9. A produção artística avulsa de Maria Firmina dos Reis

SÉRIE DE POSTS SOBRE MARIA FIRMINA

O ano da primeira divulgação do romance “Úrsula”, de Maria Firmina dos  Reis

“Úrsula”, o romance de Maria Firmina dos Reis

A história do romance “Úrsula”

A primeira publicação online da novela “Gupeva”

“A Escrava”, o conto de Maria Firmina dos Reis

“Cantos à Beira-Mar”, o livro de poemas de Maria Firmina dos Reis

O “Álbum” (o diário) de Maria Firmina dos Reis

A educadora Maria Firmina dos Reis

O retrato falso de Maria Firmina dos Reis

O espírito feminista e revolucionário das primeiras escritoras brasileiras de ficção

O erro histórico do Google sobre Maria Firmina e as datas de nascimento e morte de três pioneiros da ficção brasileira

RESUMO

Tema: toda a produção artística avulsa de Maria Firmina dos Reis, que complementa o conteúdo literário publicado no romance “Úrsula” e no livro de poemas “Cantos à Beira-Mar”.

1. Poemas.

1856

. Poema dedicado a Teresa de Jesus Cabral, no “Álbum” da autora.

Primeiro poema conhecido de Maria Firmina dos Reis.

1860

. “[Poesias] Oferecidas à minha extremosa amiga a Exma. Sra. D. Theresa de Jesus…”, em “A Imprensa”, 19/12/1860.

1861

. “[Versos] Oferecidos à Exma. Sra. D. Thereza Francisca Ferreira de Jesus…”, em “Publicador Maranhense”, 12/3/1861, e “A Verdadeira Marmota”, 19/8/1861.

. “Minha Vida”, em “Parnaso Maranhense ─ Coleção de Poesias”, 1861, e “A Verdadeira Marmota”, 13/5/1861.

. “Por Ver-te”, em “Parnaso Maranhense ─ Coleção de Poesias”, 1861, e “A Verdadeira Marmota”, 20/5/1861.

. “A Uns Olhos”, em “A Verdadeira Marmota”, 27/5/1861.

. “Não me Ames Mais”, em “A Verdadeira Marmota”, 26/8/1861.

. “Saudades”, em “A Verdadeira Marmota”, 3/9/1861.

. “A Constância” (tradução), em “A Verdadeira Marmota”, 9/9/1861.

. “Dedicação ─ Tributo de Amizade”, em “A Verdadeira Marmota”, 20/9/1861.

. “Ao Amanhecer e o Pôr do Sol”, em “O Jardim das Maranhenses”, 20/9/1861.

. “A Vida”, em “O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861.

. “Não me Acreditas!”, em “O Jardim das Maranhenses”, 13/10/1861.

1862

. “Amor Perfeito”, em “A Verdadeira Marmota”, 6/4/1862.

. “Elvira ─ Romance contemporâneo”, em “A Verdadeira Marmota”, 26/2, 2/3/, 10/3 e 17/3/1862.

1863

. “A um Anjo”, no “Álbum” da autora (poema reproduzido em forma de prosa).

1865

. “Hosana”, em “Eco da Juventude”, 15/1/1865.

. “T…”, em “Eco da Juventude”, 29/1/1865.

. “O Canto do Tupi”, em “Eco da Juventude”, 5/2/1865.

. “Melancolia”, em “Eco da Juventude”, 14/5/1865.

. “À Minha Amiga Terezinha de Jesus”, no “Álbum” da autora, 19/11/1865.

1867

. “Meditação”, em “Semanário Maranhense”, 3/11/1867.

1868

. “A Lua Brasileira”, em “Semanário Maranhense”, 1/3/1868.

. [Poema sem título], em “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”.

. “A Ventura”, em “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”.

1880

. “O Menino sem Ossos”, em “O País”, 3/10/1880.

1881

. “A Sentida Morte de Raymundo Marques Cordeiro”, em “O País”, 7/9/1881.

1884

. “Saudade”, no “Álbum” da autora (poema dedicado à irmã Guilhermina).

1885

. “Uma Lágrima”, em “O País”, 17/3/1885.

. “Prantos”, em “Pacotilha”, 7/5/1885.

. “O Porvir”, em “O Porvir”, 11/5/1885.

. [Poema em memória de Adelsom], no “Álbum” da autora.

1887

. “À Estremecida Madasinha Serra”, em “Revista Maranhense”, outubro de 1887.

1889

. “A Sentida Morte Da Menina D. Julia Sá”, em “Pacotilha”, 16/3/1889, e “Diário do Maranhão”, 28/3/1889.

1897

. “Uma Lágrima sobre o Túmulo de Manoel Raymundo Ferreira Guterres”, em “Pacotilha”, 12/4/1897.

1900

. “Salve!”, em “Pacotilha”, 6/7/1900.

. “Um Brinde à Noiva”, em “Pacotilha”, 11/8/1900.

. “À Exma. Sra. D. Anna Esmeralda M. Sá”, em “Pacotilha”, 11/8/1900.

1901

. [Poema de título desconhecido], em “O 17 de Dezembro” (PA), janeiro de 1901.

Único poema de Maria Firmina publicado fora do Maranhão, em vida.

1903

. “Ao Digníssimo Colega o Sr. Policarpo Lopes Teixeira, no Dia 30 de Abril…”, em “O Federalista”, 19/5/1903.

1908

. “Poesia Recitada por Ocasião das Bodas do Sr. Eduardo Ubaldino Marques”, em “Pacotilha”, 20/2/1908.

Última produção conhecida de Maria Firmina, publicada aos 85 anos, pouco mais de 9 anos antes do falecimento.

. Total: 41 poemas e 1 história em versos.

2. Textos literários.

. “Meditação”, em “O Jardim das Maranhenses”, 25/11/1861.

. “Um Artigo das Minhas Impressões de Viagem ─ Página Íntima”, em “O Domingo”, ?/8, 1/9 e 7/9/1872.

A novela “Gupeva” (1861) e o conto “A Escrava” (1887) serão temas de posts próprios neste blog.

. Total: 2 textos intimistas, 1 novela (curta) e 1 conto.

3. Jogos de palavras.

1861

. “Charada”, em “A Verdadeira Marmota”, 20/5/1861.

. “Charada”, em “A Verdadeira Marmota”, 27/5/1861.

. “Logogrifo”, em “O Jardim das Maranhenses”, 20/9/1861.

. “Charada”, em “O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861.

. “Charada”, em “A Verdadeira Marmota”, 18/11/1861.

. “Charada”, em “O Jardim das Maranhenses”, 2/12/1861.

. “Charada”, em “A Verdadeira Marmota”, 12/12/1861.

1863

. “Charada”, em “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1863”.

1868

. “Charada”, em “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”.

. “Charada”, em “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”.

. Total: 9 charadas e 1 logogrifo.

4. Composições musicais.

. “Auto de Bumba-meu-Boi”.

. “Poesia da Garrafa”.

. “Hino à Mocidade”.

. “Hino à Liberdade dos Escravos”.

. “Pastor Estrela do Oriente”.

. “Rosinha” (valsa).

. “Canto de Recordação”.

Total: 7 composições com letra e música.

Observação: não há fontes primárias que validem as produções musicais atribuídas a Maria Firmina, as quais foram coletadas pelo pesquisador José Nascimento Morais Filho mais de 60 anos após os fatos, com base somente no relato oral de alguns contemporâneos da escritora maranhense.

Produção total da autora:

. Romances: 1 (“Úrsula”, 1860).

. Novelas: 1 (“Gupeva”, 1861).

. Contos: 1 (“A Escrava”, 1887).

. Livros de poemas: 1 (“Cantos à Beira-Mar”, 1871).

. Poemas avulsos: 42 (incluindo uma história).

. Jogos de palavras: 10 (9 charadas e 1 logogrifo).

. Composições musicais (de autoria duvidosa): 7.

Novidades sobre a obra da autora:

1. Um poema dedicado a artistas circenses (“O Menino sem Ossos”, 1880).

2. Uma quadrinha (“Prantos”, 1885).

3. Um poema dedicado à filha Dolores e lido no dia do casamento (“Poesia Recitada por Ocasião das Bodas do Sr. Eduardo Ubaldino Marques”, 1908).

4. O título de um poema, de texto desconhecido (“O Porvir”, 1885).

5. Um poema, do qual não se conhece nem o título nem o texto (1901).

A única produção de Maria Firmina publicada fora do Maranhão, em vida (no Pará).

6. Um poema reproduzido como texto em prosa no “Álbum” da autora (“A um Anjo”, 1863).

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LINKS INTERNOS

Apresentação

Poemas

Textos literários

Jogos de palavras

Composições musicais

A produção perdida

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O TEXTO COMPLETO

A PRODUÇÃO ARTÍSTICA AVULSA DE MARIA FIRMINA DOS REIS

Apresentação

Este post apresenta toda a produção artística avulsa (literária, musical e enigmística) de Maria Firmina dos Reis, com a exceção dos textos da novela curta “Gupeva” e do conto “A Escrava” (temas dos próximos posts).  Além deles, Maria Firmina é autora do romance “Úrsula” e do livro de poemas “Cantos à Beira-Mar”.

O material vem agrupado em quatro categorias: Poemas, Textos literários, Jogos de palavras e Composições musicais.

Um juízo subjetivo emerge naturalmente da leitura da produção total da autora maranhense (com o qual você poderá ou não concordar): o forte de Maria Firmina era a ficção.

Seus poemas avulsos não trazem novidades em termos de tema ou estética (metáforas criativas, ângulos novos, imagens originais etc.), além de repetirem fórmulas de conteúdo e forma próprios do estilo romântico da época. O lirismo e a sensibilidade quase juvenis da poesia da autora contrastam com o tom adulto, combativo e até mesmo revolucionário de sua ficção.

Uma entrada em seu “Álbum” (o diário da escritora) nos oferece a chave para entender esse lado de sua prática literária:

“[…] para mim passou já essa quadra da vida, toda de ilusões floridas, e de esperanças mais ou menos enganadoras; mas ainda assim belas!!! Que me resta pois? Um coração vazio de amor, ― uma alma transbordando de afetos ingênuos, puros como os beijos de uma criança […]” (31 de janeiro de 1869).

Destacam-se nessa produção mediana os poemas intimistas, os quais, associados àquele “Álbum”, permitem conhecer a alma da escritora maranhense.

Os jogos de palavras, em forma de poemas, são uma curiosidade e se enquadram na já antiga relação dos escritores com essas brincadeiras verbais.

Quanto às composições musicais, do gênero popular, persiste a questão histórica sobre quanto dessa produção pertence realmente a Maria Firmina, já que os testemunhos foram tomados mais de 60 anos após a morte da escritora, e não há outras fontes que não a memória de poucas pessoas que conviveram com ela e que serviram de informantes ao pesquisador José Nascimento Morais Filho (o qual aceitou algumas dessas produções com ressalvas, conforme se lê em seu livro “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”).

Em termos de novidades neste post, destacam-se as informações sobre cinco poemas inéditos de Maria Firmina: um poema dedicado a artistas circenses (“O Menino sem Ossos”, 1880); uma quadrinha (“Prantos”, 1885); um poema dedicado à filha Dolores e lido no dia do casamento (“Poesia Recitada por Ocasião das Bodas do Sr. Eduardo Ubaldino Marques”, 1908; a última produção conhecida de Maria Firmina); o título de um poema, de texto desconhecido (“O Porvir”, 1885); e outro poema, do qual não se conhece nem o título nem o texto (1901). Este último poema é a única produção de Maria Firmina publicada fora do Maranhão, em vida ― mais precisamente em um periódico do Pará.

Além disso, apresenta-se um poema reproduzido como texto em prosa no “Álbum” da autora (“A um Anjo”, 1863).

Muitas fontes primárias estão indicadas por links. Nesse caso, tem-se também a reprodução das fontes na forma de imagens oferecidas após a transcrição atualizada do seu conteúdo.

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1. POEMAS.

1856

 

POEMA DEDICADO A TERESA DE JESUS CABRAL

Escrito no “Álbum” da autora

Este é o primeiro poema conhecido de Maria Firmina.

Trarei teu nome gravado

Dentro do meu coração

Pois por ti só concebi

Amor, sincera afeição.

*

Estas linhas que escrevo

Só querem dizer “Maria”

Delas só me esquecerei

Debaixo da campa fria.

Maranhão, 22 de julho de 1856.

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1860

 

POESIAS

Oferecidas à minha extremosa amiga a Exma. Sra. D. Theresa de Jesus por ocasião da sentidíssima morte de seu inocente filho Leocádio Ferreira de Souza.

A mão da morte desfolhou na campa

As níveas rosas de teus ledos dias!…

O doce aroma d’uma vida breve,

D’uma harpa santa, divinais poesias.

*

Do prado a erva delicada e branda,

Qu’a brisa afaga, enamorada, e bela,

Ingênuo riso de celeste arcanjo,

Suspiro terno de gentil donzela.

*

Uns sons de lira melindrosa, e grata,

Na parda tarde a conversar co’ a brisa

Macias auras, enrugando apenas

As mansas águas, que ligeira frisa.

*

Dos coros d’anjos os celestes cantos,

Ou voz sentida de queixoso nauta;

Acentos magos na soidão [solidão] perdidos,

Longínquas notas de saudosa flauta.

*

Estrela d’alva, que não tem desmaios,

Frescor da tarde, rosicler do dia,

Transporte terno de amoroso encanto,

Qu’inspira, e gera divinal poesia.

*

Percorre o infinito, revoa no espaço,

Compreende a grandeza, que existe nos céus,

Aspira o perfume das auras divinas.

Entoa co’ os anjos seus hinos a Deus.

*

Voaste, minha esperança,

Ditosa prenda de amor!

Estrela da madrugada,

Em seu virgíneo [virginal] candor,

Mimoso lírio nas águas,

Orvalho sobre uma flor.

*

Por que tão breve deixaste

A senda do seu viver?…

Porque, florzinha, na sesta

Quiseste emurchecer?

Porque triste nos deixaste,

Entregue a tanto sofrer?!!…

*

Porque de Deus um anjinho

Junto a teu berço pousou,

E com auri-brancas azas

Tuas brancas faces roçou,

Como brisa que macia

Pelas ervas perpassou?!

*

E do céu viste a entrada,

Qu’o meigo anjo indicou.

Viste falange de anjinhos,

Qu’a vista te fascinou,

Viste místicos enlevos,

Que todo o ser te abalou.

*

E logo deixaste a terra,

Risonho, ledo, e contente;

Porqu’os anjos te acenavam

Com brando gesto inocente;

Porque lá viste meiguices,

Qu’amaste perdidamente.

*

Percorre o infinito, revoa no espaço,

Compreende a beleza, qu’existe nos céus,

Aspira a perfume das auras divinas,

Entoa c’os anjos teus hinos a Deus.

Por M. F. R.

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“A Imprensa”, 19/12/1860, ano IV, número 111, página 3, primeira coluna, em “Publicação Pedida, Poesias”.

http://memoria.bn.br/docreader/035156/1449

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1861

 

OFERECIDOS

à Exma. Sra. D. Thereza Francisca Ferreira de Jesus,

Tributo de

simpatia e de admiração.

*

Virgem!… virgem de amor ― o teu sorriso,

Encheu de casto enlevo o peito meu,

Causou-me um doce bem teu mago riso;

E ao teu canto minh’alma estremeceu.

*

Tão ternos os acentos, tão divina,

Tão sonora a tua voz ― que abranda a dor,

Ainda a mais profunda, a mais ferina;

E sem que o queira ― nos desperta amor.

*

Quando declinas esses meigos sons,

Repassadas de amor, ― de melodia,

Eu creio que por Deus, fadados sons,

Partilhaste de maga poesia.

*

Meu peito acostumado a longas dores,

Há muito geme ― já nem sei cantar!

Mas tu melhor qu’a vida em seus fulgores,

Gostosa vida, me tornaste a dar.

*

Resumes, virgem, singular poesia,

Fragrância pura de mimosa flor,

Lírio sorrindo no nascer do dia,

Gemer das auras, murmurando ― amor:

*

Fora ousadia, descantar-te, oh bela

Estrela d’alvorada em seu fulgor!

És anjo a divagar, gentil donzela,

Entre perfumes, da manhã no albor.

*

Guimarães, 3 de março de 1861.

Por ― Maria Firmina dos Reis.

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“Publicador Maranhense”, 12/3/1861, ano XX, número 59, página 2, quarta coluna, em “Publicações Pedidas”.

http://memoria.bn.br/docreader/720089/11747

Observação

Publicado também no periódico “A Verdadeira Marmota” em 19/8/1861, sem a dedicatória e com o título “Uma Hora na Vida” (informação de José Nascimento Morais Filho).

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MINHA VIDA

Um deserto espinhoso, árido e triste

Atravesso em silêncio ― erma soidão [solidão]!…

Nem uma flor qu’ameigue estes lugares,

Nem uma voz qu’amenize o coração!

*

É tudo triste… e a tristeza acaso

Convém à minha alma? oh dor! oh dor!

Eu amo acalentar-te no imo peito,

Como a fragrância que se esvai da flor.

*

Secas as folhas pelo chão caídas,

Calcadas aos pés, o seu ranger me apraz;

Um ai sentido como que murmuram,

Que lembra as queixas qu’o proscrito faz.

*

E atenta escuto esse gemer queixoso,

Que com minh’alma triste se harmoniza.

Não sei se ameiga as dores, mas ao menos

Meus profundos pesares ― ameniza.

*

Nem uma flor, uma somente brilha

No meu deserto… que avidez mortal!

E o vento rijo que revolve a areia,

Tudo consome, no mover fatal.

*

No céu, a lua branquejando os mares,

Passeia triste, merencória e bela:

Eu amo a lua, que revela muda

As fundas dores de gentil donzela.

*

Comigo a sós no meu deserto vivo,

Curtindo dores, que a ninguém comove;

E só a brisa que murmura queixas,

Com meus suspiros a ondular se move.

*

Mas lá no extremo já diviso a campa,

Melhor agora o meu deserto sigo!

Um dia basta ― transporei o espaço,

Onde antevejo o derradeiro abrigo.

Guimarães…

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“Parnaso Maranhense ─ Coleção de Poesias”, Seleção de Gentil Homem de Almeida Braga, Antônio Marques Rodrigues, Raymundo de Brito Gomes de Sousa, Luiz Antônio Vieira da Silva, Joaquim Serra e Joaquim da Costa Barradas, Tipografia do Progresso, São Luís, Maranhão, 1861.

Visualização da obra

https://catalog.hathitrust.org/Record/100783346

Download da obra

https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3842

http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=midias&id=220537

Publicado também no periódico “A Verdadeira Marmota” em 13/5/1861 (informação de José Nascimento Morais Filho).

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POR VER-TE

Por ver-te inda uma vez

Meu coração

Anseia desejoso!

Por ver-te a mim rendido d’afeição,

Por ver-te venturoso!

*

Por ver-te ― após que gozo ― o ar que gira

Em todo o firmamento,

Eu quisera me fossem denegados,

Só por ver-te um momento.

*

Por ver-te inda eu quisera aniquilado

O céu, o mar, a terra, o ar, o vento;

Quisera, pendurados nos abismos,

Ver os astros perderem o movimento.

*

Quisera qu’em meu leito, a horas mortas,

Tétrico espectro, minaz [ameaçador], sinistramente

Me viesse despertar! ― Depois a morte

Meus dias terminasse duramente.

Por ver-te, tudo isso me causara.

Não pesar ― alegria.

Por ver-te una só vez durante a vida,

Por ver-te inda só dia.

*

Por ver-te inda uma vez

Meu coração

Anseia desejoso!

Por ver-te a mim rendido d’afeição,

Por ver-te venturoso.

*

Por ver-te

Tudo ― tudo eu daria:

A vida, a alma, oh céus!

Te of’receria.

Guimarães…

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“Parnaso Maranhense ─ Coleção de Poesias”, Seleção de Gentil Homem de Almeida Braga, Antônio Marques Rodrigues, Raymundo de Brito Gomes de Sousa, Luiz Antônio Vieira da Silva, Joaquim Serra e Joaquim da Costa Barradas, Tipografia do Progresso, São Luís, Maranhão, 1861.

Visualização da obra

https://catalog.hathitrust.org/Record/100783346

Download da obra

https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3842

http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=midias&id=220537

Publicado também no periódico “A Verdadeira Marmota” em 20/5/1861 (informação de José Nascimento Morais Filho).

Registro do livro “Parnaso Maranhense” no “Dicionário Bibliográfico Português – Estudos de Inocêncio Francisco da Silva aplicáveis a Portugal e ao Brasil”, Tomo sexto página 359, Imprensa Nacional, Lisboa, 1862.

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https://archive.org/stream/bub_gb_pDcHYkbMFMIC#page/n347/mode/2up/search/maria+firmina

O jornal “A Imprensa” publicou uma extensa avaliação do “Parnaso Maranhense”, de 28 de setembro a 6 de novembro de 1861, na seção “Folhetim” de sua primeira página. Em 19 de outubro saiu a avaliação sobre os poemas de Maria Firmina, assinada com o pseudônimo Saphir (transcrição literal):

“Os versos de M. Firmina dos Reis indicam uma imaginação cheia de vivacidade da parte da autora; muita leitura e gosto, e o doce perfume dos sentimentos saídos do coração sem ensaio nem afetação.

“De há muito que todos conhecem os talentos e a habilidade da autora de Úrsula, assim não causou estranheza as poesias que mandou para o Parnaso.

“Todos esses trabalhos d’estas duas senhoras, têm defeitos, e mesmo incorreções, porém não desejo notá-los, porque atenta a instrução parca e acanhada que devem ter recebido essas senhoras, demasiado já é aquilo que elas apresentaram; outros mais habilitados que eu, lhe darão os conselhos de que carecem para caminharem na senda que têm ante si.”.

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“A Imprensa”, 19/10/1861, ano V, número 83, página 1, em “Folhetim – O Parnaso Maranhense (Impressão de Leitura), VII”, terceira e quarta colunas.

http://memoria.bn.br/DocReader/035156/1791

Em 1888, o Tomo Segundo (1830-1877) do livro “História da Literatura Brasileira”, de autoria de Sílvio Romero, registrou o nome de Maria Firmina entre os colaboradores do “Parnaso Maranhense”, na página 1142.

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“História da Literatura Brasileira”, Tomo Segundo (1830-1877), Sílvio Romero, B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888.

Download da obra

https://archive.org/details/historiadalitte00romegoog

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A UNS OLHOS

Vi uns olhos… que olhos tão belos!

Esses olhos têm certo volver,

Que me obrigam a profundo cismar,

Que despertam-me um vago querer.

*

Esses olhos calam na alma,

Viva chama de ardente paixão,

Esses olhos me geram alegria,

Me desterram pungente aflição.

*

Esses olhos devera eu ter visto

Há mais tempo ― talvez ao nascer,

Esses olhos me falam de amores.

Nesses olhos eu quero viver.

*

Nesses olhos eu bebo a existência

Nesses olhos de doce langor,

Nesses olhos, que fazem sem custo

Meigas juras eternas de amor.

*

Esses olhos que dizem numa hora,

Num momento, num doce volver,

Tudo aquilo que os lábios nos dizem

E que os lábios não sabem dizer.

*

Esses olhos têm mago condão,

Esses olhos me excitam o viver!…

Só por eles eu amo a existência,

Só por eles, eu quero morrer!

*

Guimarães, 27 de maio de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 27/5/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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NÃO ME AMES MAIS

Oh! Se me amasses

Como eu te amo.

Meus suspiros de dor ― minha aflição,

Meus transportes de amor,

Tudo movera

A um terno delirar teu coração.

*

Oh! Se me amasses,

Tristes lamentos,

Meu pungente sofrer ― fundo amargor,

Solto meu pranto a correr,

Tu virás sem pesar,

Sem doer-te no peito, amarga dor?!…

*

Não o creio por certo,

Porque juras,

Que há de eterno viver teu meigo amor?…

Irrisória é essa jura!…

No teu peito

Não há ternura mais ― não há calor.

*

Pois bem, não quero

Esse mentir grosseiro,

Que semelha nefanda covardia.

Acaso tu supões,

Que amor por compaixão,

Apraz a minha alma, inda um só dia?…

*

Quero ouvir de teus lábios:

― Cansei já de te amar, ―

― Já não nutro por ti, ternura ― amor.

Mas, não digas jamais:

― Oh! eu te amo!

Inda sinto por ti, sedento ardor.

*

Não quero mais ouvir-te,

Não te quero mais ver!…

Prefiro no exílio abandonada

Acabar a existência,

Que sonhar,

Que só por compaixão serei amada.

*

Guimarães, 26 de agosto de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 26/8/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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SAUDADES

À minha íntima amiga T. J. C. S.

Meus ais arrancados do imo do peito,

Gerados na amarga, cruel soledade,

Recebe-os, querida, no teu coração,

Escuta-lhes a voz, só dizem: ― saudades!

*

Aqueles mimosos, dourados instantes,

Em que me jurastes eterna amizade,

Revoca a meu peito, curvado de dores,

Ingratos transportes de infinda saudade.

*

Jamais de ti tão doces instantes

Me escapam da alma, singela deidade!

Mas, ah! minha cara, do bem gozamos,

Só hoje me resta perene saudade!

*

Se a força igualasse, meu anjo querido,

Aos castos desejos, que gera a amizade,

Lá junto a teus lábios, lá sobre teu peito,

Quebrara ― quebrara tão funda saudade.

*

Sem ti, minha cara, do mundo a grandeza

Desvelos, ― ternura ― primor, ou bondade,

Não prendem minha alma, não rouba-me afetos,

Que tudo aborreço, só amo a saudade.

*

Teresa! eu te vejo no rubro horizonte,

No dia ― na planta ― na erva e na tarde.

Te escuto na brisa ― no cicio do vento,

Na voz da minha alma ― na voz da saudade

Te vejo na relva ―  no campo ― e na flor:

Mas, oh! fantasia… ― cruel realidade!!…

É só na minha alma, que estás a meu lado,

Nutrindo meu peito de viva saudade.

*

Adeus, meigo enlevo desta alma que é tua…

Reitera-me os votos de eterna amizade,

Aceita os transportes de minha afeição.

Aceita os delírios de minha saudade.

*

Guimarães, 3 de setembro de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 3/9/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

___________________

A CONSTÂNCIA

(Tradução)

Dize-me, linda donzela,

Gentil filha dos amores,

Se me amas, virgem bela,

Se me cedes teus favores?…

*

Não, meu nobre senhor.

Sou formosa, bem o sei:

Sou pastora ― meus afetos,

A outro já tributei.

*

Deixa a mísera cabana,

Vem ao meu paço dourado.

Nela serás soberana,

Nele terás régio estado.

*

Não, meu nobre senhor.

Sou formosa, bem o sei:

Sou pastora ― meus afetos,

A outro já tributei.

*

Eu te farei baronesa,

E nobre dama de honor.

Terás honras, e riqueza,

Em prêmio do teu amor.

*

Não, meu nobre senhor.

Sou formosa, bem o sei:

Sou pastora ― meus afetos,

A outro já tributei.

*

Dar-te-ei rico colar,

Bela c’roa de duquesa.

Se mais podes desejar,

Metade da realeza.

*

Não, meu nobre senhor.

Sou formosa, bem o sei:

Sou pobre, mas meu amor,

Por prêmio algum vos darei.

*

Guimarães, 9 de setembro de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 9/9/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

Observação: não há informação sobre o texto original estrangeiro que serviu de base à tradução.

___________________

DEDICAÇÃO

TRIBUTO DE AMIZADE

Je t’aime! je t’aime!

Oh ma vie.

Byron.

Amo a donzela mimosa,

Com suas graças infantis,

Com seus lábios cor de rosa,

Com seus meneios gentis

Como a garça vaporosa,

Como uns gestos senhoris.

*

Amo vê-la reclinada

Sobre a margem dum ribeiro,

Docemente acalentada

Por um sonhar lisonjeiro,

Com a mente toda enlevada

Em seu cismar feiticeiro.

*

Amo vê-la na alvorada,

Vagando por entre flores.

Ela flor mais bem-fadada,

Mais recamada de odores,

Colhendo a flor delicada,

Que meiga fala de amores.

*

Mas, melhor que todas elas,

Amo o ver-te, em teus fulgores.

Amo-te mais que as mais belas

Amo-te mais do que as flores,

Que tanto atraem as donzelas,

Que tanto falam de amores.

*

Eu amo ouvir-te um suspiro,

Um só, fugindo medroso.

Como em longínquo retiro,

Amo um som terno ― queixoso,

O qual com ânsia eu aspiro,

Repetir-se, melindroso.

*

Eu amo ver-te ligeira

Como a corça fugitiva.

Casta, mimosa e fagueira,

Ora meiga ― outrora esquiva:

Cada vez mais feiticeira.

Cada vez mais casta, e diva.

*

Amo ver-te ― fresca rosa,

Com sua doce formosura,

Com sua fragrância odorosa,

Com seu encanto e doçura.

Entre as outras mais mimosa,

Cobrando amor ― e ternura

*

Eu amo ver-te entre as belas,

Vagando como senhora,

Como o mimo das donzelas,

Como fada sedutora:

Amo-te mias do que a elas,

Casto perfume de aurora.

*

Amo em ti quanto há na vida,

Que inspira melancolia,

Quanto pode ser querida

Duma harpa a doce harmonia,

Duma virgem a voz sentida,

Dos anjos, a melodia.

*

Guimarães, 20 de setembro de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 20/9/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

________________________

 

AO AMANHECER E O PÔR DO SOL

Tomei a lira mimosa,

De festões, a engrinaldei,

E pus-lhe cordas de ouro,

E teus encantos, cantei.

*

A sombra d’uma mangueira,

Ao nascer do grato dia,

A hora em que a natureza,

Toda respira alegria.

*

A hora do arvorecer.

Quem não sente uma afeição?

Quem não sente uma esperança,

Nascer-lhe no coração?

*

Foi ness’hora, sob a copa

Da bela, e grata mangueira,

Que enflorei a grata lira,

A lira doce e fagueira.

*

Era a canção, que eu tecia,

Fruto de eterna saudade;

O só prazer, que me resta,

Nesta triste soledade.

*

Quando um dia, um só na vida,

Vi teu peito arfar de amor,

Tão feliz fui que julguei,

Achar na vida primor.

*

Quando vi teu meigo riso,

Pelos lábios declinar,

N’um transporte indefinível,

Eu me julgava a sonhar.

*

Quando depois eu te ouvia:

― “É meu prazer adorar-te,

― “De carícias, de desvelos,

― “Hei de meu anjo, cercar-te.

*

Trepidava então meu peito,

Meu corarão se expandia;

Era meigo esse momento,

Tão cheio de poesia.

*

E foi-se o dia passando,

Veio a tarde, e a tristeza:

Murcharam as flores da lira,

Secaram de tibieza.

*

E com a tarde esvaeceu-se,

Minha risonha esperança;

Despontou-se amargo pranto,

Após penosa lembrança.

*

Lancei a lira por terra,

Já não tinha uma só flor!

No fundo peito eu sentia,

Estranha secreta dor.

*

E veio a noite, eu caí

Em meu penoso cismar.

Pra que veio uma esperança,

Meu coração embalar?

*

Pra que a lira mimosa

Tão desvelada enflorei?!…

Pra que um nome querido

Ébria de amor, eu cantei?!!

*

Ah! esse nome querido

Murchou-se qual débil flor!

Esse nome é minha vida,

Meu grato, meu terno amor.

*

Agora, nunca mais hei de

Repeti-lo em meu cantar,

Quero tê-lo na minh’alma,

Quero-o no peito asilar.

Guimarães                                                                                               M. F. dos Reis.

Aviso sobre o poema em “O Jardim das Maranhenses”

“Recomendamos aos nossos leitores a poesia que abaixo vem estampada da Exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis, distinta literária maranhense.

“De coração agradecemos à S. Exc. pela honra que dá ao nosso jornal, colaborando-o.”

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http://memoria.bn.br/DocReader/761265/13

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“O Jardim das Maranhenses”, 20/9/1861, ano I, número 23, página 2, primeira e segunda colunas.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/14

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

______________________

A VIDA

Inocentinha donzela,

Eu a vi ― flor de beleza!

Risonho esmalte do prado,

Desvelo da natureza.

*

Era toda virgenzinha,

Toda mistérios de amor!

Tinha a fragrância da rosa,

Tinha do lírio o candor.

*

Era como a branca espuma,

Erguida por sobre o mar,

Como estrela da alvorada,

Antes do sol despontar.

*

Como suspiros de amor,

Que do peito, se esvaecem.

Que nuns lábios de rubi,

Docemente se esmorecem.

*

Tinha ledices, encantos,

Tinha mimoso folgar,

Como a leda borboleta,

Como abelha, a sussurrar.

*

Mas depois, passou-se um dia,

Eu a vi mórbida e triste,

Depois um dia, e mais outro,

A bela já não existe!…

*

Coitada! que sorte imiga [inimiga],

Roubou-lhe tanto fulgor?

Foi um delírio… Loucura!

Foi um bafejo de amor.

*

Eis como a vida se passa,

Após o riso, a tristura,

Após a vida, o dormir

No seio da sepultura.

Guimarães                                                           M. F. dos Reis.

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“O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861, ano I, número 24, página 3, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/19

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/
_____________________________

 

NÃO ME ACREDITAS!

(A Pedido)

Não me acreditas!… acaso

Há quem mais te possa amar?…

Quem te renda mais extremos,

Quem saiba mais te adorar!?…

*

Acaso amor mais constante,

Acaso paixão mais fida [fiel],

Mais melindrosos afetos

Prendeu-te, de amor ― a vida?…

*

Acaso viste a teu lado

Gozar alguém mais ventura?…

Acaso ternas caricias,

Cobraste de mais ternura?…

*

Não compreendes quanto dói

Essa dúvida cruel!…

É gota, a gota espremida

No peito, ― de dor, e fel.

*

Não me acreditas… [no] entanto

Ninguém mais fiel te amou,

Ninguém te rende mais cultos,

Ninguém melhor te adorou.

*

Sinto em amar-te prazer;

Porqu’o duvidas? ― cruel!…

Há quem mais vele teus dias,

Quem mais te seja fiel?…

*

Não me acreditas? procura

Mais fido, mais terno amor,

Mais duplicados extremos,

Desvelos de mais primor.

*

Mas embalde [inutilmente]… Oh! eu te juro,

Só eu te sei adorar!

Mais doce amor, e mais terno;

Jamais na vida hás de achar.

Guimarães                                                                           M. F. dos Reis.

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“O Jardim das Maranhenses”, 13/10/1861, ano I, número 25, página 4, primeira e segunda colunas.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/24

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

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1862

 

AMOR PERFEITO

Eu amo a flor,

Sua beleza,

É toda mimo

Da natureza.

*

Eu amo a rosa,

Pura, fragrante.

Como o sorriso

Dum terno infante.

*

Amo o jasmim

Que vivamente

Exprime ao peito

Paixão ardente.

*

Amo a saudade:

Pungente, ou grata,

Passados gozos

Bem nos retrata.

*

A todas estas

Tributo amor,

Rendo-lhes cultos,

Dou-lhes louvor

.*

Mas entre elas

Uma prefiro,

Seu grato aroma.

Com enlevo aspiro.

*

.Oh! essa trago

Dentro do peito,

Essa que exprime

Amor perfeito!

*

Os meus desvelos,

Minha ternura,

Tudo merece

Sua formosura.

*

Só ela cobra

Minha afeição.

Dou-lhe minha alma,

Meu coração.

*

Eu amo a bela,

Mimosa flor,

Como a um suspiro,

De casto amor.

*

Como uma nuvem

Que se evapora,

Mercê do vento,

Surgindo a aurora.

*

Como na praia,

Um soluçado

Gemer da onda

Bem magoado.

*

Como um sorriso,

Que traz bonança,

Como uma leda

Doce esperança.

*

Como os transportes

Dum coração,

Quando lhe afeta

Prima afeição.

*

Como o que amo

Mais sobre a terra,

Como os mistérios

Que amor encerra.

*

Oh! essa mais

Que as outras flores,

Merece cultos

Tem meus amores.

*

Por isso é dela

Minha afeição,

Só ela goza

Meu coração.

*

Símbolo vivo

De amor perfeito!

Te asilo, e prendo

No fundo peito.

Guimarães, 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 6/4/1862 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

_____________________________

ROMANCE CONTEMPORÂNEO – ELVIRA

 (Continuação do nº 65)

Uma noite, como noutras

Flutuava o branco véu

E a branca, e meiga lua

Cismava pura no Céu.

*

E cantavam na senzala,

Os negros, canção chorosa

E dizia a voz sentida:

“― Oh! doce amante extremosa.

*

Onde vais? Não vês a lua

Como é triste a se carpir?

Assim triste é tua sorte,

Muito te resta a sentir.”

*

Mas, a moça não ouvia

Aquela nênia chorosa,

Ei-la ao encontro do mancebo

Anelante e pressurosa.

*

“― És tu, Elvira, meu anjo,

Cara amante idolatrada!…

És o bálsamo que sara

Minh’alma dilacerada.”

*

E depois contra seu peito

[A]Conchegou-lhe o coração;

Todo o sangue lhe agitava,

Triste e funda comoção.

*

E depois nos lábios dela,

Colou-lhe os lábios ardentes;

Mas, ofegava-lhe o peito,

Com pulsações veementes

*

Alguma coisa à donzela,

Ele ocultava cuidoso [cuidadoso].

Que lhe iria lá por dentro,

Nesse instante doloroso?

*

“Elvira! Como eu te amo!

Disse: ― “vencendo alma dor [?]

Poderás tu compreender.

Quanto é terno o meu amor?

*

“Disse sempre, oh! sim mil vezes,

Que me adoras, terno amante,

Como é doce, quanto eu amo,

Passar contigo um instante!

*

“Como me apraz escutar-te,

Quando me falas de amor,

Semelha a grata fragrância

Que se esvai de nívea flor.

*

“Sim, Elvira, eu te juro

Que só por ti amo a vida!

Só por ti… ah! se eu pudera!…

Minha Elvira tão querida!…”

*

E sufocou um gemido,

Que em seu peito rebentava;

Elvira, louca de amores,

Nem com pesares sonhava.

*

“― Mas, Afonso, tornou ela,

Que é que queres dizer?

De meu pai é que te lembras,

Que tanto nos faz sofrer?”

*

“Espera, sê sempre fido,

Tu serás meu cavaleiro,

Esposo da tua Elvira,

Em face do mundo inteiro”.

(26 de fevereiro de 1862)

*

(Continuado do nº 66)

“― Sim, ― tornou-lhe o aflito Afonso

Mas, Elvira… escuta… eu vou,

Sou soldado, é meu dever…

Amanhã… ah! longe estou!!!…”

*

“― Longe!… não digas por Deus

Longe de mim, meu senhor!?…

É possível? Tu me iludes,

Praz-te acaso a minha dor?”

*

“― Elvira, minha adorada,

Eu bem quisera ocultar-te…

Amanhã, pela manhã

Teremos fero combate.”

*

“― Deixa o campo de batalha,

Não sirvas a Rosas cruel,

Esse monstro que vomita

Do peito, veneno e fel.

*

“Esse maldito dos céus,

Esse demónio da terra,

Em cujo peito nefando,

Tantos horrores encerra.

*

“Se a esse monstro eu servisse,

Fora [Seria], Elvira, abominável:

A teus olhos. bela virgem,

Eu seria detestável.”

*

“― Mas, Afonso, quanto temo!

Quanto já sofro saudade!

Num combate… tu de Rosas

Não teme deslealdade?”

*

“Oh! não vás, querido Afonso!

Tenho um sinistro pensar,

Secreta voz, que me diz;

Que cá não tornas voltar!”

*

“― Não chores. anjo querido!

Teu pranto me causa dor,

Falta-me antes, Elvira,

Com teus melindres de amor.

*

“‘Secas o pranto, que goteja,

De teus olhos, doce amada,

Quero deixar-te risonha,

Como flor, na alvorada.”

*

“― Dize-me então que não vais

Da tua Elvira apartar-te.

Dize, dize que amanhã,

Hás de aqui comigo achar-te.”

*

Então de novo ofegou-lhe,

Triste, aflito o coração,

Mas, reprimindo um suspiro,

Lhe disse com efusão.

*

“― Amanhã a esta hora,

Vem querida a este lugar.”

“― Tu virás, meu caro Afonso?…”

“― Podes, meu bem, duvidar?…”

*

E muito alta ia noite,

Era breve o amanhecer:

Mas, redobrava em Afonso,

Penoso, duro sofre.

*

“― Adeus, Elvira, ele disse

Adeus, meu bem, minha amada…”

E depois presa na fauces [garganta],

Gemeu-lhe a voz sufocada.

*

“― Oh! por Deus, não vás Afonso,

Tu me causas dissabor.

Tens ares de quem padece,

Que sentes tu, caro amor?”

*

Mas foi-se o moço guerreiro,

Por larga senda a correr,

Como um louco não podendo,

A triste amante mais ver.

(2 de marco de março de 1862)

(Continuado do nº 67)

Depois quando no céu, era alta noite,

Merencória era lua a divagar,

De novo o branco véu, noturna brisa,

Faz travessa, mas triste flutuar.

*

E na triste senzala a mesma voz,

Com que prosseguia em seu cantar,

Tinha pranto na voz, que era queixosa,

Que revela angústia, e aflito azar.

*

“― Era noite. E bem cruel foi meu pesar,

Eu que sonhava amor!

Prosseguia meu diurno caminhar,

Sem pensar, e sem temor.

*

Mas, meu Deus! antes morrer, que recordar,

Cenas, que matam de dor!

Nunca mais junto a ti há de voltar,

― Vitima dum vil traidor…”

*

Esta nota última, e triste,

Fez Elvira estremecer;

Mas depois cobrando alento,

Pôs-se de novo a correr.

*

“― És tu, Afonso querido?

Oh quanto tardava o ver-te…”

“― Não, senhora ― um mensageiro.

Que muito tem a dizer-te.”

*

Um temor convulso, os membros

Da virgem então percorreu,

Á medula de seus ossos,

Frio de neve desceu.

(10 de marco de 1862)

*

(Continuado do nº 68)

(Conclusão)

“―-Afonso, Afonso, dizei-me

Por piedade, senhor,

Que é feito, meu Deus, de Afonso?

Que é feito do meu amor!

*

“― Afonso, bravo e leal,

Disse o triste mensageiro,

Foi ontem numa batalha.

Do vil Rosas prisioneiro.”

*

“― Morreu? ― tornou-lhe a donzela

Desvairada pela dor.”

“― Em seu cárcere degolado,

Foi hoje pelo traidor.

*

“Vosso nome nos seus lábios,

Foi só o que lhe escutei;

Perdoai-me a triste mensagem;

Que fiel desempenhei.”

*

“― Volto, senhora a vingar,

Esse amigo precioso;

Cumprida a minha missão,

Volto ao campo pressuroso.”

*

E depois quando Dom Sancho,

Procurou a filha amada,

Era como flor sem vida,

Nos areais reclinada.

*

Morta! Morta Elvira bela

Dos anos ao alvorecer!

E Afonso ― o triste Afonso

Que tanto soube sofrer!!

*

Ficou ao velho Dom Sancho,

Remorso, dor, e pesar.

Seus dias já foram breves,

Mas foi longo o seu penar.

17 de fevereiro de 1862.

“A Verdadeira Marmota”, 26/2, 2/3/, 10/3 e 17/3/1862 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

______________________________________

1863

 

A UM ANJO

[Observação: José Nascimento Morais Filho reproduziu essa entrada como um texto de ficção, mas se trata de um poema ― muito provavelmente, dedicado ao filho de criação Renato, falecido em junho de 1863.]

Voaste, meu anjo,

Qual nuvem de incenso,

Em gratos perfumes

Ao trono do Imenso.

*

Com risos assumes

Mais grados queixumes,

De quem te adorava,

Os campos, os prados,

De etéreas alturas!

*

Tu garça inocente,

Folgando contente,

Rival nos agrados

Nos anjos c’roados

Com as flores dos Céus,

Aos pés do Senhor,

Nas harpas mimosas,

Canções sonorosas…

Entoam ao seu Deus!…

*

Ó desce um momento,

Meu anjo de amor,

E traz-me um sorriso

Que abrande o tormento

De meu coração!

Fragrância da flor

Do meu paraíso

Se infiltre em minh’alma

Frescura na calma,

Consolo à aflição.

Guimarães, […] 1863.

____________________________________

1865

 

HOSANA

Que diz o infante,

Se o rir d’um instante,

Se muda inconstante

Num meigo chorar?

Que diz a donzela,

Que cisma tão bela,

Que sente, que anela,

No seu meditar?…

*

Que dizem os palmares,

Que dóceis aos ares,

Nos ledos folgares,

Sorriem-se a gemer?

Que diz a rolinha,

Qu’à tarde sozinha,

Saudosa definha,

Se o par vê morrer?

*

Que dizem as flores,

Emblema de amores,

De infindos primores,

De infindo gozar?

Que diz meigamente,

D’orvalho nitente [resplandecente],

A gota cadente,

Qu’a flor vem beijar?

*

Se brame raivoso

O pélago [alto-mar] iroso,

Se geme saudoso

Na praia, ― o que diz?

Que dizem os cantos,

De magos encantos,

Que ensaia, sem prantos,

Mimosa perdiz?

*

Que diz a vaidosa

Gentil mariposa,

Qu’o suco da rosa

Fragrante libou?

A loura abelhinha,

Que diz quando asinha,

Beijando a florzinha,

Seu mel lhe roubou?

*

Que diz a erma fonte?

Que diz o horizonte?

E o cume do monte,

Que se ergue altaneiro?

Que diz ternamente

A lua nitente,

Se coroa indolente

O verde mangueiro?

*

Que diz todo o mundo,

Num voto profundo,

Eterno, e jucundo [jovial],

Erguendo-se aos céus?

Diz grato — amoroso

Hosana! e soidoso [saudoso],

É tudo um formoso

Concerto ao seu DEUS.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

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“Eco da Juventude”, 15/1/1865, número 6, página 8 (página 48 do ano), primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/48

___________________

 

“T…”

Mais bela ontem, que nos outros dias,

Mais bela eu vi-te; mais mimosa ainda,

Qu’a nívea espuma coroando as vagas,

Que beijam a areia d’uma praia linda.

*

Mais bela eras, mais fluente, e pura,

Mais doce, e meiga que d’uma harpa santa,

Um hino sacro, ― melodiosa nota,

Que ao rude peito de prazer encanta.

*

Mimosa, leda como a doce brisa,

Que meigamente num jardim cicia,

Ou branda aragem perfumosa, errando

Por entre eryinhas, ao nascer do dia.

*

Místico enlevo, ao contemplar-te sinto

Mulher, ― ou anjo, ― ou divinal visão!…

Tipo ideal… eu não te creio fada,

Creio-te anjo de especial missão.

*

Co’s pés na terra a divagar sonhando

Os ledos sonhos, de viver dos céus;

Das brandas asas, derramando aromas,

Desses perfumes, que se esvaem de Deus.

*

És tu, és tu que serenando o ar

Co’um teu sorriso, minha dor suavizas;

És tu qu’a mente do poeta exaltas;

És tu da tarde merencórias brisas.

*

Acolhe pois os meus cantos;

Vem, adornada de encantos,

Sustar os meus tristes prantos,

Uma hora em cada dia.

Qu’eu te veja ao pôr do sol,

De manhã pelo arrebol,

Brando cisne — ou rouxinol,

Cantando com melodia.

*

Quando vires doce estrela

Já desmaiada — mas bela,

Cintilante — mais singela

Do que safira — ou rubi:

Vem ao menos nessa hora,

Como fada enganadora,

Como visão sedutora,

Colocar-te ao pé de mi [mim].

*

Talvez assim os meus sonhos,

Merencórios, bem tristonhos,

Se volvam belos, risonhos,

Risonhos cheios de amor.

Vem minha lira fadar,

Vem minha mente inspirar,

Meu viver dulciferar [adoçar],

Vem desterrar minha dor.

*

Ver-te, ouvir-te é meu prazer;

Tu reanimas meu ser,

Que mais te posso eu dizer.

Anjo ― mulher ― ou visão!

Tens meus afetos, donzela,

Se te vejo assim tão bela,

Ou, se te escuto singela,

Desferir terna canção.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

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“Eco da Juventude”, 29/1/1865, número 8, página 8 (página 64 do ano), primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/65

Observação: em seu livro “Maria Firmina – Fragmentos de uma Vida” (1975), José Nascimento Morais Filho incluiu a segunda parte deste poema no final do poema “Hosana”.

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O CANTO DO TUPI

Sou filho das selvas — não temo o combate,

Não temo o guerreiro, ― guerreiro nasci;

Sou bravo, ― eu invoco do bravo o valor,

Sou filho d’um bravo, valente tupi.

*

Na marcha p’ra guerra, invoco Tupã,

Tupã me responde na voz do trovão;

Entesa-se o arco, ― desprende-se a flecha,

E o fraco reclina o seu rosto no chão.

*

Sou filho das selas — nas selvas nasci,

Sou bravo guerreiro, só amo o lidar;

Se tribo inimiga correndo aí vem,

Ao campo, sanhudo [furioso], vou só, pelejar.

*

Se sonho, nos sonhos eu vejo anhangá,

Que vela a meu lado, qual vela Tupã;

Às vezes lhe escuto: guerreiro ao combate

Vai lesto, vai forte, mal rompa a manhã.

*

Eu vivo nas selvas — nas selvas imensas,

Que vastas se entendem nas terras do norte;

Se corro à peleja, bem sei qu’a vitória

Pertence ao meu braço, qu’é grande, qu’é forte.

*

E parto animoso: mal vejo o inimigo,

Começo das setas a ponta a ervar [impregnar de veneno],

Ardendo nos brios de nova coragem,

Contente o triunfo, começo a cantar.

*

Nas selvas do norte, nasci— d’um guerreiro

Qu’as tribos guerreiras fazia tremer,

Herdei-lhe esse sangue, seus brios herdei,

Valente com’ele, só sei combater.

*

Cem crânios expostos na taba, bem provam

Qu’em terra cem vezes, cem homens prostrei,

Quer deixe na seta seu último alento,

Quer caia vencido nos laços, qu’armei.

*

Eu vivo nas selvas — nas selvas do norte

Sou índio valente, valente tupi,

Temido na guerra, — do bravo temido;

Possante guerreiro, nas selvas nasci.

*

Se então prisioneiros valentes eu trago,

A tribo me aplaude… que bravo sou eu!…

De dentes imigos [inimigos] o número é tanto

Qu’atestam qu’o forte jamais me venceu.

*

Sou filho das selvas ― não temo o combate,

Não temo o guerreiro ― guerreiro nasci:

Sou bravo… eu invoco do bravo o valor:

Sou filho dum bravo, valente tupi.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

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“Eco da Juventude”, 5/2/1865, número 9, páginas 7 (segunda coluna) e 8 (segunda coluna (páginas 71 e 72 do ano).

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/72

Observação: em seu livro “Maria Firmina – Fragmentos de uma Vida” (1975), José Nascimento Morais Filho registrou a data de 3 de fevereiro de 1865.

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MELANCOLIA

Oh! se eu morresse no cair da tarde,

De tarde amena, quando a lua vem

Chovendo prata sobre o liso mar,

Trajando as vestes, qu’a pureza tem.

*

Então talvez eu merecesse afetos,

Desses qu’apenas alcancei sonhando;

Talvez um pranto bem sentido, e triste,

Meu frio rosto rociasse brando.

*

A ti poeta — mais te vale a morte

Na flor da vida ― a sepultura, os céus!

Quem sofre a terra te compreende as dores?

Teus sofrimentos, quem compreende? Deus!

*

Sim, venha a morte libertar-me, amiga

Da triste vida, qu’a ninguém comove…

Bem-vinda sejas ― teu palor me agrada,

E a crua foice, que tua destra move.

*

E tu sepulcro, ― tu gélido, e negro,

Eu te saúdo, oh! companheiro nu!

Talvez meus cantos te penetrem o seio,

Pálido afeto, me dispenses tu.

*

Não terá prantos sobre a lisa campa,

Quem peito humano a lhe gemer não tem;

Oh! não poeta: — se alvorada chora

Bebe esse pranto, qu’adoçar-te vem.

*

Inda me resta no correr da vida,

Essa esperança de morrer… a só.

Sentida ― triste, qu’o sofrer ameiga,

Que segue o homem [a]té fundir-se em pó.

*

Morra eu ao menos no cair da tarde,

A hora maga, que se pensa em Deus,

Em que se escuta misteriosos cantos,

Concertos sacros nos longínquos céus.

*

Então já queixas não farei da sorte,

Rirei da vida qu’amargar sentia;

Compensa as dores d’um viver sentido,

Morrer a hora do cair do dia.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

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“Eco da Juventude”, 14/5/1865, número 23, página 8 (página 184 do ano), segunda coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/185

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À MINHA AMIGA TEREZINHA DE JESUS

Pago-te em verso o que te devo em ouro

Beijar-te… ouvir-te a voz divina e pura

Mimosa criatura ― anjo de amor!

É gozo que extasia a minha alma

Como oásis na calma ― em longo error.

*

Mimo celeste que vieste ao mundo,

Ledo, jucundo [jovial] ― sedutor e santo!

Teu riso anima melindrosa fada

Por Deus mandada p’ra estancar meu pranto.

*

Não vieste, bela, a me inspirar poesia

Nessa harmonia de beleza, e canto?

Não sentes a alma que teu peito aninha,

Que a alma minha […] tributa […]?

*

Sabes, tu sabes que me[u] peito apuro

No afeto puro ― que te hei votado:

Que sonho extremo para ti ― ledices

Que de meiguices eu te hei cercado.

*

Mulher, encanto desta terra amena,

Visão serena ― ao despertar do dia,

Que em branca nuvem, com roupagem d’ouro

Desce; ― tesouro ― de imortal poesia.

*

Anjo que ao sopro matinal desprende

O voo: a [e] acende ― do turíb’lo o incenso

Que ondula brando derramando aroma

E ao trono assoma ― de Jeová incenso [?].

*

Ê meu empenho compreender teus cantos,

Que encerram encantos ― de celeste amor.

Sonho os mistérios devassar dos Céus

Anjo de Deus ― no teu mimoso odor.

Guimarães, 19 de novembro de 1865.

Poema integrante do “Álbum” (diário) de Maria Firmina dos Reis, transcrito por José Nascimento Morais Filho.

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1867

 

MEDITAÇÃO

“Era a hora em que o homem estava recolhido

nas mesquinhas moradas…” A. Herculano

Vejamos pois esta deserta praia,

Qu’a meiga lua a pratear começa;

Com seu silêncio se harmoniza esta alma,

Que verga ao peso d’uma sorte avessa.

*

Oh! meditemos na soidão [solidão] da terra,

Nas vastas ribas deste imenso mar,

Ao som do vento, que sussurra triste,

Por entre os leques do gentil palmar.

*

O sol nas trevas se envolveu, ― mistérios

Encerra a noite… ela compreende a dor!

Talvez o manto, que estendeu na terra,

Lhe esmague o peito, que gemeu de amor!

*

O mar na praia, como liso ondeia,

Gemendo triste ― sem furor ― com mágoas!…

Também meditas, oh! salgado pego [fundo do mar]?

Também partilhas desta vida as fráguas [amarguras]?…

*

E a branca lua a divagar no empíreo [céu],

Como uma virgem, nas soidão da terra!…

Que doce encanto tem seu meigo aspecto!

Quantos enlevos sua tristeza encerra!

*

Oh! meditemos! Quem gemeu no bosque,

Onde a florzinha a perfumar cativa?

Seria o vento? que passando erguera

De tronco anoso a ramagem altiva.

*

De novo a mente a divagar começa,

Criando afoita seu sonhado amor!

Zombando altiva de uma sorte avessa,

Qu’oprime a vida com fatal rigor!

*

E nesse instante sufocando a custo

Meu peito o doce palpitar do amor,

Delícias bebe desterrando o susto,

Qu’a noite incute, a semear pavor.

*

E um deleite, inda melhor qu’a vida,

Langor, quebranto, ou sofrimento, ou dor,

Um quê de afetos, meditando, eu sinto,

Na erma noite, a me exaltar de amor!

*

E nessa hora, gotejando o pranto,

Nas ermas ribas de saudoso mar,

Das horas vagas, esse doce encanto,

Dá vida ao ente, que criei p’ra amar.

*

E à doce imagem vaporosa, e bela,

Qu’a mente ergueu, que engrinaldou de amor,

Eis-me sorrindo melindrosa, e grata,

Como o perfume de amorosa flor!

*

E a mente a envolve de profundo afeto,

E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus!

Ergue-lhe altares, lhe coroa a fronte,

Rendo-lhe cultos, que só dera aos céus!

*

Colhe p’ra ela das roseiras belas,

Que aí cultiva ― a mais singela flor,

E num suspiro vai depor-lhe às plantas,

Como oferenda, ― seu mimoso amor!

*

Mas, ah! somente a duração da rosa,

Tem esse breve devanear da mente!

Volve-se a vida, que é só pranto, e mágoa,

E cessa o encanto do amoroso ente…

Guimarães.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

O poema foi apresentado no número 10 do “Semanário Maranhense”, com estas frases:

“Em outro lugar deste jornal estão publicados alguns versos de uma senhora maranhense, que cultiva as belas letras com assiduidade e muito bom gosto. Não são estes os primeiros versos da autora de Úrsula, e o Semanário sente especial prazer arquivando os trabalhos de tão talentosa colaboradora.”.

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http://memoria.bn.br/docreader/720097/80

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“Semanário Maranhense”, 3/11/1867, ano I, número 10, página 7, segunda e terceira colunas.

http://memoria.bn.br/DocReader/720097/79

Em 1885, um artigo do jornal “Pacotilha” listou as principais colaborações ao “Semanário Maranhense”, incluindo entre elas o poema transcrito acima.

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“Pacotilha”, 10/9/1885, ano V, número 210, página 2, terceira coluna (início na primeira coluna, em “Sessenta anos de jornalismo ou a História da imprensa maranhense durante o período de 1820 a 1880”, de Paulo de Kock).

http://memoria.bn.br/docreader/168319_01/4373

Como tantos outros periódicos da época, o “Semanário Maranhense” durou pouco.

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“Publicador Maranhense”, ano XXVII, 24/8/1868, número 192, página 2, penúltima coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720089/19822

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 1868

 

A LUA BRASILEIRA

É tão meiga, tão fagueira,

Minha lua brasileira;

É tão doce, e feiticeira,

Quando airosa, vai nos céus;

Quando sobre almos [adoráveis] palmares,

Ou sobre a face dos mares,

Fixa, nívea, seus olhares,

Qu’enfeitiçam os olhos meus;

*

Quando traça na campina

Larga fita diamantina;

Quando sobre a flor marina,

Esparge seu níveo albor;

Quando manda brandamente

Sobre a campina virente [florescente],

Seu fulgir alvinitente [de um branco brilhante],

O seu mágico esplendor;

*

Quando sobre a fina areia,

Que a onda beijar anseia

Molemente ela passeia,

Desdobrando alvo lençol;

Quando ao fim da tarde amena

Ressurge pura e serena,

Disputando nessa cena,

Primores co’o rubro sol;

*

Oh! eu sinto então meu peito,

A tanto encanto sujeito,

Tão comovido, e desfeito,

Por um sublime sentir,

Que dos ares n’amplidão,

Vagueia a imaginação,

Qual se me fora condão,

Outros mundos descobrir!

*

Podem outros seus encantos

Ver também, beber seus prantos,

Por seus vales, e recantos,

Por suas veigas [várzeas], em flor;

Podem vê-la sobre os montes,

Trepando nos horizontes,

A retratar-se nas fontes,

C’roada de níveo albor;

*

Lá n’outros mundos; ― mas, bela

Assim branca, assim singela,

Como pálida donzela,

Que geme na solidão;

Assim pura, acetinada,

Como flor na madrugada

Pelo rocio beijada,

Com mimo, com devoção;

*

Assim virgem na frescura,

Com tão maga formosura,

Percorrendo essa planura

De nossos formosos céus,

Isso não: Assim ninguém

Mimosa, leda, inocente,

Assim formosa, indolente,

Permitiu-nos vê-la Deus!.

*

Quem não ama vê-la assim,

C’a candidez do jasmim,

Espargindo amor sem fim,

Na terra de Santa Cruz!

Quem não ama entusiasmado

Da noite o astro nevado,

Que, co’o rosto prateado,

Tão meigamente seduz!?!

*

Quem não sente uma saudade,

Vendo a lua em fresca tarde,

Branca ― em plena soledade,

Vagar nos campos dos céus!

Quem não gera com fervor,

No peito em que ergue a dor,

Um hino sacro de amor,

Um hino eterno ao seu Deus!?…

*

Eu por mim amo-te, oh bela,

Que semelhas a donzela,

Com roupas de branca tela,

Com traços de fino albor.

Que vai pura aos pés do altar

Por muito saber amar,

Ao terno amado jurar,

Lealdade ― fé ― e amor.

*

Amo ver-te assim fagueira,

Minha lua brasileira,

Qual menina lisonjeira,

Que promete, e foge e ri;

E depois, inda voltando,

Vem com beijinhos pagando,

Aquele a quem se furtando,

De novo a chamara a si.

*

Assim, lua, teus encantos

Inspiram mimosos cantos:

Chora sobre mim teus prantos,

Vertidos na solidão!

Tens em mim, lua querida,

Uma amiga enternecida,

Que aninha n’alma sentida

Muita dor ― muita aflição.

*

Só teus raios prateados,

Teus inocentes agrados,

Teus suspiros magoados,

Modificam tanta dor.

Vem pois com tuas carícias

Infundir brandas delícias,

E com suaves blandícias [carinhos]

Entusiasmar-me de amor.

Guimarães ― 1868.

MARIA FIRMINA DOS REIS.

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“Semanário Maranhense”, 1/3/1868, ano I, número 27, páginas 7 (segunda e terceira colunas) e 8 (primeira coluna).

http://memoria.bn.br/docreader/720097/215

http://memoria.bn.br/docreader/720097/216

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[POEMA SEM TÍTULO]

É assim que eu te vejo em meus sonhos

de noites de atroz saudade………

A. HERCULANO.

Em vão te estende desolada amante,

Os frouxos braços!

Em vão delira, e a saudosa imagem,

Quer seguir os passos.

*

Em vão… qu’és longe! porque quer a sorte,

Qu’eu vegete a morrer

Em vão! porque um destino rigoroso,

Dá-me fundo sofrer.

*

Em vão!… Mas, no meu leito a horas mortas,

Vagueia o pensamento;

Remontam-se as ideias, a teus lares,

Não tem isolamento.

*

Entre o muito sofrer, que nos abate,

Na intima aflição,

Desprende as longas asas, e divaga,

A mente na amplidão.

*

D’esse espaço infinito, ― e vê, e goza

O qu’a terra lhe nega!

Aos ditames da sorte avessa, e dura,

Só a mente, não verga.

*

E por isso, eu encontro-te a meu lado,

Quando sonho acordada!

Quando nas horas mortas d’alta noite,

Penso em ti — enlevada.

*

Delira o pensamento — a mente erra

Em torno ao seu amor!

Cessam as dores d’ausência, seca o pranto,

Adoça-se o amargor.

*

Ao menos resta a mente ao infeliz

A quem a sorte nega

Até breve prazer!.. porqu’ela é livre,

E a sorte, não se verga.

Guimarães.

D. Maria Firmina dos Reis.

Agradecimento a seus colaboradores na página 369 do “Almanaque de Lembranças Brasileiras ― 1868”.

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http://memoria.bn.br/docreader/706680/1239

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“Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”, Cezar Augusto Marques, Terceiro ano, páginas 31 e 32 (janeiro), São Luís, Maranhão, 1867.

PDFs do “Almanaque”

http://bndigital.bn.br/acervo-digital/almanak-historico-lembrancas-brasileiras/706680

A participação de Maria Firmina nesse Almanaque foi registrada na dissertação “Impressões do Tempo ─ Os Almanaques no Ceará (1870-1908)” de Débora Dias Macambira (Universidade Federal do Ceará, 2016), na página 227.

dissertação 2

http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/2834

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A VENTURA

Embalde intento descobrir na vida,

Aquele gozo, que se diz — ventura!…

Embalde intento, que frustrar-me eu sinto

Doce esperança — minha sorte dura.

*

Talvez na campa eu encontrá-la possa,

Se for o orvalho da manhã beijá-la,

E sobre a face despontar-lhe flores

Qu’ao frio leito — vá-me então levá-la.

*

Talvez nas asas do perfume grato,

Que baixa tênue das regiões dos céus.

Aí voando na amplidão, minh’alma,

Possa gozá-la ― se gozar seu Deus.

Guimarães.

D. Maria Firmina dos Reis.

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“Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”, Cezar Augusto Marques, Terceiro ano, páginas 192 e 193 (julho), São Luís, Maranhão, 1867.

http://memoria.bn.br/docreader/706680/1066

http://memoria.bn.br/docreader/706680/1067

PDFs do “Almanaque”

http://bndigital.bn.br/acervo-digital/almanak-historico-lembrancas-brasileiras/706680

Observação: em seu livro “Maria Firmina – Fragmentos de uma Vida” (1975), José Nascimento Morais Filho dá como título desse poema “Aventura”.

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1880

 

O MENINO SEM OSSOS

[Poema precedido de explicação na matéria publicado no jornal]

Guimarães.

Sr. redator ― Há anos que nesta pródiga [?] terra não gozamos a vida como é de esperar entre um povo que se avança no progresso e civilização, porém o mês de setembro, que está a despedir-se, nos veio surpreender, dando uma ideia do que é viver-se em sociedade. O dia 7 foi modesta mas entusiasticamente festejado com uma reunião familiar, um soirée, como bem poucos temos aqui assistido, em que reinou a melhor ordem e harmonia, bem organizada orquestra e excelente serviço. A ele assistiram pessoas distintas por sua posição ou porte social.

Na noite de 8, os Acrobatas Virgílio e Vieira, aí já conhecidos, com o menino sem ossos exibiram-se.

Os trabalhos que executaram, muito agradaram ao público, que por sua vez ligou-lhes o apreço devido.

Além dessa, ainda conquistaram novos louros nas noites de 11 e 18, e a esta a última [?], e em benefício do admirável menino Virgílio, em que trabalhavam. O beneficiado foi vitoriado e coroado, no trabalho de deslocação, na torre de cadeiras sobre os copos.

Duas elegantes criancinhas representando o Gênio e o Povo, rendendo homenagem à Arte coroaram a inocente criança, sua companheira. A coroa é de prata singela, artisticamente preparada conforme as forças do lugar.

 Copiosa abundância de flores foi lançada sobre os artistas e deposta por uma menina aos pés do beneficiado numa capela de sempre-vivas.

Na coroação foi recitada uma poesia oferecida ao mesmo beneficiado pela ilustre poetisa a Exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis. Tudo correu além da expectativa, os insignes artistas chefes do circo, já mencionados, não foram menos aquinhoados, e as flores lhes caíam aos pés, e poesias também lhes foram dedicadas. Essas demonstrações tocaram aos dignos e distintos cavalheiros, além de artistas de mérito, que de momento os fez mudar de resolução, e em ato contínuo prometeram demorar-se, e mais de uma vez extasiar-nos, oferecendo seus trabalhos artísticos em benefício desta localidade, com o fim de ser aplicado o inteiro produto dele em qualquer coisa útil a respeito do culto religioso.

Este filantrópico arbítrio foi agradavelmente recebido pelo público, e a noite passada deu-se o dito benefício, e noutra ocasião seremos prolixos a respeito,

Rocambole.

Aos distintos artistas, Eduardo Vieira, Virgílio Oliveira, Virgílio ― O MENINO SEM OSSOS.

D’onde vos vem o condão

De avassalardes um povo;

Em frenética ovação,

De um modo estranho, novo.

*

Sereis espíritos dispersos,

Que no mundo vagais,

Ou seres animados

Que a púrpura arrogais!

*

Quem a vós autorizou,

Tais arrojos d’Arte,

Dando ao nosso Brasil

Regozijo em grande parte.

*

Ah! Sois brasileiros,

Sois mais… um prodígio,

Mostrai à grande Europa

Que t’bém temos prestígio!

*

A’vante mancebos… Avante!

Não temais aos rivais,

Se não sois os primeiros,

Aos primeiros igualais.

*

No trapézio, corda bamba,

No arame, deslocações;

Na barra e equilíbrios

Extasiais os corações.

*

Ergue a fronte laureada

Tu, Eduardo Vieira,

Digas ao mundo em peso

Viva a nação brasileira!

*

Vós, Vieira e Virgílio

Já sois conhecidos nossos,

Quem não fique pasmo

Louco, pelo menino sem ossos?

*

Se de nós não tiveres,

A recompensa que mereceis,

Prosseguireis triunfantes,

Em outras plagas a tereis.

*

Metam a caira, caibras,

Provoquem as tradições;

Em vida não tiveram c’roas

Bocage nem Camões!

*

Deem ao mundo maçada

Assistam dele a festa,

Siga ― o carro avante

Com dégagé da floresta [?]!

Em 25 de setembro de 1880.

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“O País” (MA), 3/10/1880, ano XVIII, número 226, página 2, quarta e quinta colunas, em “Guimarães”.

http://memoria.bn.br/DocReader/704369/4078

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1881

 

NÊNIA

A SENTIDA MORTE DE RAYMUNDO MARCOS CORDEIRO.

À inconsolável esposa. ― extremosa mãe ― irmãos saudosos e inocentes filhinhos, ― ofereço como tributo de saudade imensa.

Nunca mais vereis chorosos,

Nunca mais o vereis entre os amores!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Onde estais? onde foste? onde te escondes,

Amigo, esposo, filho, pai, irmãos?

Tu dormes solitário, e embalado

Do lúgubre cipreste, ao triste som[?]!?…

*

Cismador, que deixaste lacrimosa,

A musa inspiradora, sacra e bela;

Do antro dessa campa silenciosa,

Arcanos desse sono, nos revela.

*

Geme-o nas cordas de tua harpa — à sombra

Da triste casuarina… Aí sim, num canto

Mistura esses da campa, sons plangentes,

Com a dor, que nos arranca, infindo pranto.

*

Co’a dor, co’a mágoa eterna, co’a saudade

Da mãe querida, que te busca em vão!

Nas dúlias [próprias de cultos prestados a anjos e santos] cordas, gemedoras — lenta

Manda-lhe a tua tétrica canção.

*

Junto ao leito da esposa, a horas mortas

Cismador! vem depor teu triste canto!

Vem os filhinhos embalar no berço,

Secar-lhe em beijos da orfandade o pranto.

*

Deixaste a vida em manhã,

Cismador, deixaste-te a vida!

Deixaste a esposa querida,

Onde foste te asilar?

Peregrino de outros mundos

Cismador, quebraste a lira!

Nesse espaço o que te inspira?

Porque vás peregrinar?

*

Soluçam as vagas chorosas,

Nos areais do Cumã;

Geme a palmeira louçã,

De verde-negro vestida.

Nada vês? É um tributo

Nascido só da afeição;

Tributo de gratidão,

Que te rende enternecida.

*

Vaga triste, e em passo incerto

A branca lua de prata;

Se nas águas se retrata,

Que merencória não vem!

Em teu cismar quantas vezes!

Ao seu albor tu cantaste!

Quantos enlevos sonhaste,

Dos enlevos que ela tem!

*

Trovador! Trovador, tu te partiste!

E da partida, pesar não sentiste?…

Cantor da lua algente do Cumã,

Por que a vida deixaste inda em manhã?…

*

Descansa à sombra do cipreste, e dorme,

O sonho de que alguém despertar ousa!

Não te vá perturbar este gemido;

Nem coem prantos ao através da lousa.

*

Vele-te a campa, da saudade o manto,

Embale-te o gemer da casuarina,

E adormeça constante ao som das notas,

Melindrosas, sutis, da harpa divina.

*

Guimarães, 31 de agosto de 1881.

Maria Firmina dos Reis.

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“O País” (MA), 7/9/1881, ano XIX, número 202, página 2, quinta e sexta colunas, em “Guimarães”.

http://memoria.bn.br/DocReader/704369/5139

Em 1915, a coluna de efemérides da “Pacotilha” informava que esse poema havia sido publicado no jornal “O País” na edição de 10 de setembro de 1881 (a data correta é 7 de setembro).

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“Pacotilha”, 10/9/1915, ano XXXV, número 213, página 1, última coluna, em “A ‘Pacotilha’, retrospectiva, Os jornais“.

http://memoria.bn.br/docreader/168319_02/7512

Em 1929, o mesmo “Pacotilha” informava, em sua Retrospectiva, que o poema havia sido publicado em 9 de setembro em “O País”.

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Retrospectiva 2

“Pacotilha”, 7 de novembro de 1929, ano XLVIII, número 205, página 2, terceira coluna, quarto parágrafo.

http://memoria.bn.br/docreader/168319_02/25100

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1884

 

SAUDADE

Poema dedicado à memória da irmã Guilhermina

Descansa no sepulcro, irmã querida,

Filha do Céu, remonta à essência.

Descansa das fadigas desta vida;

Desta penosa, e ardida existência!

Poema registrado no “Álbum” da autora, sem data.

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1885

 

UMA LÁGRIMA

A sentida morte da minha amiga D. Isabel Aurora de Barros Macedo.

Oferecida a seu extremoso esposo o Sr. José Domingues Jesus Macedo

e à sua inconsolável irmã D. Mathilde Augusta de Barros Cordeiro.

A vaga nasce, empola-se, e na praia,

Beija de leve a areia acetinada,

E volve-se. Ai da vaga!… O turbilhão

Sumiu-a… jaz desfeita!… é tudo nada!

E d’aquela, que além o mar tragou,

Saudade imensa, e funda nos ficou.

*

Assim a flor mimosa, a flor nevada,

Qu’o ar embalsamou com seus olores;

Enlevo dos qu’a viam, enlevo d’alma,

Que é de seus perfumes sedutores?

As pétalas varreu-lhe o vento agreste

Atirando-as ao pé do ermo cipreste!

*

Assim a vida d’ontem como a flor,

Como a vaga sutil hoje esmorece;

A flor varreu-a o vento — a vida foge,

Nos umbrais do sepulcro desfalece!

E aquela que espargia odor, encanto,

Já não escuta de noss’alma o pranto!…

*

A vida é fosforência [fosforescência] à beira-mar.

Aquela que foi ontem nossa vida,

Hoje dorme, na campa esmorecida,

Sem alento, sem voz, calor ou luz!

Caiu hirta aos umbrais da eternidade!

Tombou na campa muda, enregelada!

D’amiga, da irmã, da esposa amada,

Que resta?… A lápide e a singela cruz!

*

Dorme teu sono derradeiro, eterno,

Filha do céu, que à pátria remontaste!

Dorme à sombra da cruz, que tua memória,

As saudades pungentes, que deixaste,

Hão de eterna existir em nossa alma,

Como um mimo de amor, que nos legaste.

Guimarães, fevereiro de 1885.

Maria Firmina dos Reis.

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“O País”, 17/3/1885, ano XXIII, 2ª série, número 213, página 2, primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/704369/7831

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PRANTOS

[Quadrinha que serviu de base para imitação poética de Emiliano Pereira]

Se um dia alegre me sorriu a sorte,

Se n’um transporte o coração bateu;

Porque tão breve, como a flor d’um dia,

Minha alegria se finou ― morreu!

Maria Firmina dos Reis.

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“Pacotilha”, 7/5/1885, ano V, número 106, página 3, quinta coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/3958

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O PORVIR

[Título de poema publicado na edição de número 4 do periódico anônimo]

O Porvir ― Foi distribuído o nº 4 deste interessante periódico literário e crítico, relativo ao dia de hoje [11/5/1885].

Entre os diversos escritos que conta este número, traz uma belíssima poesia ― O Porvir ― de que é autora a poetisa de Guimarães exma. sra. D. Maria Firmina dos Reis.

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“Diário do Maranhão”, 11/5/1885, ano XVI, número 3512, página 3, primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720011/16715?pesq=firmina

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[POEMA DE DESPEDIDA A ADELSOM]

[Criança que nasceu em 24 de maio de 1883 e faleceu no mesmo ano, em 21 de novembro. Tratada de erisipela nas pernas por meio de ópio, sofreu espasmos uma hora depois de tomar o remédio e faleceu doze horas mais tarde.]

Dum funesto, e triste engano

Foi a vítima inocente:

Foi triste rosa esfolhada

Sobre uma campa recente;

Sons plangentes de uma lira.

Que […] de dor suspira.

*

Adeus meu doce anjinho, adeus Adelsom!

Águia nevada, remontando aos Céus;

Nunca da terra uma lembrança amarga,

Ledos folgares, ledos brincos [brincadeiras] teus.

Sem data, provavelmente em 1885.

Poema integrante do “Álbum” (diário) de Maria Firmina dos Reis, transcrito por José Nascimento Morais Filho.

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1887

 

À ESTREMECIDA MADASINHA SERRA

Noutros dias, noutros tempos,

Na primavera da vida,

Eu tive lira querida,

Onde cantei meus amores,

E era empenho adorná-la,

Cada hora, cada dia,

Com palmas de poesia,

Com c’roas de magas flores.

*

Ah! nessa quadra mimosa,

Em que a existência é sorriso,

Em que o mundo é um paraíso,

Em que viver é ventura:

Em [?] e nos meus sonhos,

A doce lira afinada,

Meigos cantos soluçava,

Repassados de ternura.

*

Mas após nasceram prantos,

A mágoa, o fundo amargor,

Essas descrenças de amor,

Que o mundo nada avalia.

E a pobre lira chorosa

A cada ai soluçado,

A cada som magoado,

Mais uma corda partia.

*

Muito pranto gotejado

Sobre a triste, ― a emudeceu:

Nem mais um canto gemeu,

Nem mais um ai soluçou;

E mais, e mais se partindo,

E mais, e mais estalando,

Pálida a triste chorando,

Pobre lira!… se finou!

*

Foi então na mágoa intensa,

Nesse gemer de agonia,

Nessa dor de cada dia;

Que minha harpa encordoei.

Que cordas então lhe pus,

Sonoras, doces, cadentes…

Ao som das notas fluentes,

Novos cantos ensaiei.

*

De novo à vida volvi.

Meu coração expandiu-se,

Cantei: minha alma sorriu-se

Embriagada de odor.

De manso gemia a brisa,

Em seu girar descuidoso;

Era sonho venturoso,

Aquele sonho de amor.

*

Mas, ah! engano!… Era sonho,

Era um sonho mentiroso!

Que despertar doloroso,

Foi esse meu despertar!

Achei-me só neste mundo,

Vaga sombra, errante e triste…

Onde agora o sonho existe?

Onde existe o meu sonhar?

*

Tomei da vida desgosto.

Caí em funda apatia;

Dessa dor ninguém sabia,

Guardei-a no coração.

Mais uma rosa esfolhada,

Uma página sentida,

No triste livro da vida,

Uma pálida inscrição.

*

Mas vês? No meio do meu céu tão negro,

Surgiu divino teu mimoso rosto;

Sinto as agruras de passadas eras,

Mas, serenaste meu mortal desgosto.

*

“Revista Maranhense”, outubro de 1887, número 2 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

O poema foi mencionado em uma nota sobre a “Revista Maranhense”, publicada pelo “Diário do Maranhão” na edição de 7 de outubro do mesmo ano:

“Figuram nesta edição duas colaboradoras maranhenses, as exmas. sras. dd. Maria Firmina dos Reis (poetisa) e Eponina de O. C. Serra.”.

Mais adiante, no sumário:

“A estremecida Madasinha Serra, de Maria F. dos Reis”.

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“Diário do Maranhão”, 7/10/1887, ano XVIII, número 4225, página 2, quarta coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/720011/19526

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1889

 

A SENTIDA MORTE DA MENINA D. JULIA SÁ.

― À SUA EXTREMOSA FAMÍLIA ―

Oh! tu filha do céu, visão de amores,

Cândida e pura, sedutora virgem,

Na breve vida, no existir das flores,

Colheu-te sôfrega a mortal vertigem!

*

Que foi? que sopro rijo, ― álgida aragem,

Estampou-te na fronte albor sem fim?

Que foi, ― meiga cecém [acuçena], casta miragem,

Qu’em tal desmaio, te prostrou assim?!!…

*

Porque esse langor [languidez]?  ― e esmorecida,

Pende-te a fronte de marfim — gelada?

Tu cismas? ah! desperta, volve à vida,

Não desfaleças, sedutora fada!…

*

Despe esse palor [palidez], palor de morte,

Sacode o manto fúnebre e algente [gélido];

Descerra os lábios — n’um impulso forte,

Ergue-te — e a morte, co’um sorrir desmente.

*

Mas, oh! não volves! não atendes… segues

Oh! noiva do sepulcro! merencória!…

Vai mimosa vestal — sim tu prossegues,

Casta Suzana de que fala a História.

*

Vai, donzela vai,… segue essa senda,

Ao que vive ignota [desconhecida] e misteriosa;

Onde a mente atrevida e orgulhosa

Não penetra, não trilha, não desvenda.

*

Trajando as vestes de candura — voa,

Espírito sutil, busca teu Deus;

Um cântico suave além ressoa;

E mais um anjo penetrou nos Céus.

*

Guimarães, 3 de março de 1889.

Maria Firmina dos Reis.

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“Pacotilha”, 16/3/1889, ano IX, número 67, página 3, quarta e quinta colunas.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/9008

Publicado também no “Diário do Maranhão”, em 28/3/1889 (informação de José Nascimento Morais Filho).

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1897

 

UMA LÁGRIMA SOBRE O TÚMULO DE MANOEL RAYMUNDO FERREIRA GUTERRES

Cidadão prestimoso — cavalheiro,

Altivo, sem orgulho — irmão do pobre:

As cívicas virtudes, que te ornavam

O gelo de sepulcro agora encobre!…

*

Esposo, filho, irmão, pai extremoso,

E amigo desvelado… Onde se oculta?

Onde se esconde? no sudário álgido!

Da campal… Oh! quanta dor, minh’alma enluta.

*

Inerte dormes silencioso, alheio,

A tanto pranto da saudade filho!…

Ah! tu seguiste, sem pavor, — medonho,

Da morte fria — o tenebroso trilho!!!…

*

Tributo inevitável! sorte amara!

Morrer! Ah! quanta dor, quanta amargura,

Um vulto ingente, e nobre a todos caro,

Baixar inerte a fria sepultura!!!..

*

Ah! por que o não poupaste, oh! cruel!

Ao pai ― amigo ao cidadão ingente,

Ao exímio patriota, o irmão do povo,

Golpe tão agro, golpe tão pungente!!!…

*

As lágrimas me embargam a voz… Descansa,

Corra em silêncio meu sentido pranto;

Simbolize ele a c’roa que te of’rece,

Quem não sabe gemer na lira um canto!

Maria F. Reis.

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“Pacotilha”, 12/4/1897, ano XVII, número 85, página 2, quarta e quinta colunas.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/18927

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1900

 

SALVE!

À digna Sociedade Artística Beneficente da vila de Guimarães.

Salve! oh sociedade! Eu te saúdo!

Mãe do progresso — do trabalho filha!

Elo sublime que estreita e prende

O rico — ao pobre, que a virtude trilha!

*

Eu te saúdo! No correr dos anos

As porvindouras gerações dirão:

O progresso Ela trouxe ― dela emana

A moral — e o progresso, ― a instrução.

*

Eia prossegue… teu caminho é vasto!

Trabalha sempre em afanosa lida,

É nobre, é edificante essa tarefa,

Eleva, dá vigor, anima a vida.

*

Avante! avante… não trepides nunca:

Firam-te embora abrolhos no caminho;

É sempre assim difícil colher flores,

Sem sentir lancinante, agudo espinho.

*

E no extremo da senda hoje encetada,

Como estrela polar te acena a glória,

Uma nítida página, uma epopeia

Em letras d’ouro dará a história.

*

Salve oh sociedade! Eu te saúdo,

Mãe do progresso… do trabalho filha!

Elo sublime que encadeia, e prende,

O rico ― ao pobre que a virtude trilha!

2―7―1900.

Maria F. dos Reis.

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“Pacotilha”, 6/7/1900, ano XX, número 159, página 3, quarta coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/22932

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UM BRINDE À NOIVA

Eu vou brindar-te, sedutora virgem,

                                       Visão de amores que adejais na terra,

Sonho do vale ― do poeta lira,

Âmbula [vaso dos santos óleos] d’ouro quo a moral encerra.

*

Quero brindar-te… Engrinaldei a lira,

Que tanto há já, que não modula um canto;

Que só cismando amargurados transes,

Emudeceu do soluçado pranto.

*

Porém agora que o meu ser agita

Comoção de prazer imenso e belo,

Quero exprimir-te — fraca embora a voz,

O que sente minh’alma, o que hoje anelo.

*

Anelo-te um porvir todo enastrado [entrançado]

De rosas sem espinho, ― diva flor,

Céu de nuvens varrido — senda clara;

A vida deslizada, a par do amor.

*

 E que trenos [elegias] sagrados d’harpas santas,

Ao lar te sigam com seus dúlios cantos

E que abençoes, com o sorriso nos lábios,

Tanta ventura — esse viver de encantos.

*

Se acolhes, jovem, desta amiga os votos,

Deixa unir o meu peito, ao peito teu;

Fui tua preceptora — amei-te sempre;

Eis o que sinto, eis o brinde meu.

21―7―1900.

Maria Firmina dos Reis.

Esse poema foi inicialmente citado no periódico “Pacotilha” em 4 de agosto de 1900, na seção “Publicações”, artigo de título Guimarães, em que “Um amigo” noticiou a festa de casamento da filha do fazendeiro e major Domingos Lourenço da Silva Mondengo, Anna Esmeralda Mondengo de Sá. A festa reuniu cerca de 400 pessoas e foi realizada na local onde morava Maria Firmina, a vila de Guimarães.

“Pelo advogado Daniel Victor Coutinho foi entusiasticamente recitada uma bela poesia, produção da distinta poetisa a exma. sra. d. Maria Firmina dos Reis que por incômodos de saúde não pôde por si mesma recitá-la, oferecida à noiva.”

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Mais adiante:

“Durante a refeição trocaram-se diferentes brindes e foi recitada ainda uma belíssima poesia pelo advogado Coutinho da lavra da poetisa d. Maria Firmina intitulada ― Um brinde à noiva, ― poesia que com a de que já falamos acompanha a esta descrição para serem publicadas.”

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“Pacotilha”, 4/8/1900, ano XX, número, página 3, antepenúltima e penúltima coluna, início em “Publicações, Guimarães”.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/23032

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“Pacotilha”, 11/8/1900, ano XX, número 190, página 3, terceira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/23056

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À EXMA. SRA. D. ANNA ESMERALDA M. SÁ

Mais um dia feliz, mais uma página

No livro da existência, hoje volveste,

Um passo te levou d’um estado a outro,

E esse passo com estoicismo o deste.

*

Ontem, teu sorriso era o das brisas

Que passam brandas sobre a relva em flor,

Ontem, menina descuidosa e bela,

Hoje, esposa feliz, mimo de amor.

*

Deixastes ontem o lar paterno — o ninho

Onde nos dias infantis folgaste:

Hoje, não cismas — já não sonhas — crês.

Porque um novo cenário desvendaste.

*

Hoje segues um trilho amenizado,

Onde viceja delicada flor,

Cultiva-a sempre com ternura e encanto;

Tipo serás do conjugal amor.

*

Cultiva as flores — que a fragrância delas

Será perene qual o teu sorriso.

Por entre flores deslizando a vida,

Essa vida será um paraíso.

M. F. dos Reis.

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“Pacotilha”, 11/8/1900, ano XX, número 190, página 3, terceira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/23056

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1901

 

[POEMA DE TÍTULO E TEXTO DESCONHECIDOS]

Um poema de Maria Firmina, de título e texto desconhecidos, foi publicado na edição de número 3 do periódico “O 17 de Dezembro”, órgão oficial do Club União e Perseverança, do Pará.

Trata-se do único poema de Maria Firmina dos Reis publicado fora do Maranhão, em toda a sua vida, e também a única produção da autora que foi compartilhada além do seu estado, naquele período.

Informa o último parágrafo da nota:

“São todas as produções, a que nos referimos, firmadas, por seus autores, sobressaindo, a que lhe é dedicada pela poetisa maranhense Maria Firmina dos Reis.”.

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“Diário do Maranhão”, 11/1/1901, ano XXXII, número 8211, última coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/720011/32887

A Fundação Cultural do Estado do Pará possui o microfilme do periódico “O 17 de Dezembro”, ano de 1901, mas o conteúdo ainda não está digitalizado, nem a Fundação oferece o serviço de solicitação de cópias, em seu site.

http://www.fcp.pa.gov.br/acervodigital/catalogoalfabeticomicrofilmes/

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1903

 

AO DIGNÍSSIMO COLEGA O SR. POLICARPO LOPES TEIXEIRA, NO DIA 30 DE ABRIL, POR OCASIÃO DOS EXAMES DA AULA SOTERO – OFERECE

Vós filho do progresso, Avante! Avante!

Não desmintais o brio brasileiro.

Qualquer que seja a seda a percorrer,

Será sempre a instrução vosso luzeiro.

*

Sempre essa estrela vos será benigna,

Trilheis embora a custo agros caminhos;

Ela sempre esplendente, e vós com fé,

Sabereis evitar mortais espinhos.

*

Prossegui! Essa luz nos vem de Deus,

É sublime, é divina, é a redenção;

Vossos direitos sacros vos aponta,

Vos eleva, e enobrece, é a instrução.

*

E vós preceptor distinto, e nobre,

E digno de nossa eterna gratidão;

Aceitai neste dia memorável,

Sincera, e merecida essa ovação.

*

Sim, Guimarães saúda-vos unânime,

O digno preceptor da mocidade!

Aquele que guiando nossos filhos,

Lhes mostra Dever ― Pátria e Liberdade.

 “O Federalista”, 19/5/1903 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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1908

Esta é a última produção conhecida de Maria Firmina dos Reis, e ainda não havia sido divulgada ao público. No início, a autora faz menção a seu estado de saúde: “Tíbia a voz, fraco o cérebro pelos anos…”.

Algumas estrofes aproveitam versos (idênticos ou com alterações sutis) do poema “À Exma. Sra. D. Anna Esmeralda M. Sá”, de 18 de agosto de 1900, mostrado neste post.

A expressão “filha querida” sugere que a noiva, Dolores, poderia ser filha de criação de Maria Firmina.

POESIA RECITADA POR OCASIÃO DAS BODAS DO SR. EDUARDO UBALDINO MARQUES

Cumprimentos à minha querida Dolores.

Dolores.

Tíbia a voz, fraco o cérebro pelos anos,

Filha querida, que te posso dar?

Somente o trilho que encetar começas

Quero de flores níveas enastrar.

*

Mais uma página, na risonha vida,

No livro da existência hoje volveste,

Um passo te levou de um estado a outro,

Esse passo com estoicismo deste.

*

Ontem o teu sorrir era o das brisas

Que beijam, meigas, branda relva em flor;

Hoje, esposa carinhosa e santa,

Tipo serás do conjugal amor.

*

Deixastes ontem o lar paterno, o ninho

Onde nos dias infantis folgaste;

Hoje, não cismas, já não sonhas, crês.

Porque novo cenário desvendaste.

*

Agora vais seguir um outro trilho;

Nele há também flores, há ventura,

Mas essas flores pedem o teu cultivo,

Carícias, teu amor, tua ternura.

*

Faço votos por ti para ver sempre

Dos lábios te escapar ledo sorriso:

Caminha afoita nessa nova senda

E a vida te será um paraíso.

9― 2―908

Maria Firmina dos Reis.

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“Pacotilha”, 20/2/1908, ano XXVIII, número 43, página 2, quinta coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/168319_01/32060

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Outros textos literários de Maria Firmina dos Reis

Além de “Úrsula”, romance lançado em livro (1860), Maria Firmina dos Reis publicou outras duas histórias em prosa: a novela curta “Gupeva” (1861) e o conto “A Escrava” (1887).

Dois outros textos pessoais breves foram publicados em periódicos maranhenses: o primeiro, intitulado “Meditação”, em “O Jardim das Maranhenses” (25/11/1861), e o segundo, de título “Um Artigo das Minhas Impressões de Viagem ─ Página Íntima”, em três ou mais partes no periódico “O Domingo” (?/8, 1 e 7/9/1872).

“Gupeva” e “A Escrava” serão temas dos próximos posts deste blog.

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MEDITAÇÃO

O mar estava tranquilo, e espreguiçava-se por sobre os areais de prata da praia solitária, como uma criança adormecida no seu leito. Eu o via assim calmo, e comparava-o com o que me ia pelo íntimo da alma, e pedia a Deus que amodorrasse [acalmasse] minhas dores no meu peito, como tinha amodorrado o mar na sua morada.

Mas, minhas dores prosseguiam fundas, surdas, e sem uma esperança de lenitivo. E a lua subia o cume dos céus, e prateava a superfície das águas; mas, era triste e meditabunda, pálida, e desconsolada como minha alma. Ela é como a donzela, e como o poeta, que a desesperança secou a seiva da existência…

Desesperança!!! Acaso não serás tu um crime para aquele a quem o mártir do Calvário resgatou com seu sangue?… Por que pois, homem, que confessas a existência do filho de Deus, asilas em teu coração a desesperança?…

Meu Deus! o homem tão débil, é tão pó, que à força de muito sofrer, de muitas esperanças iludidas, cai malgrado seu [contra a própria vontade] nesse mórbido torpor, nessa apatia dolorosa, a que chamamos: ―

Desesperança!…

E o mar lambia mansamente as prateadas areias da praia, e a lua prosseguia em sua noturna divagação, e eu dizia:

Meu Deus, que é pois hoje a minha vida? Árida, e pedregosa estrada ― deserto ardente, onde não se descobre a fronte risonha d’um amigo; ou a mão esquálida, e fria do anjo do extermínio que aperte esta mão requeimada pelo ardor do sol no zênite.

Eis a minha vida: completa solidão, onde um pássaro, não desprende melodiosos sons, onde uma flor não brilha derramando aromas, onde uma fonte não murmura queixas: é uma sepultura, enfim, onde não despontam flores.

Meu Deus, a desesperança estava em minh’alma, e se a vossa misericórdia  não fosse ilimitada, eu não poderia obter o perdão;  porque todo homem deve esperar em vós, e eu me tinha esquecido desse salutar dever.

A lua então era perpendicular sobre minha cabeça; o mar gemeu como se lhe houvessem pesado o dorso, e uma onda de vento agitou os areais da praia. Uma viração benéfica murmurou nos leques dos palmares, e esse rugir poético da solidão trouxe à minha alma esquecida então até de si própria, uma melancólica mas doce recordação.

Oh! eu amei o gemido do mar, a onda de vento passageira, e o ruído dos palmares, que despertaram-me essa ditosa recordação.

O presente pesa-me como um fardo enorme ― o futuro envolve-se-me em denso véu de escuridão; por que desdenharei o passado?… Há nele uma recordação, uma só; mas essa é a minha vida: nela concentra-se, resume-se tudo quanto de melhor tenho gozado; tudo quanto me resta ainda a gozar na terra.

Oh! Deus de suprema, e infinda bondade, quando devíeis fulminar-me com os vossos raios, mandaste ao mar que gemesse, o vento que ondulasse em torno de mim, e as palmeiras que rumorejassem.

Ao ruído poético dos palmares despertou-se uma dulcíssima recordação, e à proporção que meu coração deleitava-se em afagá-la, a minh’alma, reconhecida a seu Deus, começava a conceber uma nova esperança.

Com que um hino de amor, e de reconhecimento, entoaram o mar, o vento, e os palmares; e eu dobrei os joelhos, juntei à voz da natureza, a voz da minha alma. Eu já tinha uma esperança; e por isso bendizia a Deus do fundo do meu coração.

Guimarães = 1861.

M. F. DOS REIS.

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“O Jardim das Maranhenses”, 25/11/1861, ano I,  número 27, páginas 1 e 2.

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/25

http://memoria.bn.br/DocReader/761265/26

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

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UM ARTIGO DAS MINHAS IMPRESSÕES DE VIAGEM – PÁGINA ÍNTIMA

O material disponível de “O Domingo” apresenta uma lacuna que inclui as edições 25, 26, 27, 28 e 29 do periódico. Esse artigo de Maria Firmina continua no número 30 com a mensagem ao leitor (Vid. o n. 29.). Como essa era a comunicação habitual no caso de publicações seriadas, não há condições de saber se o texto teve início no número 29 ou se já vinha de números anteriores.

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De longe, pela proa do navio, o penedo que se ergue entre dois mares, distendendo seus negros braços de pedra, acenava com meneios de quem quer atrair; e o vapor fugia, deixando após si um sulco branco, e espumoso.

Então eu lancei-lhe os olhos áridos de uma lágrima, e pareceu-me ver a flor das águas aniladas, que lhe beijavam as plantas, chusma risonha de ninfas salitrosas, erguendo, e mergulhando as frontes cândidas, e formosas, e entregando às lufadas do vento, as roupas de alvura deslumbrante, sombreadas pelas tranças sedosas de seus dourados cabelos!

Itacolomi! As crenças populares, melhor que o nauta, que desvia cauteloso a proa de seu navio de sobre teus perigosos escolhos, as crenças populares eternizaram teu selo ondoso, e palpitante.

O encanto de que te revestiram, as raças primitivas, as raças indígenas, que hoje se vão bem longe de nós, se prende a todas as lendas nacionais, predomina ainda hoje poética, e misteriosa como a superstição de todos os povos, e há de passar com o mesmo prestígio às gerações porvindouras.

Ah! quantas recordações se prendem a ti!

Itacolomi!… Recordações desses tempos que três séculos e meio, ainda não puderam esquecer; ― recordações dessas raças belicosas, de caráter altivo, de sentimentos nobres, e elevados…

Na destra o arco retesado pela flecha, ― na cinta a aljava; ― o ardor no coração, ― nos lábios o canto rude do guerreiro, ei-los… sem o temor da morte, em campo raso, vertendo sangue por cada poro, e investindo sempre com redobrado valor; ― porque esse sangue derrama-o pela sua liberdade!

Livre como o pássaro, ou como o ar ― esse sangue vai consolidar a sua independência, e o seu direito.

E depois na paz náuticos destemidos, e ousados, ao doce suspirar da brisa, ou ao ronco da procela, lá o veríeis na ligeira piroga cortando mares agitados.

Então não era já o canto do guerreiro que o índio modulava, ― era uma canção sonora, como gemido de viração matutina. De seus lábios fugiam, e iam perder-se na vastidão dos mares notas agudas; ― às vezes acentos de dulcíssimas harmonias.

Meu coração desperto pelas saudades de um ― “adeus” ―, buscava estas recordações, ― e depois recaía em penoso cismar.

De repente eu exalei um gemido: ― minha alma voou aos olhos.

Essas praias… eu as via, e contemplava com a curiosidade de quem nunca as havia visto.

E o navio corria, corria sempre. Meu Deus! meu coração confrangeu-se, ― a dor tão cruciante pareceu-lhe quebrar as fibras, Ele não soltou um ai; mas no imo gemeu um gemido doloroso que só lhe escutaram as auras, que adejavam além, nesses belíssimos lugares onde um dia a vida me sorriu, e que ora só me pedem lágrimas, e suspiros.

Terra estéril e poeirenta! embalde hei banhado teu seio com lágrimas de tantos anos…

Ah! o que então senti, não podem exprimi-lo lábios humanos.

Ponta de um ferro agudo que me penetrasse o seio; ― eco dolorido partindo das solidões da terra; a me internar na alma; ― fantasma tétrico, hirto, e medonho a me acenar para o túmulo, não produzia em mim o que então sentia.

Não, não despertaria em minh’alma tantas dores, como me despertou essa terra silenciosa, que lobriguei [divisei] primeiro que outrem na extremidade dessas vastíssimas praias arenosas, onde a alcíone [espécie de ave] geme seu gemer saudoso, como o nauta longe da terra, onde ficaram seus poéticos amores; ― onde a onda se arremessa ora marulhosa, e fremente, ora mansa beijando namorada a planeza da praia solitária.

Não, eu não sentiria tanto…

Sim, ― na extremidade delas, essa terra, a quem liguei meu coração… terra dos meus dourados sonhos de poesia, ― terra, onde eu quisera, ― mísera de mim! exalar meu último suspiro.

Mas, eu a vi apenas.

Pálida, debruçada sobre a corrente impetuosa, parecia uma flor desbotada, que o arfar das vagas arremessa sobre a encosta solitária.

Contemplei-a com a alma; melhor que com os olhos.

Ah! havia agonia íntima, nessa íntima contemplação.

Ela desdobrou-se inteira a meus olhos… era a virgem cismadora nas ribanceiras do mar, ― era a recordação viva de meus poéticos devaneios.

Parece-me que me distendia os braços em transporte de angustioso pranto, e com voz lânguida, e dolorosa me dizia: ― Vem.

Vem gemer sobre meu seio, esse gemer de rola moribunda na solidão das florestas…

Olhei-a… era ela… a mesma que outrora eu saudara com um sorriso jubiloso!

…..

(Vide o nº 30)

8 de Setembro de 1872

Minh’alma então voando ao seio arquejante que ela me devassava, segredou-lhe um instante frases mudas, mas eloquentes, que Deus quis que saiba, e as compreenda todo aquele que sofre muito.

Essa linguagem bem depressa a compreendeu ela; porque fez-se pálida, mais que dantes; e veio trêmula e agitada, colocar-se mais junto de mim.

Sua fronte altiva coroada pelo teto de antigos edifícios, curvada agora para o seio comprimido pela dor moral, que a abatia, dava-lhe a semelhança de estátua de amargura sobre um túmulo gelado.

Olhei-a, e de meu peito rebentaram lágrimas. Ela volveu um pouco a face em presença da dor, que a lacerava, e desdobrou a meus olhos um campo árido e vazio de um só monumento que nos prenda a vida.

Uma baixa muralha alvacenta, ― uma gradaria de ferro, um portão na face, ― no fundo uma cruz sobranceira, erma, e solitária como minh’alma; eis o que ela no pungir de sua dor, compreendeu que meu coração lhe suplicava.

Sim, Não se havia enganado.

Era isso que minh’alma lhe pedia na muda linguagem que lhe havia dirigido.

Foi por isso que ela curvou a fronte abatida, e volveu melancólica, o pálido semblante.

Eu exalei um suspiro único, ― mas esse suspiro quebrou, passando todas as fibras de meu coração magoado.

Esse suspiro foi a saudação pungente que minha alma atirou àquelas solidões geladas pelo sopro da morte; ― esquecidas, dormentes, abandonadas no meio de uma população, que se agita, que se meneia, que ri, e folga; e que dorme não lembrada de suas saudades um sono tranquilo; porque a memória do que ali jaz,  não vem à noite, à hora do repouso colocar-se em torno do leito.

Esse suspiro prolongado, doído como a agonia do moribundo, foi um eco de minha alma febricitante [febril], repercutido sobre as muralhas daquele âmbito de tristezas, ao qual eu sentia minha alma presa, como a lousa na sepultura.

Esse suspiro resumiu um passado risonho: mas breve; ― um passado feliz; mas… um presente de lágrimas e prolongadas amarguras…

Foi um suspiro íntimo, doloroso; ― um suspiro lento como soluço do agonizante.

Ele passou no meu peito despedaçando uma, a uma todas as cordas da harpa gemedora de minh’alma, e foi-se perder na amplidão do céu; porque a terra não o podia compreender.

Deus sim, ― Deus o compreendeu; porque compreende a grandeza de todas as dores humanas; porque as pesa na balança do sofrimento; ― porque compadecido de tão agro tormento, um dia nos diz:

― Basta!

Basta, sim; ― porque esse martírio é o grito de Raquel soluçando seu filho bem-amado… é o brado do infeliz, que mão homicida despenhou no abismo; ― é o suspiro doloroso da rola solitária!…

Basta… porque esse sofrimento é o vaso de absinto, que amargura a existência até o extremo; ― é o suor de sangue a gotejar na terra, espremido pelas agonias do Horto!…

Basta enfim; porque alma enlanguesce [definha] à força da dor que a dilacera; ─  os olhos enxutos pelas agonias da vidas; ― o coração desfeito, e morto pelo sopro glacial da desventura, inclina-se para a borda da sepultura!…

E o vapor corria, corria sempre.

Fim.

Guimarães ─ 72.

Maria Firmina dos Reis.

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Imagem do volume encadernado (Biblioteca Benedito Leite).

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Imagem do exemplar da Biblioteca Nacional.

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“O Domingo”, ano I, 1/9, número 30, páginas 121 e 122, e 7/9/1872, número 31, páginas 126 e 127.

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http://memoria.bn.br/docreader/718670/13

Download do volume

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/sgc/modulos/sgc_bpbl/acervo_digital/arq_ad/20160517170626.pdf

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Os jogos de palavras de Maria Firmina dos Reis

A relação com os jogos de palavras não é rara entre os escritores.

No tempo das charadas e dos enigmas, escritores e intelectuais praticavam eventualmente essas brincadeiras linguísticas. Entre os criadores de jogos que chegaram até nós, vale destacar Jonathan Swift (autor de “As Viagens de Gulliver”), Lewis Carroll (autor de “Alice no País das Maravilhas”) e Isaac Newton (enunciador da lei da gravitação universal).

Com a popularidade das palavras cruzadas a partir de 1924, a relação persistiu. Poucos sabem que o autor do romance “Lolita”, Vladimir Nabokov, foi o primeiro russo a compor palavras cruzadas, na época em que residia em Londres (cerca de 1925), e que o primeiro criador de palavras cruzadas no idioma hebraico foi o também escritor Arthur Koestler, autor do romance clássico “O Zero e o Infinito” e de “O Ato da Criação” (“The Act of Creation”), famoso estudo sobre a criatividade nos contextos da arte, da ciência e do humor.

Jogos desses escritores serão mostrados futuramente neste blog.

Assim, não espanta que Maria Firmina tenha praticado esse lado lúdico da criação linguística, valendo-se dos jogos que, então, eram os mais populares.

A charada é um jogo em que o decifrador deve adivinhar uma palavra a partir de versos que revelam suas sílabas, uma a uma. Maria Firmina compôs 9 charadas.

O logogrifo, do qual Maria Firmina só deixou um exemplar, é um jogo em que algumas letras de uma palavra permitem formar outras palavras, menores, as quais são sugeridas por meio de enigmas.

1861

CHARADA

Temerosa nas sombras da atra [medonha] noite;

Por que ocultas, sempre em pranto imersa?

Não negues. Foi amor, ódio ou vingança

Que a tal se reduziu?… Sorte adversa?

*

Foste ousado tecendo finas vestes

Com as vestes que a outro pertencia.

Lutando contra o fraco, lhe arrancaste

Tudo, tudo que ao triste pertencia.

*

Supões tu que Tibério, possuindo

De Belisário a filha, inda não estava?

Justiniano o julgou; mas ele o disse,

Que nada mais na vida cobiçava.

*

Na hibernal estação

Meu fogo conhecereis.

Longe do globo terrestre,

Sempre no céu, me vereis.

20 de maio de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 20/5/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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CHARADA

Não era da sua lira maviosa,

Quando a bela infiel canções tecias?

Mas, longe de tocar-lhe o duro peito,

Só no teu a paixão mais acendias. ― 1

*

Mui doce para ti ele foi sempre,

Enquanto a inconstante o não quebrou.

Perjura! a tanto chega a força humana?

Rindo sem pejo desligá-lo ousou. ― 1

*

Tu, alívio do que sofre

No peito angústia mortal.

Quanto és doce um só momento!…

Quanto mitigas meu mal!…

27 de maio de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 27/5/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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LOGOGRIFO

Quatro sílabas encerra

Este nome portentoso,

Que já deu bons calafrios

A um monarca poderoso.

*

Primeira o quarta, foi o tronco

D’umas tribos, quando Deus,

Falava aos filhos de Adão,

Como não fala hoje aos seus.

*

A segunda indica gosto,

Prazer, afeto, alegria.

Quem te vendo o faz contente,

Sente por ti simpatia.

*

Terceira, e quarta contêm

Em seu colo clara linfa,

Passeia pela morada

De formosa, e branca ninfa.

*

Vede agora se decifras

O que fica aí descrito;

Prometo, se o decifrardes

Que vereis o nome escrito.

Guimarães—

M. F. dos Reis.

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“O Jardim das Maranhenses”, 20/9/1861, ano I, número 23, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/16

Decifração: Garibaldi.

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“O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861, ano I, número 24, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/20

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

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CHARADA

Se queres saber a história,

Pega no livro. — E depois?  1

Relativo e conjunção,

Dirão todos que vós sois.  1

*

Traste mimoso e gentil,

A qu’as belas valor dão,

Quando importunos lhes falam,

Acham nele distração.

Guimarães.

M. F. dos Reis.

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“O Jardim das Maranhenses”, 30/9/1861, ano I, número 24, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/20

Decifração: Leque.

A resposta oferecida pelo jornal no número seguinte está errada. Ela se refere ao segundo jogo de palavras, intitulado “Conceito”.

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“O Jardim das Maranhenses”, ano I, número 25, 13/10/1861, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/24

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

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CHARADA

O rosto às vezes desmaia,

Outra vez empalidece,

A voz do amor ― vede-o bem,

Depois então desfalece.

*

No vasto império dos Incas,

Meu sincero amor me deu

Por prêmio de meigo afeto,

Um amor igual ao meu.

18 de novembro de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 18/11/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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CHARADA

No fundo dos sepulcros eu existo,

Tudo o que nasce, se reduz em mim,

Os páramos desertos, eu povoo;

Desde que há mundo, que eu existo assim.   1

 *

E ninguém me acompanha! árida estrada,

Cansado caminhar! Que afã — que lida!

Fui condenada pela sorte dura

A passar deste modo a triste vida.  1

*

Sou como espelho, que reflete a imagem,

Mimosa e grata de gentil donzela.

No colo encerro diamantinos paços,

E em cada um deles, uma virgem bela.

Guimarães = 1861.

M. F. DOS REIS.

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“O Jardim das Maranhenses”, 2/12/1861, ano I, número 28, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/20

Decifração: Poço.

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“O Jardim das Maranhenses”, 13/1/1861, ano I, número 29, página 4, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/docreader/761265/36

Download do volume do ano

http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/

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CHARADA

Entre minhas irmãs eu venho à frente. – 1

Nome enganoso, tu que és na terra?

Às vezes quantas dores, tu ocultas,

Mas, teu poder a dor jamais desterra. – 3

Quanto meu peito por um fato triste

Lutuoso, dorido, aflito, encerra!?!… – 1

*

Um perene sorrir nos lábios mostra

Que és mimoso da sorte. Eu não te invejo.

No meu triste, e penoso caminhar,

Só termo aos tristes dias, hoje almejo.

12 de dezembro de 1861.

“A Verdadeira Marmota”, 12/12/1861 (transcrição e informação de José Nascimento Morais Filho).

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1863

CHARADA

César, Murat, Bonaparte,

Todo o monarca, eu começo;  – 1

Manda ao pobre, Deus, qu’o faças;

Por Deus, ah! bem qu’o mereço!  – 1

Deixar-me assim para sempre,

Por certo, não apeteço.  – 2

*

És tu d’alma uma virtude,

Por muitos desconhecida;

És tu adorno do sábio,

Esmaltes de sua vida.

*

Quando em lábios de donzela,

Vens no sorriso brilhar,

Oh! quanto és grata à minh’alma!

Quanto te sei adorar.

*

És necessária na vida,

Todos te devem ameigar.

Sem ti, a mais bela ação,

Pode em vicio transmudar.

GUIMARÃES.

  1. Maria Firmina dos Reis.

Decifração: modéstia.

 Agradecimento a seus colaboradores na página 6 do “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1863”.

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http://memoria.bn.br/docreader/706680/419

“Almanaque de Lembranças Brasileiras – 1863”, Cezar Augusto Marques, Segundo ano, páginas 32 e 33 (janeiro), São Luís, Maranhão, 1862.

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http://memoria.bn.br/docreader/706680/489

http://memoria.bn.br/docreader/706680/490

PDFs do “Almanaque”

http://bndigital.bn.br/acervo-digital/almanak-historico-lembrancas-brasileiras/706680

A participação de Maria Firmina nesse Almanaque foi registrada na dissertação “Impressões do Tempo ─ Os Almanaques no Ceará (1870-1908)” de Débora Dias Macambira (Universidade Federal do Ceará, 2016), na página 112, nota 216.

dissertação

http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/2834

Observação

Em “Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida”, José Nascimento Morais Filho atribui a Domingos Vieira Filho, a seu pedido, a descoberta das contribuições de Maria Firmina publicadas no “Almanaque” de 1863.

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1868

CHARADA

Consentes, anjo mimoso,

Que te renda adoração?

Virgem! virgem, tu permites?…

Com doce e terna efusão!    2

*

Eis a virgem malfadada —

Qu’inspirar não soube amor!

Qu’à míngua de esposo teve

Esposo p’ra sua dor.   2

*

CONCEITO.

És de virgem nome grato,

Tão grato, qu’inspira amor!

Quem te não dispensa afetos,

Eflúvios de maga flor!

Guimarães.

D. Maria Firmino dos Reis.

 Agradecimento a seus colaboradores na página 369 do “Almanaque de Lembranças Brasileiras ─ 1868”.

agradecimento

http://memoria.bn.br/docreader/706680/1239

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http://memoria.bn.br/docreader/706680/930

http://memoria.bn.br/docreader/706680/931

“Almanaque de Lembranças Brasileiras – 1868”, Cezar Augusto Marques, Terceiro ano, páginas 55 e 56 (fevereiro), São Luís, Maranhão, 1867.

PDFs do “Almanaque”

http://bndigital.bn.br/acervo-digital/almanak-historico-lembrancas-brasileiras/706680

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CHARADA

Quem te não ama? És de Deus,

Na terra — imagem querida;

E — se nos faltas, que prantos,

Que mágoas enluta a vida!…     1

*

Se penso triste, abatida,

Se sinto amarga aflição,

Eis em ti fixada a vista,

De pranto turvada, então.   1

*

CONCEITO.

Quantos crimes originas,

Quando em vício degeneras!

Quanto pranto, quanta dor,

Quantas mágoas tu nos geras.

*

Cegas aos tristes mortais,

Aos pés, abismo lhes cavas,

E derramas em torrentes,

No peito, incendidas lavas.

*

Mas, assim — qual o vivente

Que te não ama uma vez?…

Que não te afague em transportes,

Que não se curve a teus pés?!…

Guimarães.

D. Maria Firmina dos Reis.

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“Almanaque de Lembranças Brasileiras – 1868”, Cezar Augusto Marques, Terceiro ano, páginas 126 e 127 (maio), São Luís, Maranhão, 1867.

http://memoria.bn.br/docreader/706680/1001

http://memoria.bn.br/DocReader/706680/1002

PDFs do “Almanaque”

http://bndigital.bn.br/acervo-digital/almanak-historico-lembrancas-brasileiras/706680

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As composições musicais atribuídas a Maria Firmina dos Reis

O poeta e pesquisador José Nascimento Morais Filho foi o principal responsável pela descoberta e divulgação dos textos da produção avulsa de Maria Firmina, além de ter encontrado também o conto “A Escrava” e a novela “Gupeva”.

Em seu livro “Maria Firmina ― Fragmentos de uma Vida” (São Luís, 1975), Nascimento atribui algumas composições musicais à autora maranhense.

Nesse aspecto, há duas diferenças marcantes entre essa suposta produção musical de Maria Firmina dos Reis e as demais (obras de ficção, poemas, jogos de palavras etc.), diferenças que remetem a questões de fonte e metodologia.

Para o restante da produção firminiana há fontes fidedignas e inquestionáveis (registro em livros e periódicos da época), e elas podem ser consultadas por qualquer pessoa. Para as músicas e letras só temos o depoimento oral de algumas pessoas que conviveram com Maria Firmina, e ainda assim coletados mais de 60 anos após os fatos. Não há registro dessas produções em livro ou periódico, partituras anteriores às conversas de Nascimento, gravações da época (obviamente) ou qualquer outro material que poderia atestar com segurança a validade das informações prestadas pelas testemunhas.

As condições desse depoimento recomendam cautela na atribuição de autoria e, mais ainda, quanto às suas particularidades: as palavras das letras, e as notas, os acordes e as melodias das canções.

O próprio Nascimento afirma em seu livro:

“Se a documentação escrita nos leva não poucas vezes a cometer erros, por mais atenção que se tenha, quanto mais a documentação oral, onde os equívocos são frequentes!…

“No entanto, até prova em contrário, com exceção da ‘poesia da garrafa’, e tenhamos as maiores reservas quanto às natalinas aqui divulgadas pelos motivos apresentados, consideramos todas as composições (letra e música) como suas”.

Dois fatores não mencionados nessa autocrítica são o risco de se confiar na memória de contemporâneos, passadas tantas décadas, e as possíveis alterações causadas nas produções originais pelas contribuições involuntárias dos populares, já que estamos falando de tradições orais.

Nascimento baseia a sua certeza de autoria justamente na tradição popular de Guimarães e na preservação da herança musical de Maria Firmina entre a população da cidade.

O livro de Nascimento apresenta partituras de autoria do “Maestro Zequita” (como era conhecido o saxofonista José Soeiro), que transcreveu as supostas criações de Maria Firmina para a linguagem musical.

Feita a ressalva, seguimos para o conteúdo.

AUTO DE BUMBA MEU BOI

Letra e música de Maria Firmina dos Reis

(fragmentos)

Nós viemos tirar licença

Que nosso amo mandou;

Ele ficou na cancela

Com o boizinho brincador.   Bis.

*

(retirada)

Senhora dona de casa,

Nos responda por favor,

Queremos levar a nova

Pra meu amo brincador!

*

(chegada)

Lá vem a aurora,

Lá vem o dia,

Lá vem Caramba

Que nós queria.  Bis.

*

Lá vem a aurora,

Rompendo o mangue,

Vejo Caramba,

Nos foge o sangue.

*

(chegada do boi: a roda)

Chegou!!!

Ou já chegou

O boi Caramba

Com seus olho matadô.

Ou chegou!!!

Nosso boi Caramba

Com seus olho matadô.

*

(despedida)

‘Strela d’Alva

Amanheceu,

Caramba pulou na roda

Passarinho estremeceu!   Bis.

*

Adeus, roseira,

Adeus rosá [rosal],

Todo mundo cheira o cravo,

Eu também quero cheirá!

*

(uma fala do Pai Francisco)

Senhora dona de casa,

Eu também sou fumador,

Pois a ponta que eu trazia

Caiu n’água e se molhou.

*

Adeus, roseira,

Adeus rosá [rosal],

Todo mundo cheira o cravo,

Eu também quero cheirá!

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho.

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VERSOS DA GARRAFA

Quem me pode escutar nesta altura

Os segredos que minha alma contém.

Quem me pode enxugar este pranto

Que nas águas se embebe também.

*

Estas ondas que vão para a terra

Levarão meu barquinho tão só;

Acharão teu cadáver nas águas,

Mergulhado num túmulo de pó.

*

Não terei no sepulcro uma lousa,

Onde possa meu nome escrever;

Onde a planta não brota uma flor

E o cipreste não pode nascer.

*

Lá na sombra do alto coqueiro,

Dormirei sobre praia ao luar;

Pescadores que velam alta noite

Acharão meu cadáver no mar.

*

Amanhã, na deserta enseada,

Onde as águas revoltadas vêm,

Entre espumas e búzios da praia,

Acharão os meus restos também.

*

Alta noite!… Todos dormem!…

Brilha a lua como um dia,

Brilha um poeta entre os búzios:

― Antônio Gonçalves Dias!

Diz o folclore de Guimarães que esses versos teriam sido encontrados dentro de uma garrafa, lançada ao mar durante o naufrágio que vitimou Gonçalves Dias em 1864, e que Maria Firmina teria composto a música com base nesses versos. Não há nenhuma fonte confiável que associe a letra da composição ao poeta maranhense.

Essa produção atribuída a Maria Firmina teve como única fonte a vimarense (nativa de Guimarães) Alice Nogueira.

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HINO À MOCIDADE

[Estribilho]

Ó mocidade, avante! Avante!

O Brasil sobre nós ergue a fé!

Esse imenso colosso e gigante

Trabalhai por erguê-lo de pé!

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho.

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HINO À LIBERDADE DOS ESCRAVOS

[Fragmentos]

Salve, Pátria do progresso!

Salve! Salve Deus a igualdade!

Salve! Salve o sol que raiou hoje,

Difundindo a liberdade!

*

Quebrou-se enfim a cadeia

Da nefanda escravidão!

Aqueles que antes oprimias

Hoje terás como irmão!

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho. Segundo o autor, o hino foi motivado pela Lei Áurea, que libertou os escravos em 13 de maio de 1888.

Este hino está reproduzido no livro “Poemas brasileiros sobre trabalhadores: uma antologia de domínio público”, organizado por Antônio Augusto Moreira de Faria e Rosalvo Gonçalves Pinto (Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2011, página 53).

http://www.letras.ufmg.br/site/e-livros/poemastrabalhadores-site.pdf

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PASTOR ESTRELA DO ORIENTE

(a chamada: canto)

Bons pastores desses campos

Não deveis mais descansar,

Já da aurora a luz dourada

Vem risonha despontar.

Vinde já, bons pastores.

Desses campos;

Vinde com toda a pressa,

Que vos quero contar

De Belém o sucesso

De admirar.    Bis

*

(Apresentação dos pastores)

A vosso chamado, Pastor,

A lua vai nos guiando

Com mais puro e santo amor

E nós contentes descemos

Com a luz tão argentina

Ou luz pura e divina.

Ao lado do teu amor

Cá estamos, caro amigo.

*

(Pastores: 1º e 2º)

Pronto ao vosso chamado,

― E venha já ter comigo.

Bons pastores, obrigado.

*

GUIA

― Chamei-os, caros amigos,

Para um mistério narrar.

Escutai todos! Silêncio!

Vosso Guia vai falar.

No horizonte se mostrava

Com a luz de um brilho divino.

O alvorecer matutino

Cheio de encanto e beleza.

Em débeis ramas tremiam

As flores desabrochando,

Seus perfumes trescalando,

Incensando a natureza

Por detrás daqueles montes,

‘Stava meu rebando pastando,

Por ele eu vi entrando,

Alegres versos cantando.

Cansado, sentei na relva,

Procurando adormecer,

Mas debalde, sem saber

O que havia acontecido,

De repente, róseas nuvens,

No espaço se mostrava

Uma luz resplandecente

E um anjo do céu baixou

Soltando festivos cantos:

― Não temas, que hoje é nascido,

Na cidade de Belém,

Jesus, Filho de Maria,

Que veio pra salvar o mundo

E nos encher de alegria.

*

(1º canto do Galego)

Nestes montes e vales,

Vamos andando sozinhos,

Sem termos grande certeza

Nestes desertos caminhos.

Cantando ao longo ouvimos

A voz de um pastor

Na canção maviosa

Que nos chama com amor.

Lá no sertão onde habitamos,

As pastorinhas não são bonitas;

Aqui, porém, todas se parecem

Com a minha idolatrada Marica.

*

Olhai, olhai e admirai

Minha mulher, como é bonita!

Vejam que olhos que a bela tem

E que corpinho tão catita!

*

Lá, lá ralá, lá, lá                     (a música)

Olhemos todos para Marica,

De seu Bernardo tão querida!

Ela tem olhos que prendem a gente…     (o grupo)

Qual de nós será esquecida?

*

Partamos, ó companheiros,

Partamos todos saudosos!

Voltemos aos nossos lares

Que bem longe deixamos.

Adeus! Jesus amado,

Adeus! Flor de Jessé,

Adeus! Maria Santa e Pura,

Adeus! Adeus, José!

*

(oferecimento)

Trazia para ofertá-lo

Um bom pote de coalhada,

Mas cá minha Maria,

Que tão cheia de maçada,

Por causa de uma beijoca,

Com safanão

Tirou-me o pote da mão,

E lá se foi ele ao chão!

Mas muito envergonhado

Ofereço aos vossos pés

O Bernardo, seu criado!

*

(Galego ao pé do Guia)

― Quem sois vós?

Sou Bernardo Manuel Bernigue,

Marido de minha Maria,

Lá das terras de além-mar.

Sou labrego [camponês rústico], mas sou rico,

Sou feio, não sou bonito,

Tenho dinheiro pra gastar.

Com tua voz nós ouvimos

Para cá logo seguimos

No teu constante chamar.

Digam-nos agora o que queres,

Para que com tanta pressa

Nos chamaste sem cessar.

*

(Galego)

Trazia para ofertá-los

Um bom queijo, cheiroso,

Mas cá meu companheiro,

Mui brejeiro e mui guloso,

Com um forte safanão

Tomou-me o queijo da mão

E engoliu como se engole

Uma bola de pirão.

Mas caro custou-lhe a peça,

Pois deu-lhe uma indigestão.

Eis o que vos ofereço:

Tenho eu aqui no pescoço

Este cordão muito bom

Para curar as pessoas

De quebranto ou mau-olhado.

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho.

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CANTO DE RECORDAÇÃO

Dedicado à Praia de Cumã

Nesta praia de límpidas areias,

Prateada de noite pela lua,

Passo horas cismando em meus amores,

Me perdia, olhando a imagem sua.

*

Ó campina, ó praia sedutora,

Ó montanha, ó vale de saudade!

Meu segredo guardai em vosso seio

Desse tempo de felicidade!

*

Quando o sol pelo monte neblinado

Vai ao mar despejar os seus ardores,

Urna lágrima me rola pela face,

Recordando, sozinha, meus amores.

*

Meu recinto não passa desta praia.

O meu voto que a ela dediquei,

Ó campina, ó praia sedutora

Qual suspiro que eu tanto lhe enviei.

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho.

cumã

Blog de Nonato Brito.

http://vimarense.zip.net/arch2013-01-01_2013-01-31.html#2013_01-21_11_01_37-116286584-0

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ROSINHA

[Valsa]

Rosinha querida,

Escuta meu canto:

Das tuas amigas

Aceita o singelo canto.

*

Rosinha querida,

Escuta, no entanto,

Das tuas amigas

O singelo canto.

*

Rosinha querida,

Tu és uma flor;

Rosinha querida

Tu és um grande amor.

*

Rosinha querida,

Tens muita amizade;

Rosinha querida,

Tu levas saudade.

*

Rosinha querida,

Tens muita amizade;

Rosinha querida,

Tu deixas saudade.

*

Texto e informação de José Nascimento Morais Filho.

Segundo Nascimento Morais (baseado em testemunho de Nhazinha Goulart), Maria Firmina teria composto essa valsa a pedido de algumas jovens que desejavam homenagear uma amiga de São Luís chamada Rosinha Almeida, a qual tinha o costume de passar as férias em Guimarães (Capítulo “Nótulas”, item 17).

Observação

Para ter acesso às partituras dessas composições, acesse a página do sociólogo e pesquisador Rafael Balseiro Zin no Facebook:

https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10155365582232380&type=3

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 A produção perdida

Leude Guimarães, um dos filhos de criação de Maria Firmina, revelou a José Nascimento Morais Filho que a mãe deixara muitos manuscritos ao falecer. Esse material consistia de “cadernos com romances e poesias, e um álbum onde havia muita coisa de sua vida e da nossa família”.

Leude levou esse legado materno ao hotel onde estava hospedado em São Luís, guardando-o em um baú. Quase todo o material se perdeu quando ladrões invadiram o quarto e arrombaram o baú, à procura de bens valiosos. O “Álbum” de Maria Firmina é justamente tudo o que sobrou desse conteúdo para sempre perdido da autora maranhense.

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