vento raivoso sibilava por entre as enxárcias do Infante de Portugal, que, não obstante as ordens recebidas, não podia levantar âncora sem grande perigo de despedaçar-se todo de encontro a algum arrecife. Abrigado no ancoradouro, ainda o comandante temia o furor da tempestade. O navio arfava inquieto: joguete das ondas, ele estalava como se houvera de desjuntar-se todo. Um sopro mais violento da tempestade, {e} o pobre lenho seria aniquilado. A chuva desprendia-se em torrentes; o raio sibilava, ameaçador; o mar era um lençol negro e de sinistro aspecto. O mais corajoso tremia; só Alberto parecia insensível à voz do temporal. Sua fronte ardente, seus olhos requeimados pela vigília da noite, seu coração opresso pelo pressentimento de terrível sucesso [acontecimento], inquieto pelo temor de alguma desgraça irremediável, abatido, angustiado pela não aparição de seu louco e infeliz amigo, parecia não compreender a grandeza do perigo que os ameaçava. O mar cuspia-lhe, irritando as faces; o vento insinuava-se, rumorejando por entre as madeixas de seus negros cabelos; e ele não atendia nem aos insultos do mar, nem [a]o raivoso perpassar do vento.

Alberto pensava em Gastão. Tinha visto amanhecer sem que Gastão voltasse ao navio: era preciso que já não existisse, para assim deixar de cumprir sua promessa!

Alberto comunicou ao comandante seus receios e o desassossego da sua alma: toda a oficialidade e toda a marinhagem sentiu interesse pelo jovem francês.

Ao meio-dia, a tempestade serenou: o mar tornou-se calmo e pacífico, o vento conteve-se nos seus limites. Agora, o azul das nuvens refletia-se nas águas da imensa baía, e as vagas se moviam mansamente, aniladas e risonhas como um ligeiro sorriso. Então o comandante deu suas ordens; um escaler bem tripulado recebeu o oficial português, que um momento depois pesquisava ansioso vestígios do seu infeliz colega. Incansável, devassava o moço todos os subúrbios da pequena habitação, incansável percorria ele todas as sendas, todas as devesas [alamedas em torno de terrenos], todos os recônditos lugares daquele vasto terreno: era embalde. Extenuaram de cansaço, ele e um velho marinheiro que o seguia. Enquanto outros investigavam outros lugares, Alberto chegou ao alto do outeiro onde na noite antecedente deu-se a cena que acabamos de narrar.

Oh! que doloroso espetáculo!

Sentado no tronco de uma árvore estava um velho tupinambá; brandia em suas mãos um tacape ensanguentado: a seus pés estavam dois cadáveres!… Reclinadas as faces ambas para a terra, Alberto não pôde reconhecer seu amigo senão pelo uniforme de marinha. que o sangue tingira, e que as águas que se desprenderam à noite haviam ensopado e enxovalhado. O outro cadáver era o de uma mulher… Bela devia ser ela, porque seus cabelos longos e ondeados, fáceis [sensíveis] aos beijos da viração da tarde, esparsos assim sobre o seu corpo, davam-lhe o aspecto de uma Madalena.

Alberto exclamou: que horror! e cobriu o rosto com as mãos. Caiu por terra.

Depois, erguendo-se com ímpeto raivoso e aproximando-se do índio, que imóvel parecia aguardá-lo, disse-lhe, apontando para o seu infeliz amigo:

— Bárbaro!… porque o assassinaste?

Gupeva, pois era ele, soltou uma gargalhada estridente e descomposta, que lhe tornou o aspecto sinistro e medonho, e disse:

— Ah! minha filha… não a vedes? — E de novo pôs-se a brincar com o tacape.

— Louco! — murmurou Alberto — A minha vingança seria um crime.

Os seus companheiros de pesquisa foram-se pouco e pouco reunindo, ele voltou pálido e com a mágoa no coração para junto do cadáver do desditoso Gastão.

Ninguém mais curou do louco.

Quando iam, porém, deitar os cadáveres nas sepulturas, que o rosto da mulher adormecida ao lado do jovem oficial voltaram para cima, todos os circunstantes agruparam-se e, curiosos, procuravam ver tanta formosura.

Alberto, surpreso, exclamou:

— Que extraordinária semelhança!…

— Eles não podiam deixar de ser irmãos — exclamaram unanimemente os companheiros de Alberto.

Ah! era Épica, era a virgem das florestas, era o anjo dos sonhos mentirosos de Gastão, era ela que acabava de conduzi-lo a Deus e que ia descer com ele à sepultura. Formosa ainda na palidez da morte, Épica levou Alberto a perdoar os extremos de seu infeliz amigo.

Alberto ajoelhou à orla da sepultura e orou; todos o imitaram, e aquelas regiões selvagens guardaram respeitoso silêncio enquanto durou o ato religioso, enquanto a oração subiu da terra ao trono do Senhor.

E quando eles deixaram no sepulcro aqueles que tão extremamente se adoravam, e quando lembraram-se novamente do velho tupinambá e o olharam, ele tinha a face em terra, e o tacape lhe havia escapado das mãos.

Então um velho marinheiro, tocando-o com a ponta do pé e voltando-lhe o corpo para o lado, disse:

— Está morto!

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